Pelo menos no discurso, o famigerado “jeitinho brasileiro” parece estar com os dias contados. Pelo menos no discurso, ele está perdendo espaço para atitudes mais nobres como a honestidade e a preocupação com o bem-estar do próximo.
Pena que entre o discurso e a prática sempre há um abismo difícil de ser transposto. Uma pesquisa inédita do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostra que o bem-estar do próximo e da humanidade e a estabilidade social são valores apreciados pelos brasileiros. Por outro lado, questões que envolvem interesses particulares e individuais como a autopromoção, por exemplo, ficaram na parte de baixo da tabela.
De acordo com os resultados desta pesquisa, constata-se que os brasileiros estão mais preocupados com a coletividade e menos preocupados consigo mesmo. Mas isto não quer dizer que não valorizam a autopromoção.
Os entrevistados foram convidados a darem notas de 1 a 10 para os valores que julgavam mais importantes. Foram apresentadas duas tabelas. Em uma, o item mais valorizado foi a autotranscendência - nome dado ao grupo (ou dimensões) de valores que vai além dos interesses individuais. A nota média foi 8,6, enquanto a nota média da autopromoção foi 6,3.
Na outra tabela, a benevolência ficou em primeiro, com nota média de 8,8. Isso significa que os entrevistados estão preocupados em preservar o bem-estar das pessoas mais próximas e que por isso valores como honestidade, sinceridade, amizade e responsabilidade são particularmente importantes.
Para reforçar a preocupação com o coletivo, o universalismo ficou em segundo, com 8,5. Isso mostra a importância do bem-estar da humanidade de forma geral e com a preservação da natureza.
Por sua vez, a valorização do poder, que representa o domínio sobre os outros e a obtenção do status social, recebeu nota média de 5,3, ficando em último lugar.
Em suma, pode-se dizer que os brasileiros possuem, entre suas principais motivações, a preocupação com o bem-estar das pessoas com quem convivem com maior frequência, sem desconsiderar o bem-estar da humanidade.
De acordo com os organizadores da pesquisa, nem sempre os valores considerados mais importantes são adotados na prática. Então, por que mapeá-los?
“Prioritariamente, porque eles incorporam e expressam uma forte desejabilidade social. Isso não quer dizer que as pessoas orientem de fato suas vidas pelos valores que elas se sintam mais confortáveis em expressar, mas não podemos negá-los como uma referência indispensável na orientação de suas atitudes e comportamentos”, justificam os organizadores.
Opinião
Para o filósofo e professor Fausi dos Santos, o resultado da pesquisa é uma demonstração de que o indivíduo está convencido de que não consegue ser feliz sozinho, que ele precisa do outro. “É uma questão de sobrevivência”, afirma.
Segundo ele, as pessoas sabem que para conquistar seus objetivos precisam da coletividade. De acordo com o filósofo, a consciência da importância do bem-estar da coletividade e da humanidade não significa que o brasileiro, de uma forma particular, está menos preocupado consigo mesmo.
Na opinião dele, o “jeitinho brasileiro” ainda vai resistir por muito tempo. Para Fausi, enquanto o brasileiro não tiver acesso à igualdade de oportunidades e de serviços o tal “jeitinho” vai continuar existindo.
O levantamento ouviu 4 mil pessoas em mais de 300 municípios em todas as regiões do País.