Teerã - No quarto dia consecutivo de avanços militares ou nucleares, o Irã informou ontem que seu Exército abriu uma linha de produção para dois tipos de navios bélicos. Segundo a mídia estatal, a linha inclui um navio armado com lança-mísseis de “elevado poder destruidor” e um patrulheiro, que “adicionarão poder extraordinário à Marinha iraniana”.
Nos últimos dias, o país persa também inaugurou sua primeira central nuclear para produção de energia e fez testes de mísseis. E apresentou seu primeiro “drone” (avião não tripulado) de fabricação nacional - que será um “embaixador da morte”, segundo o presidente Mahmoud Ahmadinejad, para os inimigos do Irã.
A escalada responde à crescente pressão ocidental sobre o programa nuclear iraniano -o Ocidente acusa o Irã de buscar a bomba atômica, mas o país persa diz que seu objetivo é pacífico. A pressão resultou em novas rodadas de sanções impostas tanto pela ONU quanto pelos EUA e a União Europeia, unilateralmente. E, em 1º de agosto, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, Mike Mullen, disse que Washington considera reagir militarmente caso não consiga dissuadir Teerã de perseguir seu programa nuclear.
O ministro da Defesa, Ahmad Vahidi, disse ontem que “se nossos inimigos nos atacarem, a reação não se limitará à nossa região”. Os EUA responderam que os novos armamentos unirão os aliados de Washington e tornarão o “caminho” do país persa “menos seguro”.
Racha conservador
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, fez ontem uma demonstração de força perante críticos dentro de sua ala conservadora e nomeou como enviado ao Oriente Médio seu aliado Esfandiar Rahim-Mashaie - até então chefe de gabinete e sob pressão para renunciar.
O episódio evidencia disputas internas que forçaram o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, a interferir.
Se após a polêmica eleição de junho de 2009 o maior racha no país era entre governistas e reformistas (subjugados por uma forte repressão), atualmente a divergência mais significativa é entre os conservadores no poder.
A oposição a Ahmadinejad dentro de seu próprio governo tem raízes religiosas. Mashaie, que já apoiou a aproximação com o arqui-inimigo Israel, foi alvo de críticas ao defender que o Irã deveria promover no mundo sua forma de praticar o islã xiita, em detrimento da vocação universal da fé. A ideia é controversa e de crucial importância no regime islâmico. Críticos reagiram dizendo que representa um “nacionalismo pagão”.
Uma ala liderada pelo veterano parlamentar Ali Larijani questionou, além da divergência ideológica, a eficiência de Ahmadinejad em implementar políticas aprovadas pelo Parlamento e em conduzir a economia (o desemprego chegou a 14,6%).
O aiatolá Khamenei, que geralmente defende Ahmadinejad em disputas internas, desta vez reagiu pedindo união e dizendo, na TV, que deu “um aviso sério às autoridades de que não deveriam tornar essas diferenças públicas”.
Em resposta, Ahmadinejad e o Parlamento fizeram ontem declarações conciliatórias. Agora, o presidente criou quatro cargos de enviados regionais, mostrando que ainda mantém poder e reagindo ao isolamento externo do Irã. Também ontem, três autoridades judiciais foram suspensas no Irã, acusadas de participação na tortura e morte de três prisioneiros.
Os mortos haviam sido detidos durante os protestos que se seguiram ao pleito de 2009, mas um deles era filho de uma importante figura conservadora do país, o que aumentou a indignação pública quanto ao episódio. Com a suspensão, os funcionários perdem imunidade e poderão ser submetidos a julgamento.