Levantamento feito pela Great Place to Work, empresa de consultoria sediada nos Estados Unidos e com escritórios afiliados em diversos países do mundo, inclusive o Brasil, constatou que não é o dinheiro que motiva as pessoas a trabalharem mais e melhor.
Os estudos apontam para o fato de que existem outros aspectos mais importantes na carreira de um profissional do que o financeiro, e as empresas que estão conseguindo enxergar isso estão obtendo excelentes resultados.
A resposta que mais se ouviu para a pergunta “O que os profissionais estão buscando no mercado atual” foi “oportunidade de crescimento e desenvolvimento” (54%). Em segundo lugar ficou “equilíbrio entre vida profissional e pessoal” (25%). A questão financeira foi citada por apenas 14% dos entrevistados.
O levantamento mostrou ainda que entre os profissionais que alcançaram “oportunidade de crescimento e desenvolvimento” no local de trabalho, 89% estavam satisfeitos. Entre os que conseguiram “equilíbrio entre vida profissional e pessoal”, o nível de satisfação é de 83%. Já entre os que optaram por uma boa remuneração e benefícios, o nível de satisfação com o trabalho foi de 65%, e entre os que optaram pela estabilidade no emprego, 61%.
Os números evidenciam que as pessoas que buscam crescimento e desenvolvimento profissional apresentam índice de satisfação bem maior do que aquelas que se preocupam mais com dinheiro e estabilidade.
“Os profissionais do século 21 desejam, principalmente, ‘sentir’ que fazem parte de algo importante, que há uma causa a ser perseguida, e que seu trabalho motivado alcançará o crescimento da organização e oportunizará seu próprio crescimento. Eles querem ter a sensação de que estão evoluindo”, analisa Gerson Rodrigues, especialista em marketing de relacionamento.
Mudança
Para Jair José Marangoni, consultor de coach pessoal e profissional, a qualidade de vida é mais buscada hoje do que antigamente. “As pessoas estão dando mais importância a isso”, afirma. Segundo ele, é cada vez maior o número de trabalhadores que buscam fazer o que gosta e que não abrem mão da vida em família e com os amigos.
“Essa é uma mudança histórica”, declara. “A remuneração continua como algo importante, mas não é mais o primeiro aspecto a ser levado em consideração. A realização pessoal está falando mais alto”, diz. Para Jair, quando um profissional está motivado, ele se aperfeiçoa e, com isso, a qualidade do serviço aumenta e uma remuneração melhor vem como consequência.
Sandra Regina de Almeida, diretora de uma empresa de soluções linguísticas e desenvolvimento, também vê uma mudança em curso. “O que eu vejo hoje é que as pessoas estão buscando conciliar as duas coisas. A remuneração é importante, mas não é o único elemento motivacional”, frisa. “Tenho notado que as pessoas querem estar satisfeitas com seu trabalho. A remuneração vem em segundo plano”, avalia.
De acordo com ela, a satisfação depende de vários fatores. Além de estar fazendo o que gosta, é preciso que o retorno financeiro seja bom, assim como o relacionamento com o chefe e os com os colegas. Para Sandra, o ambiente de trabalho afeta diretamente na motivação de um profissional.
“Se o salário é alto, mas a pressão é muito forte, com cobrança exagerada, falta reconhecimento e a relação com o chefe é ruim, a pessoa não aguenta por muito tempo. Além do mais, isso afeta o desempenho dela”, observa.
Sandra lembra que, em muitos casos, o que se ganha a mais é gasto com tratamento psicológico e de saúde por conta do desgaste emocional que tudo isso provoca.
Para Gerson Rodrigues, ter profissionais motivados é o sonho de todo líder empresarial. Para conquistar isso, o especialista diz que é preciso que eles entendam que as pessoas se mobilizam por suas próprias causas e interesses. Encontrar uma forma de alinhar esses interesses aos da empresa pode ser o segredo do sucesso para ambos.
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‘Hoje, trabalho mais, ganho menos, mas estou muito feliz’
Lúcia Mantovani Stradiotti passou dois anos nos Estados Unidos trabalhando como babá. Durante esse período, foi muito bem remunerada. Usou parte do dinheiro para viajar e conhecer uma porção de lugares e culturas diferentes.
De volta ao Brasil, Lúcia teve de conviver com uma realidade mais dura. De cara, viu sua remuneração despencar para um terço do que ganhava em solo americano. Com o conhecimento adquirido no Exterior, ela esperava manter o mesmo padrão de vida que tinha lá.
Se nos Estados Unidos ela sentiu seu trabalho valorizado, no Brasil o sentimento foi completamente o oposto. Determinada a voltar a ganhar o que ganhava como babá, ou babysitter, como se diz em inglês, Lúcia passou a trabalhar manhã, tarde e noite. O dinheiro veio, mas a satisfação não.
Passados dois meses, ela decidiu colocar a remuneração em segundo plano. Lúcia não queria mais sacrificar seu bem-estar para manter o padrão financeiro conquistado nos Estados Unidos. “Minha qualidade de vida caiu. Afetou minha saúde e minha vida pessoal e social. O dinheiro não estava mais sendo primordial para mim”, conta. “Eu consegui manter meu poder de compra, mas estava esgotada, cansada, sem condições psicológicas, nada me agradava”, relata.
Lúcia trocou de emprego, mas não demorou muito tomou nova decisão. Ela concluiu que sua realização profissional passava pela realização de um sonho: ter sua própria empresa. Para isso, teria de abrir mão de uma série de benefícios, como salário fixo, férias remuneradas, 13º salário, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), etc. Sem falar na grande responsabilidade que há para se administrar uma empresa.
Atualmente, Lúcia trabalha mais do que antes. Além dos três turnos, tem serviço também aos fins de semana. “Hoje, trabalho mais, ganho menos, mas estou muito mais feliz”, afirma. “Estou realizando um sonho e isso me deixa motivada o tempo todo. Eu não trabalho mais pelo dinheiro, mas pela realização pessoal”, diz.