Bairros

Folclore: o encantador mundo da imaginação

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Todos os dias, especialmente durante a noite, os bairros de Bauru são tomados por criaturas misteriosas. Elas ficam à espreita, observando todo e qualquer movimento executado em um horário em que seres humanos, principalmente as crianças, não deveriam estar nas ruas.

Alguns são seres encantados, inofensivos, que cumprem o papel de defender a natureza. Outros, são perigosos e assustadores, vítimas de alguma maldição. Mas o fato é que estas criaturas folclóricas existem em grandes números e são das mais variadas espécies. As que ficaram mais conhecidas foram vistas por caipiras, em sítios ou fazendas. Entre elas estão o Saci, o Curupira, o Lobisomem, entre outras tantas.

Embora seja impossível descobrir as datas dos primeiros relatos destas aparições, sabe-se que já somam alguns séculos, o que permite concluir que tais criaturas são também eternas.

A constatação de imortalidade é motivo de comemoração para Dalva Aleixo, pesquisadora da cultura popular e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Isto porque, de acordo com ela, a preservação e a transmissão do folclore é fundamental para manter os laços de uma comunidade e resgatar elementos culturais que não existem mais em um determinado lugar.

“A palavra folclore significa “saberes do povo”. Ele pode ser composto de lendas, crenças, provérbios, entre outras coisas, e é fundamental para manter a identidade de uma comunidade. Por meio dele é possível se situar no tempo e no espaço, além de se poder descobrir as origens de uma determinada região”, explica Dalva.

Tito Pereira, do Instituto Cultural Yauaretê, que trabalha pela preservação do folclore, também atribui a imortalidade dos personagens folclóricos à importância que eles exercem sobre a sociedade. Para ele, o segredo da sobrevivência de lendas e contos consiste em manter uma permanente ligação com a modernidade.

“Cada história tem um sentido, um porquê. Além disso, o imaginário se confunde com o real a ponto de se tornar um mistério permanente. Tem gente que defende já ter visto o Saci, por exemplo, e passa a experiência para a próxima geração. Mas também existe quem duvide e, da mesma forma, passe a lenda adiante”, afirma Tito, que crê que tais histórias nunca vão deixar de existir.

Entre crentes e descrentes, sem dúvida as crianças são as que mais se encantam com as peripécias do Saci e do Curupira ou com o mau humor do Unhudo e do Lobisomem. A explicação é simples: dotados de inocência, os pequenos são capazes de ver um mundo maior, repleto de magia e fantasia.

Para Dalva, a receptividade infantil aos contos folclóricos é fundamental na constituição da personalidade das crianças que, analisando o comportamento dos personagens, adquirem a noção do que é certo e do que é errado.

“Muitas histórias têm a função de educar de maneira lúdica. As crianças percebem que os personagens folclóricos recompensam os bons atos e punem as coisas erradas. Além disso, quem crê viver em um mundo melhor tem a percepção ampliada”, destaca Dalva.

Juliana Machado Jorge Botelho, diretora e professora de uma escola de educação infantil, vivenciou o encantamento das crianças com os contos folclóricos de perto. Este ano, durante todo o mês de agosto, incentivou os alunos a estudarem contos e a ler histórias, além de investigar a fundo o baú de contos de seus avós.

“O resultado foi surpreendente, eles ficaram superempolgados. Criança gosta de mistério. Penso que é papel da escola manter este tipo de tradição e incentivar o resgate das raízes culturais da população”, avalia.

Embora possam divergir quanto à crença em personagens folclóricos, Dalva, Tito e Juliana concordam em afirmar que o encanto do folclore é justamente a incerteza e o estreito limiar que separa o real do imaginário.

E, se você ainda dúvida existência de tais criaturas, talvez seja porque nunca viu uma delas circulando pelas ruas. “É assim mesmo, pois, como diziam os antigos, elas aparecem para poucas pessoas e quando menos se espera”, relata Tito, em tom misterioso. Quem sabe hoje, Dia do Folclore, elas estejam espreitando por aí?

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Monteiro Lobato

Quando o assunto é folclore, é inevitável lembrar de Monteiro Lobato, autor responsável por dar vida eterna a personagens folclóricos como o Saci Pererê e a bruxa Cuca.

De acordo com a pesquisadora Miriam Giberti Páttaro Pallotta, doutora em letras pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a obra de Monteiro Lobato representou um divisor de águas no cenário literário brasileiro, principalmente na literatura infantil.

“Ele fez inovações tanto em relação ao conteúdo quanto à forma de escrever. Criou um cenário, o famoso Sítio do Picapau Amarelo, em que personagens de origens e tempos diversos conviviam e passaram por inúmeras situações e aventuras. Dessa forma, mostrou a possibilidade e a riqueza da diversidade cultural, do contato de culturas diferentes”, afirma.

A pesquisadora explica ainda que, em obras como “O Saci” e “Histórias de Tia Nastácia”, Monteiro Lobato apresenta personagens e fatos do folclore brasileiro de um modo singular, promovendo a intersecção desses elementos com os personagens do Sítio, que discutem e reagem diante do que “descobrem” sobre determinado assunto.

“Ele conseguiu renovar a tradição ao dar ao leitor a oportunidade de conhecer um pouco de nossa cultura, de nosso folclore, através do diálogo entre o passado e o presente, entre o imaginário e o real”, frisa.

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