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Acidentes de trânsito representam 70% das cirurgias ortopédicas

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Idealizado para ser um aliado no cotidiano, os meios de transporte motorizados cada vez mais representam um perigo à integridade física do homem. O aumento da frota, aliado à pressa e imprudência no trânsito, fizeram com que aproximadamente 70% de todas as cirurgias ortopédicas realizadas no Hospital de Base (HB) de Bauru, neste ano fossem resultado de acidentes.

Somente de janeiro a abril de 2010, o Pronto-Socorro Central (PSC) atendeu 7.819 fraturados, uma média de 65 ocorrências por dia. Deste total, mais de 30% chegaram à unidade depois de sofrer acidente automobilístico, segundo informa médico Luiz Antônio Sabbag, diretor do Departamento de Urgência e Emergência (DUE) da Secretaria Municipal de Saúde. “E atendemos de 6 a 10 vítimas que estavam dirigindo motos. Esses casos costumam ser mais graves”, acrescenta.

De acordo com Aparecido Donizeti Agostinho, diretor técnico da Associação Hospitalar Bauru (AHB), entidade que administra o HB, a quantidade de acidentes e mortes no trânsito vem registrando crescimento mais acentuado nos últimos três anos, principalmente por conta do aumento da frota, que não é acompanhado da adequação necessária da malha viária cada vez mais saturada. “Houve uma melhora do poder aquisitivo e do acesso ao crédito e hoje as pessoas têm possibilidade de financiar um carro ou uma motocicleta com prestações bem baixas, o que dá chance de mais pessoas terem seu próprio meio de locomoção”, frisa.

Por conta deste contexto, ele acredita que o fenômeno possa vir a se tornar um caso de saúde pública em Bauru, como já ocorre na cidade de São Paulo, em um prazo não muito distante. “Nos grandes centros urbanos, isso já é fato. E é o que tende a acontecer aqui se o crescimento da frota persistir e o trânsito se tornar mais caótico do que temos observado”, pontua. Sabbag complementa que o custo com afastamento do trabalho e tratamento, que dura em média sete meses, representa um ônus para os cofres públicos que não pode ser mais ignorado.

Dada à enorme demanda por atendimento ortopédico, o PSC mantém pelo menos um médico especialista na área em todas as escalas de plantões. São eles quem atendem os pacientes de acidentes automobilístico com fraturas e especialmente os motociclistas, que geralmente chegam à unidade em estado grave de saúde. “Quando envolve acidente de moto, os pacientes chegam com politraumas, muitas vezes com traumatismo cranioencefálico”, frisa Sabbag, destacando que, nesses casos, as fraturas mais comuns são as de perna, joelho, punho, braço e ombro.

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Recuperação de paciente com fratura é lenta

Em casos extremos, pode ser necessária até mesmo a amputação (leia mais abaixo), mas, segundo o diretor do DUE, Luiz Sabbag, o prazo médio para recuperação de uma fratura como a de tíbia (osso da perna abaixo do joelho) é de 2 a 6 meses, dependendo da gravidade. “A fratura de tíbia é muito grave, porque quase não há musculatura para sustentar o osso e demanda tratamento com fixação, que é muito demorado. O paciente fica meses em recuperação e ainda corre o risco de sofrer encurtamento da perna”, detalha. Em casos extremos, pode ser até mesmo necessária a amputação.

A informação que não surpreende é que a grande maioria das vítimas que chegam à mesa cirúrgica do HB por conta de acidentes com motos é formada por homens jovens, entre 18 e 30 anos. “É a imensa maioria. Nesta faixa etária, os homens costumam ser mais impulsivos. E as lesões costumam ser muito mais intensas nesses casos”, observa Aparecido Donizeti Agostinho. De acordo com ele, quando é a mulher quem está no comando do veículo de duas rodas, geralmente a gravidade dos ferimentos é menor. Embora o número de motociclistas do sexo feminino também tenha crescido nos últimos anos, ela ainda é mais cuidadosa do que o homem.

Segundo Agostinho, as motos de menor cilindrada são as que mais se envolvem em acidentes, em razão de estarem em maior quantidade nas ruas e também porque os donos de veículos de duas rodas mais potentes costumam ser mais cautelosos, salvo exceções. E, com a projeção de aumento da frota ainda sem data para cessar, o diretor técnico da AHB não vê solução para o problema no curto prazo. Mas acredita que campanhas de conscientização aliadas a uma fiscalização sistemática e rigorosa possam ajudar a coibir os abusos e minimizar as estatísticas.

Para Agostinho, no entanto, o processo educativo teria de ser destinado tanto ao motociclista quanto ao motorista de carro, já que a imprudência acontece dos dois lados. “A solução, na verdade, é difícil. O grande problema é que as motos trafegam por entre os carros, muitas vezes em velocidade excessiva, e isso as torna muito vulneráveis. Mas, no transito de Bauru, seria inviável criar faixas exclusivas de tráfego, como está sendo proposto em São Paulo”, analisa.

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Sonho interrompido

O caso mais recente de morte por acidente de moto em Bauru foi registrado no dia 30 de julho, quando estudante Sarah Cavalheri Felisbino, 18 anos, e seu pai, José Antônio Felisbino, 49 anos, foram atropelados por um caminhão depois de tombarem com a motocicleta em que estavam na rodovia Marechal Rondon. Mas o trauma de uma tragédia desta natureza atinge para sempre até mesmo aqueles que conseguem sobreviver.

É o caso do caminhoneiro Cristiano da Silva, 37 anos, que teve a perna amputada em setembro do ano passado, depois de sofrer uma colisão com um veículo em um cruzamento de uma das ruas do Jardim Bela Vista. Com o impacto, o carro esmagou sua perna esquerda, que teve de ser amputada na altura do joelho.

“Meu joelho foi estraçalhado e não teve como recuperar. Agora estou afastado do trabalho e fazendo fisioterapia para tentar me recuperar”, frisa. Para ele, no entanto, a maior dificuldade foi ter de abrir mão do trabalho, que tanto gostava de desempenhar. “A gente tem que aprender a não sonhar mais. Agora, vou tentar me adaptar a algum outro trabalho, talvez em vendas, mas pela necessidade, não pelo prazer”, lamenta.

Além deste acidente, ele já tinha sofrido um outro, em 2002, quando precisou colocar pinos na perna direita. Em ambas as ocorrências, segundo Silva, a culpa pelo acidente foi do motorista do carro envolvido, que o lançou a metros de distância depois da colisão.

Ainda em fase de reabilitação, o caminhoneiro espera obter uma prótese ainda neste ano para, assim, poder voltar a andar com maior conforto. Enquanto isso, segue tentando se reerguer emocionalmente. “Onde faço fisioterapia, conheci muita gente que teve acidente de moto e está na mesma situação que eu. Conversar com esses colegas acaba ajudando a gente psicologicamente, mas é muito difícil”.

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