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Inflação incomoda, mas já foi pior...

Paulo Panossian
| Tempo de leitura: 3 min

Neste ano de 2010, a inflação no País deve atingir um patamar indesejável de 5,5%. O centro da meta projetado pelo Banco Central era de 4,5%. Mas os estímulos de redução de impostos para vários setores da economia criados pelo governo, visando melhorar o consumo interno devido à crise, mais aumento na oferta de crédito e excessivos gastos públicos improdutivos, propiciaram um ambiente alimentador de uma inflação fora de eixo.

Preocupado com estes rumos inflacionários, o BC, guardião da nossa moeda, vem aumentando a taxa básica Selic, hoje em 10,75%, contra 8,75% no início do ano, tudo para inibir a demanda e o aumento da inadimplência, porque com as facilidades de crédito os gastos da família brasileira vêm crescendo desordenadamente.

A partir da criação do Real, na gestão FHC, a nossa inflação finalmente foi domada. A população, vigilante, incorporou rápido estes benefícios dos preços estabilizados. A já precária renda familiar que era drasticamente corroída pela alta diária dos preços até 1993, como que num conto de fadas se dissipou e a população, principalmente a carente, passou a consumir mais e melhor.

É bom lembrar estes fatos históricos do antes e depois da introdução do Real, porque a sociedade precisa ser implacável, exigindo dos nossos governantes que cada vez mais tenham responsabilidade no uso dos recursos públicos, para que investimentos em infraestrutura sejam priorizados.

Então, nada melhor do que fazer um retrospecto sobre números da nossa inflação passada. Entre 1945 e 1980, em apenas três meses deste período é que tivemos inflação abaixo de 10% ao ano. Por esta razão a média inflacionária nestes 35 anos citados foi de 37% ao ano.

Ou seja, quem ganhava naquela época R$ 12 mil como renda anual, a inflação corroia seus proventos em aproximadamente R$ 4.450,00. Já com a possível inflação de 5.5% em 2010, com esta mesma renda citada acima a perda para o trabalhador será de apenas R$ 660,00.

Na década de 90, a média inflacionária foi de 17%. E entre 2001 e 2009, de 7%. E é bom lembrar que no ano de 1993, que antecedeu a introdução do Real, a inflação atingiu índices desastrosos de 2.400% ao ano.

Certamente podemos dizer que, graças a este controle inflacionário conquistado nestes últimos 16 anos, o Brasil se liberou desta loucura dos preços instáveis, reajustes salariais mensais e do consumo de alimentos básicos sempre insuficientes na mesa da maioria das famílias brasileiras. Se não tivéssemos estancado este vírus da inflação lá atrás, hoje raríssimas pessoas teriam seu computador, carro, celular e viajando Brasil afora, como fazemos constantemente.

Logicamente que estamos longe de afirmar que os nossos problemas mais prementes foram solucionados. Está aí a péssima qualidade na educação, na saúde, no transporte coletivo, saneamento básico etc porque ainda nossos políticos continuam relapsos e irresponsáveis.

É bom advertir também que índices inflacionários como o deste ano, que deverá ficar próximo de 5,5%, são ainda muito altos. As autoridades monetárias precisam perseguir a média de inflação dos países desenvolvidos, que está em 2% ao ano.

Quanto mais baixa a inflação, o governo paga menos juros sobre a sua dívida pública e sobra mais para investir. Somente neste ano, com o aumento da taxa Selic de 8,75% para possível 11,75% até o final do ano, o governo federal vai despender em juros R$ 15 bilhões, e em 2011 R$ 48 bilhões.

Com estes recursos, daria para construir os estádios da Copa, o Trem Bala, modernizar os aeroportos, portos, mais metrôs, etc.

Portanto, inflação alta não adoece somente o nosso bolso, mas mata principalmente o nosso futuro.

O autor, Paulo Panossian, é jornalista, e colaborador de Opinião - e-mail: paulopanossian@hotmail.com

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