Por estes dias, recebi um convite da Prefeitura Municipal de Bauru para o lançamento do Orçamento Participativo, por meio do qual “a população obtém grandes conquistas, com obras e serviços”.
A capa do convite chamou-me a atenção pela beleza da foto da Bandeira do município. E me veio à memória todo envolvimento de um cidadão, aniversariante de hoje, com os símbolos bauruenses.
Gabriel Ruiz Pelegrina, 89 anos vividos com amor por esta terra de brancas areias, não podia ter marcado de forma melhor este serviço perene prestado aos bauruenses.
Construindo sua história paralela à de Bauru, o garoto Gabriel viu a aprovação, pela Câmara Municipal, em 17 de agosto de 1927, do projeto de lei Lopes Leão sobre o Brasão de armas de nossa cidade. Aquele Brasão em que, entre outros elementos, gravou-se a onça sussuarana em movimento, sinistra e alerta, com seu rabo na horizontal. Em 1929, a lei municipal n.º 332, oficializou os símbolos.
Os anos se passaram e incomodava a Gabriel que nossos símbolos oficiais não fossem reconhecidos em nível internacional, por estarem fora das exigências heráldicas.
Em 1991, estávamos juntos num projeto inédito, levado a efeito pela USC, curso de História e Delegacia de Ensino, para ensinar nas escolas da cidade, por meio da disciplina História do Município, já existente no currículo da 3.ª série do Ensino Fundamental, a História de Bauru, conforme orientava o MEC na época.
O projeto funcionou por um semestre e foi desativado por motivos políticos. Ficamos tristes, porém não delegamos nosso trabalho e tampouco desistimos de nossa ideia e compromisso como historiadores e cidadãos bauruenses. Resolvemos transformar todo material que havíamos preparado, num manual didático. A Edipro comprometeu-se com a publicação.
Entretanto, ao elaborarmos os capítulos, deparamo-nos com a questão dos símbolos oficiais do município. Gabriel, literalmente, inquietou-se. Não podíamos ensinar o que não estava legal.
Angustiado, chamou o vereador José Walter Lelo Rodrigues e expôs a situação. Foi acolhido imediatamente em suas preocupações. Lelo elaborou o projeto de lei e a Câmara contratou um heraldista que, em várias sessões com historiadores e vereadores discutiu a história de Bauru em seus marcos memoriais. Finalmente, apresentou seu projeto para a Bandeira e o Brasão de Bauru, aprovado em sessão solene e transformado em lei municipal n.º 3.393 em 9 de outubro de 1991.
Enfim, elaboramos o último capítulo e terminamos o manual Bauru: nossa história na escola, publicado pela Edipro. Este manual, único até hoje, foi lançado na Praça Rui Barbosa em 30 de novembro do mesmo ano, juntamente com hasteamento oficial da Bandeira e doBrasão do município, numa comemoração inesquecível!
Bauru deve a Gabriel Ruiz Pelegrina, cidadão de porte maior, este serviço de grandeza ímpar. A identidade de nossa cidade foi cristalizada e pode ser reconhecida em qualquer lugar do Planeta.
Vida longa, Gabriel, para que tenhamos tempo de agradecer todos os seus esforços pela dignidade de Bauru. (A autora, Terezinha S. Zanlochi, é professora-doutora e colaboradora do JC)