Bairros

Saber ler e escrever é...

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

‘Uma alegria sem tamanho’

“Uma alegria sem tamanho.” Foi esta a frase que Vilma Braque Francisco, 69 anos, utilizou para definir o que sente pelo fato de estar aprendendo a ler e a escrever. Ela começou a frequentar o Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja) por convite de duas amigas há alguns meses e já é um dos destaques da turma.

Quando a reportagem visitou o polo de ensino, na sexta-feira dia 6, Vilma mostrou a que veio e deixou clara sua vontade em aprender cada dia mais. Desenvolta, foi a primeira a aceitar dar entrevista para o JC. Entre outras coisas, falou sobre a impossibilidade de estudar na infância e como a alfabetização lhe fez falta durante a vida.

Quando menina, Vilma teve de trabalhar para ajudar no sustento da família. Depois, casou-se e teve filhos. Já na idade adulta, achava que, se voltasse para a escola, não acompanharia os outros alunos. E, aos poucos, foi se conformando com o fato de não saber juntar as palavras.

“Até que um dia eu fui ao médico, por causa de uma dor que estava sentindo. Ele me orientou a procurar um grupo de ginástica. Certa vez, neste grupo, o professor pediu pra gente escrever uma palavra. A minha era ‘necessidade’. Como eu não sabia, perguntei a duas amigas. Foi quando elas me convidaram para conhecer o Ceja”, lembra Vilma.

De lá para cá, Vilma descobriu sua principal alegria: a escola. Atualmente, faz questão de fazer tudo dentro dos conformes. Capricha na letra, sempre usa uniforme e faz de tudo para não faltar. “Não posso desapontar a professora, ela é meu maior incentivo”, justifica.

‘Meu passatempo predileto’

Quando está na escola, Tereza Ribas Garcia Costa, 70 anos, quase não vê a hora passar. Entretida em meio aos colegas e aprendendo uma lição nova a cada dia, ela deixa de lado o serviço de casa e a família para se dedicar aos estudos.

Diferente da maioria de seus colegas, Tereza já havia tentado voltar à escola em 1963, mas, devido a outros compromissos mais urgentes, teve de abandonar seus planos. Durante o tempo que ficou afastada das carteiras escolares, ela praticava o pouco que aprendeu em casa, fazendo contas e escrevendo o próprio nome.

Ela ficou sabendo do aulas de alfabetização ministradas no Ceja por acaso. “Foi um presente do destino. Eu estava caminhando por aqui com uma vizinha e, o pouco que sabíamos ler, foi o suficiente para descobrirmos que estava com matrículas abertas. No dia seguinte nos inscrevemos”, conta.

Em outubro, vai completar um ano que ela está frequentando o Ceja. Além de aprender a ler e a escrever, Tereza também faz o papel de trazer mais alunos para a escola. Sempre que pode, faz o convite a outras pessoas.

“Estou muito feliz. Agora estudar é a minha prioridade, as outras coisas que esperem”, afirma, decidida.

‘Um sonho de infância’

Para muitos, ler a placa de um ônibus ou os dizeres de um cartaz é algo natural, tanto quanto escrever um bilhete ou anotar uma receita. As benesses da alfabetização estão tão incutidas no cotidiano da maioria das pessoas que, muitas vezes, passam despercebidas. Porém, para pessoas como Doralice Adorina Horikawa, 54 anos, aprender a ler e escrever é um sonho.

Quando criança, Doralice cursou até a 3º série do ensino fundamental, mas teve de interromper os estudos por imposição do pai. Na sequência, casou-se, teve filhos e desistiu de estudar.

“Eu sempre trabalhei de dia e estudava à noite, mas meu pai não achava isso certo. Ele tinha ciúme. Depois me casei e meu marido também era muito ciumento. Com o tempo fui esquecendo o pouco que tinha aprendido nos três anos que frequentei a escola”, conta.

Porém, foi o mesmo marido ciumento que a incentivou a retomar os estudos, quase 40 anos mais tarde. “Estávamos passando de carro em frente ao Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja) quando vimos a placa de matrículas abertas. Para minha surpresa, meu marido e minha filha me incentivaram. Com o aval da família, não pensei duas vezes”, afirma.

Atualmente, Doralice frequenta as aulas no período da manhã, participa de um grupo de ginástica três vezes por semana durante a tarde, e ainda tem fôlego para trabalhar à noite, como cuidadora de idosos. “Para mim, dar conta de tudo é uma questão de honra”, frisa.

‘Motivo de orgulho’

Quem lê os livros publicados pelo encanador Osvaldo Aguiar, 58 anos, não imagina que ele passou mais de meio século lendo e escrevendo de forma precária. Isto porque Osvaldo abandonou os estudos quando ainda era jovem, por vontade própria. Só sentiu necessidade da alfabetização muito tempo depois, conforme progrediu na profissão que escolheu.

“Quando criança, eu até fui matriculado em várias escolas, mas estava mais interessado em fazer farra. Gostava de nadar nas represas, jogar futebol. Depois é que senti falta do que podia ter aprendido na escola” , explica.

Foi trabalhando como funcionário da prefeitura que o encanador ficou sabendo da existência do Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja). Frequentou as aulas por dois anos, de 2006 a meados de 2007, e, logo na sequência, emendou com o curso de ensino médio. Atualmente, Osvaldo faz planos de receber seu novo diploma até outubro deste ano.

Além de permitir a realização em sua vida profissional, retornar à escola também possibilitou ao encanador descobrir um novo talento, até então soterrado pela falta de tempo e de conhecimento: o de escritor.

Osvaldo lançou seu primeiro livro, chamado “Vida e Poesia”, em 2009. O segundo volume da série veio em 2010, com direito à lançamento em grande estilo e noite de autógrafos no Automóvel Club.

“E o terceiro já está saindo do forno. Só falta mandar pra gráfica”, revela ele, ponderando que, se pudesse voltar atrás, não teria deixado a escola.

Doce na mão de criança

Há males que vêm para bem. O velho ditado popular é o que melhor define a história de vida de Maria Aparecida de Lima da Silva, 55 anos. Isto porque foi preciso que ela passasse por uma situação de grande aperto financeiro para que pudesse ser apresentada ao mundo das letras.

Maria perdeu o pai quando ainda era criança, e, por conta disso, dedicou-se a trabalhar para ajudar a mãe a sustentar os oito irmãos. Casou-se aos 19 anos sem nunca ter cogitado a hipótese de estudar.

“Era algo fora da minha realidade. Meu marido dizia que burro velho não aprende mais a marchar. E, na verdade, eu sempre acreditei nisso”, confessa.

Há sete anos, Maria ficou viúva. Algum tempo depois, perdeu o direito a receber o benefício da pensão. Sem ter como se sustentar, procurou se informar a respeito do Bolsa Família, programa do governo federal que dá ajuda financeira às pessoas de baixa renda.

“Foi quando me disseram que, para receber os R$ 60,00 do programa, eu precisava fazer por merecer. E, para isso, tive de voltar a estudar. Para falar a verdade, vim para o Ceja por conta do dinheiro, mas quando aprendi a escrever meu nome, me senti como uma criança que prova um doce pela primeira vez”, relata.

A partir daí, Maria foi apresentada a um mundo novo, bem mais interessante daquele que ela transitava anteriormente. Depois da grafia do próprio nome, ela também aprendeu a ler e escrever.

“Minha maior alegria foi quando eu estava em casa e recebi uma carta de minha filha. Quando consegui identificar o nome dela no remetente, quase não acreditei. Foi muita emoção, afinal, eu realmente aprendi a ler. Esta sensação é a coisa mais gostosa do mundo”, comemora ela, que, para complementar a renda, também aprendeu a fazer crochê.

‘Superar medos’

O medo e a vergonha foram os principais motivos pelos quais Vera Lúcia Amiro Pereira, 48 anos, ficou afastada da escola por tanto tempo. A insegurança a fazia acreditar que, se voltasse a estudar depois de tanto tempo, não conseguiria acompanhar o restante da turma. Porém, o empurrãozinho de uma amiga e o incentivo da família a fizeram mudar de ideia e encarar o novo desafio.

Até conhecer o Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja), Vera não se lembra de ter contato com o lápis e o caderno. Isto porque nunca frequentou a escola. Membro de uma família composta pelo pai, a mãe e mais oito irmãos, ela sempre teve de trabalhar para ajudar na renda do grupo. Os estudos jamais fizeram parte de seus planos.

“Era muito triste olhar as letras e não saber o que elas significavam. Mas eu sempre achei que aprender seria demais para a minha cabeça, que aquilo não era para mim, me sentia inferior”, analisa.

Atualmente, Vera cursa o terceiro ano do ensino fundamental em um polo do Ceja localizado no Núcleo Fortunato Rocha Lima. Está na escola há três anos e meio e não pretende sair tão cedo de lá. “Ou, pelo menos, até eu estar craque na leitura e na escrita”, completa.

‘Um exercício de dedicação’

Davi Carlos Pereira, 16 anos, se destaca em meio a uma sala de aula com cerca de 20 pessoas. É que ele também estuda no Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja) e, diferente da maioria dos alunos, não tem mais de 50 anos.

O jovem frequenta a escola há apenas 3 meses e, atualmente, está na 4º série, prestes a concluir o ensino fundamental. Se matriculou no Ceja com o incentivo da mãe, que não queria que ele abandonasse os estudos.

“Eu sempre tive dificuldades de aprender. Em uma escola do Estado, por exemplo, as salas têm muita gente e eu me desconcentro com facilidade. Os garotos começam a bagunçar e eu caio na tentação. Com o desempenho ruim, desanimei e preferi abandonar os estudos”, conta.

A alternativa encontrada pela família do garoto foi matriculá-lo no Ceja para acelerar seu percurso nos estudos. “Aqui é diferente. Tenho uma atenção especial dos professores. Acho que desta vez vai dar certo”, aposta.

•Serviço

O Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja) está com matrículas abertas para turmas do 1º ao 4º ano do ensino fundamental. Interessados devem procurar as unidades mais próximas de sua residência (veja ao lado), portando um documento pessoal e, se houver, algo que comprove a escolaridade. Tanto as aulas quanto os materiais são gratuitos.

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