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Radical chique pós-moderno

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nova York – O passeio começa muito bem e torna-se incrível quando o trem parte da estação Grand Central, em Niviorque (como dizia o Paulo Francis inspirado no Pedrinho Nolasco, parente da sua mulher), e segue pelas margens do Hudson. Desta vez procuro variações sobre o mesmo tema. A maçã tem muitos sabores. Desço na estação Beacon. A cinco minutos de caminhada está o museu da Dia Art Foundation que reúne vasta coleção com obras produzidas, em sua maior parte, nas décadas de 1960 e 1970.

A palavra “dia” vem do grego e quer dizer “através”. O museu fica numa antiga fábrica da Nabisco, junto ao rio. Ali estão, a pop arte de Andy Warhol, que ocupa sala gigantesca, e o experimentalismo de Joseph Beyus, o artista alemão que criou o movimento Fluxus e marcou a história da arte com performances e instalações antológicas. Pego um pedaço da temporada dedicada ao pós-moderno, a palavrinha hifenada que desde a segunda metade do século passado não sai dos segundos cadernos de domingo, das letras do Caetano, da “ópera seca” de Gerald Thomas e até das tiras do Chiclete com Bananas.

Folclore à parte, o pós-moderno é um conceito sólido (que se desmancha no ar) e tem suas coordenadas rigorosamente determinadas no tempo e no espaço. O moderno morreu – não com um suspiro, mas com um estrondo (TS Elliot) – às 8h15 do dia 6 de agosto de 1945, quando a bomba atômica caiu sobre Hiroshima. A partir daí, os artistas (“as antenas da raça”) começaram a refletir em suas obras a realidade que os cercava, à medida que os dois grandes blocos antagônicos se armavam até os dentes numa corrida nuclear que nos fazia pensar o impensável: a viabilidade técnica de explodir o planeta ao simples apertar de um botão. A exposição do Dia Art Foudation nos apresenta desde os precursores – Joyce, na literatura; Schoenberg, na música e Mondrian, nas artes plásticas. Aborda – e é o mais interessante – as mudanças no comportamento social em meio a toda uma estética do caos. Os beatniks, representado por Jack Kerouac, 1957 (On the Road, Pé na estrada, lembra-se?). Aprendi que beat, por definição, significava atividade física (bater) e a retomada do espírito religioso (beatitude), em reação ao materialismo desenfreado do pós-guerra. Passo pelo cool, cultura do jazz de Miles Davis, o Actor’s Studio com Ellia Kazan e Stanley Kubrick. Entro no Cult, a palavra mais estuprada dos últimos tempos. Basta ver os filmes “cult” do Telecine. Nada a ver. Um cult não é fabricado da noite para o dia, é um processo que se cristaliza ao longo de décadas de curtição cultural. Cults são filmes que já mereceram dissecações e teses de doutorado, vistos e revistos por seitas de adoradores, como o Cidadão Kane, de Orson Wells. Cult, por exemplo, é Psicose, de Alfred Hitchkock. Humphrey Bogart é quase sempre Cult em Casablanca, filme que comoveu igualmente a intelligentsia e o povão.

A seção mais divertida é a da série Kitsch (pseudo-arte, em alemão). Definido como uma manifestação sentimentalóide e de mau gosto, o que o brasileiro chamaria de cafona ou brega. Trata-se, evidentemente, de um conceito de classe. O bom gosto tem sido o gosto da classe dominante; o kitsch, seria o gosto das classes baixas, como os pingüins de geladeira, os anões de jardim e as bandejas de asas de borboletas. Todos esses conceitos (e preconceitos) estéticos foram pulverizados pelo pós-modernismo e o kitsch tornou-se uma espécie de fator lúdico no espaço social. Pinguim agora vive no topo das geladeiras de inox de porta dupla na vertical. O mobiliário pé-de-palito está de volta. A boneca Barbie está catalogada na Encyclopedia of Bad Taste, de Jane Michael Stern, assim como as unhas artificiais de esmaltes berrantes e até frases como Fuck you (como chama mesmo aquela atriz que foi presa e condenada por embriaguez ao volante e uso de drogas?). No Brasil poderíamos acrescentar a arquitetura dos motéis, a música sertaneja; as feiras hippies com produtos industrializados, com a da Praça Rui Barbosa.

Paro na seção Zen, com Z de zorra. A palavrinha está em todas. Zen nada tem de místico: é uma técnica de meditação à margem, ou acima, de sistemas religiosos e filosóficos. O zen é chegado a enigmas como este: “Conhecemos o som de duas mãos batendo palmas. Mas qual é o som de uma mão batendo palmas?” Pense nisso. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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