Tribuna do Leitor

Quem passeia, quem trabalha, quem descansa


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O projeto de lei do vereador Roque Ferreira, votado ontem pela Câmara, que propõe que os trabalhadores de alguns setores descansem aos domingos, está gerando, naturalmente, bastante polêmica. É esperado que os proprietários e seus representantes tenham essa reação, tomando em apoio os veículos que podem e tentando imprimir a própria opinião no senso comum, afinal os interesses dessa pequena elite de comerciantes estão sendo atacados e os trabalhadores beneficiados.

Contudo, acredito que a discussão presente, que a propósito é sempre bastante oportuna, não deve ser conduzida pelos pormenores da prática ou regulamentação da lei específica do vereador Roque, mas sim tratada como um reflexo da organização da sociedade atual. A sugestão de caminho é que avaliemos esse cenário antes de qualquer posição.

    Os trabalhadores que participaram dos comentários públicos recentes, que de tão inseridos na lógica da exploração defendem os métodos que são seus próprios algozes, dizem de uma preocupação com seus passeios dominicais; domingo nos shopping centers, nos supercenters, nos fast-foods, como se as opções de lazer dos bauruenses devessem estar ligadas ao consumo de mercadorias, produtos, serviços definidos como modelo por certa estrutura, que além do mais não é brasileira, tampouco bauruense.

A condução do homem - principalmente o trabalhador - pela sociedade do consumo a uma condição em que está consumindo mesmo em seu horário de lazer não é novidade dentro de uma perspectiva capitalista, onde há mais importância nas aquisições do que nas reflexões, onde o ser humano é transformado em um consumidor, vagando entediado e sem sentido, seguindo a frivolidade dos desejos e sensações imediatas. Então temos as correlações de forças entre os trabalhadores que querem descansar aos domingos, outros trabalhadores que querem que seus colegas trabalhem aos domingos para que possam consumir, os donos de comércio que querem ganhar dinheiro também aos domingos, e os outros vereadores julgando a proposta do vereador Roque Ferreira, decidindo quem ganha dinheiro, quem trabalha, quem descansa, quem consome e quem se aliena.

    Em tempo, discordo de nosso amigo leitor Roberval Silva, que num trecho de sua carta disse: “O tempo passou, o mundo evoluiu, nobre vereador Roque. Temos que nos atualizar sempre”. Olho e vejo que de fato o tempo passou mesmo, temos que nos atualizar mesmo, mas será que o mundo evoluiu? Não consigo observar esta evolução, ao passo que no mundo do trabalho temos a mesma organização de classes, e empresas e indústrias, aqui de Bauru inclusive, utilizando-se de um modo de organização do trabalho baseado em Taylor, um economista do século XIX, cujo método é conhecido como Taylorismo. Desta outra reflexão fica a seguinte questão: o mundo do trabalho, do ponto de vista do trabalhador, evoluiu como a sociedade de consumo?

Concordo com a proposta do vereador Roque Ferreira, pois o trabalhador não tem escolha, e acho justo que ele tenha o direito de descansar nos domingos e feriados. Posso concordar com propriedade, afinal trabalhei durante um grande período da vida no comércio de Bauru, e foram longos e longos anos onde o Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal eram sinônimos de esgotamento físico, mental e infelicidade por estar longe da minha família, e o incremento financeiro nunca chegou nem perto de compensar este desgaste. Certamente não há melhor maneira para entender e ser tocado pelas questões do outro senão sentindo o mesmo peso, carregando o mesmo fardo.

Na atual perspectiva capitalista é cada vez mais difícil encontrar um homem público pensando de fato no bem público, fazendo tentativas na defesa do interesse dos trabalhadores, e neste sentido ficam aqui minhas saudações ao vereador Roque Ferreira.

Importantes agora são as relações de força que compõe a apresentação e votação do projeto: temos os trabalhadores que querem descansar aos domingos, outros trabalhadores que querem que seus colegas trabalhem aos domingos para que possam consumir, os donos de comércio que querem ganhar dinheiro também aos domingos, e os outros vereadores julgando a proposta de lei, decidindo quem passeia, quem trabalha, quem descansa e quem ganha dinheiro.

Khalil Axcar - professor

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