Tribuna do Leitor

Enquanto eu esperava o ônibus


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Havia um homem (será que era um homem?) que transitava no meio da avenida, entre os carros, os ônibus e os caminhões. Meus olhos não conseguiram sair dele durante o tempo que eu esperava. Parecia feliz, mas de uma felicidade incomum (hoje não é comum ser feliz). Falava, gesticulava, ria (verdadeiramente). Seus passos não tinham lógica, um ziguezague não compreensivo para nós. Seu objetivo era chegar a lugar algum. Diante de meus olhos ele foi para longe e voltou para perto e depois para mais longe.

Conversava com alguém (apesar de infelizmente eu não ver quem era), aparentemente muito amigo dele, era possível deduzir isso ao ver que era muito prazerosa a conversa. Era alguém muito ágil, talvez uma criança, pois em um momento estava a sua frente e no outro ao seu lado. As roupas deles eram comuns (camiseta e calça jeans), a extravagância estava no calçado inexistente. Estaria adequado se a roupa não fosse tão velha (o velho em nossos dias é descartável). A barba cheia demonstrava o desapego com a imagem (não tinha nenhuma vaidade). Como não estava bêbado, estava doente: Insano feliz.

As pessoas (comuns) passavam ao lado dele, umas o via (apenas uma imagem) outras não via (não querendo ver). Uma o ajudou (lhe deu um cigarro) outra o reprovou (quando ele em exulto gritou). O caminhão buzinou (imprestável atrapalhando o transito) outros carros apenas desviaram (como se desvia de um buraco).

E as pessoas? As normais: quando transitavam estava na calçada (corretos pelo passeio público) no lugar onde o ser humano deve ficar. Meus olhos quase não prestaram a atenção neles (tinha coisa mais interessante para se ver). Pareciam todos infelizes, e de uma infelicidade comum.

Não falava com ninguém (talvez apenas consigo), não faziam nenhum movimento além de colocar um pé na frente do outro, não riam (todos carrancudos). Seus passos eram sempre objetivos (engraçado como sempre temos que chegar a algum lugar que nunca é definitivo). Diante de meus olhos eles passavam e nunca mais voltavam. As roupas em ordem (imagem é mais importante do que somos. Blusas, calças, sapatos, maquiagem, moda, “look” uma vaidade interminável. Estavam sóbrios, saudáveis: Na completa sanidade infeliz.

Ao encerrar esta prosa estou aqui olhando para os dois indivíduos e os comparando-os comigo. Entre a sanidade e a loucura, entre o certo e o errado, entre o santo e o profano. Uma dualidade sem fim que criam uma moralidade hipócrita e falsa. Triste momento histórico do ser humano, onde o Indigente é o único feliz.

Jeferson Alexandre Miranda - professor de filosofia e administração da Uniesp Jaú

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