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A novidade do antigo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os norte-americanos conseguem transformar qualquer coisa numa oportunidade de negócios. A poucos quilômetros de Nova York, no caminho da Filadélfia, na pequena New Hope, às margens do Rio Delaware, o padre pôs à venda a Igreja de Nossa Senhora do Menino Jesus. Uma construção sólida, em estilo vitoriano de tijolinhos vermelhos aparentes. E conseguiu vendê-la com o apoio dos seus paroquianos. Business is business. A pessoa que comprou ficou com o altar, as imagens e os vitrais. Hoje compõem a atmosfera “diferente” de um bar e restaurante muito procurado pelos turistas. O proprietário aproveitou o pé direito alto e fez um mezzanino decorado por arcos ogivais e a grande imagem de Nossa Senhora. Lá são servidas as refeições. Na parte térrea fica o bar onde os consumidores “benzem os santos”. New Hope é uma cidadezinha tipo presépio, de dois mil e quinhentos habitantes. As centenárias mansões de madeira são hoje lojas de grife e o velho moinho de farinha transformou-se num centro cultural. A comunidade gay elegeu os resorts da cidade como os preferidos para seus arrulhos amorosos. Os habitantes da então pacata cidadezinha nunca ganharam tanto dinheiro. A região estava em decadência desde a primeira metade do século passado, depois do fechamento de seus canais, por onde transitavam embarcações puxadas por mulas desde as margens.

Os norte-americanos têm idéia fixa na prosperidade econômica. Os sociólogos explicam com base na teoria de Max Weber, que este ideal de inspiração calvinista ajudou a construir a maior nação do mundo. Estão sempre elucubrando. Quando falta inspiração para coisas novas apelam para o retrô. O termo é aplicável à decoração, à vestimenta e à cultura em geral. O que deu certo no passado pode voltar a ter sucesso. Evidentemente com um novo olhar na recriação. O maior sucesso na Broadway é Mary Poppins. Uma fantasia escrita pela escritora inglesa L.P. Travers em 1935. Disney explorou no cinema as peripécias da super nanny que era capaz de voar rumo as estrelas com o seu guarda-chuva. No teatro da Broadway, os cenógrafos conseguem fazer a mocinha de a peça voar com seu guarda-chuva que tem o cabo em formato de uma cabeça de ave. E quem quiser tentar em casa pode comprar a marypoppin´s umbrela na butique do teatro, por módicos 40 dólares. O imigrante recente aprende fácil esse modus americano de ganhar dinheiro. Numa esquina da China Town o homenzinho erguia o guarda-chuva acima dos olhos rasgados e gritava “five-dállars-five-dállars”. Quando começou a chover o pregão mudou: “ten-dállars-ten-dállars”. Voltaram à Broadway , “West Side Story”, “Hair”, “South Pacific”.

No Dizzy´s Club, o maior salão de jazz de Manhattan, no moderníssimo prédio da Warner , tendo como pano de fundo o Central Park, o homenageado era Tom Jobim. Na onda nostálgica estão de volta os boppers do pós-guerra no meio jazzístico. Padroeiros como os saxofonistas Lester Young e Charlie “Bird” Parker são reinterpretados. Como Norman Mailer definiu no famoso ensaio The White Negro: “Em lugares como o Greenwich Village, um ménage-à-trois se completou: o boêmio e o delinquente juvenil se viram face a face com o negro”. Cada um na sua. Ninguém mexe com ninguém no sagrado Village do Blue Note, da Washington Square e dos barzinhos com jazz ao vivo. A atmosfera noir, ou dark é física e psicológica. O Village Voice, jornal do bairro, define a expressão film noir: “Seus personagens circulavam desconfiadamente em torno uns dos outros, num mundo de clubes noturnos e restaurantes de beira de estrada, um teatro da memória à meia-luz, em que o rosto das mulheres desapareciam na fumaça do cigarro. Todos os homens se chamavam Steve e não faziam barba há três dias, tinham sido feridos em batalha ou traídos na cama, paravam para tomar um café mas não conseguiam tirar aquela canção da cabeça.” A presença ilustre no Village é a Universidade de Nova York. A moda retrô havia sido reativada pelo consumismo e pelos hippies de butique dos anos 60. Rides again com uniformes do século 19, ternos de gangsters, bricabraque vitoriano, posters de “Procura-se” do Velho Oeste, saias e colares de melindrosas – uma profusão de antiqualha que jogou moda no ventilador do Soho. A indústria da moda, com sua vocação antropofágica relança o velho em suas últimas novidades. O estilo art déco do Empire State era objeto de um novo culto até que descobriram percevejo também no seu observatório. Que azar! Depois de King Kong o velho prédio volta a ser ameaçado, desta vez por um ataque de percevejos. Os badbugs não perdoaram nem a Victoria´s Secret, hotéis de luxo e a Broadway. Justo agora que o prefeito Bloomberg se declarava “vitorioso” por ter conseguido diminuir os ratos. Em Nova York hoje a proporção é de apenas dois por habitante.

O autor, Zarcillo Barbosa,é jornalista e colaborador do JC

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