Um livro de registros de mortos do cemitério Turvinho, localizado no município de Borebi (45 quilômetros de Bauru), revela que o bairro de Tapera Queimada foi ocupado por imigrantes nipônicos entre os anos 1920 e 30. Os japoneses trabalhavam na cultura do algodão em uma propriedade rural, mas deixaram o local sem que as causas fossem conhecidas, à moda oriental, em silêncio.
A passagem dos japoneses por aquela região do Estado não está nos anais da história de Borebi, mas foi pesquisada pela jornalista Tânia Cristina Morbi em seu trabalho de conclusão do curso de jornalismo da Universidade Paulista (Unip). Por meio de depoimento de antigos moradores, Morbi reconstruiu parte da história da passagem dos orientais.
Os restos daquilo que um dia foi chamado de cemitério foram encontrados por Cid Napoleone, que trabalha na reorganização de locais onde se enterram pessoas na região. “Há restos que confirmam cerca de 30 túmulos. Pelos registros em livros descobrimos que 70% das pessoas enterradas no turvinho eram de origem oriental.”
Ele acha que o local, hoje propriedade da Lwart Lwarcel, deveria ser conservado e não abandonado. “As famílias japonesas foram embora e, por mais que a gente tentasse localizar seus descendentes, não obtivemos êxito total. As ruínas ficam em uma área de preservação ambiental da empresa. Eu acho que o que restou por aqui tem valor histórico.”
À época, a cidade de Borebi, que hoje conta com pouco mais de dois mil habitantes, tinha dois locais onde eram enterrados os seus mortos. Um na área urbana e outro no Tapera Queimada, que fica cerca de 10 quilômetros por estrada de terra. “No cemitério municipal urbano desocupamos cerca de 50% da área e o local poderá ser utilizado por mais 100 anos, sem ser aumentado, uma vez que o município registra aproximadamente 18 mortos/ano.”
Ele explica que conseguiu ganhar espaço na reorganização do cemitério fazendo um levantamento no livro de registros dos mortos. “Constatei que inúmeros túmulos estavam abandonados e a maioria deles era de famílias que já não moravam mais no município e o terreno não era perpétuo.”
Com os dados em mãos, Napoleone passou a procurar as famílias por todos os meios possíveis. “Através da Internet, junto aos dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e contatos telefônicos. Alguns dos descendentes foram localizados. Os familiares daqueles que tinham um túmulo em ruínas foram convidados a proceder a reforma.”
Uma outra estratégia foi adotada para encontrar as famílias, frisa o reorganizador de cemitérios. “No Dia de Finados, após a reorganização, ficamos no local para esclarecer os parentes sobre as mudanças. Foram poucos os que nos procuraram o que para nós foi sinônimo de que a família realmente não está mais na região. Mas houve um caso que chamou a atenção.”
Segundo Napoleone, uma senhora o procurou porque o túmulo de sua tia não estava mais no local. “Eu expliquei que ele estava em ruínas e que os ossos estavam no memorial. Ela perguntou que dia os ossos foram retirados e quando eu respondi ela começou a chorar. Foi naquela mesma data que ela havia sonhado com a tia pedindo para ela ir até o cemitério. Ela construiu um túmulo para a tia.”