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Noroeste, uma devoção, uma paixão, uma gratidão

Arsenio Sales Peres
| Tempo de leitura: 4 min

Nasci no Hospital da Noroeste, o saudoso nosocômio “Sales Gomes”, da NOB - Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, sim, este mesmo, na Bela Vista. Entre choro de recém-nascido (acredito), a fórceps, vim ao mundo encharcando brancos lençóis com o sangue rubro de minha mãe. Pronto, vermelho e branco. Já recém-nascido vestia, sem saber, como se fosse uma profecia, as cores do meu time, quanta galhardia. Sem querer “poetizar”, apenas aclarar a maravilhosa coincidência! O ser noroestino é diferente dos outros seres apaixonados por seus times, não se pontua em ser torcedor, é mais, é superlativo, é na saúde e na doença, na alegria, na tristeza, enfrentando grandes ou pequenos, na primeira ou na terceira divisão, mesmo quando as tristezas teimam em permanecer...

Sou vermelho e branco de concepção! Se a derrota for fulminante, desfilo com minha camisa alvirrubra, trata-se apenas de uma batalha, a guerra termina para quem renega a vitória, não é o caso dos noroestinos, sempre em situação de enfrentamento e de colocar o transpirar em vermelho e branco aos poros. Ter somente título não é o apogeu, ao contrário, somente ganhar é muito mais fácil, na derrota, pois, os obstáculos são de valor, engrandecem o sentimento de amor nutrido pelo dar sem em troca nada exigir. Claro, festejo cada título do meu Norusca, mas tenho algo muito mais forte a festejar: a paixão.

Quando tudo começou... Foi em 1971, acho que era 1º de agosto, aniversário de Bauru e o Noroeste jogou com o São Paulo Futebol Clube. Meu tio Isaias, que Deus o tenha, me pegou em casa e mal sabia que iria proporcionar o maior presente que como menino desfrutaria, até então. A Copa de 70 ainda muito recente, para um garoto de 10 anos, no grupo escolar, era o máximo, o futebol era assunto em qualquer lugar.

Ao chegar ao Alfredo de Castilho, havia filas, muitos risos, pessoas engraçadas, alegres para com os outros, todos se cumprimentavam, mesmo sem se conhecer, tinha pobres, ricos, grandes, pequenos, bandeiras, muitas bandeiras era um vermelho e branco de dar gosto de ver.

Claro, também havia camisas e bandeiras tricolores, lógico, chamavam atenção, me motivaram e talvez por isso seja o São Paulo meu segundo time. Que fique claro, segundo mesmo, não há substituição e nem traição, enfrentando-se os dois o coração só reconhece o meu No-roeste. Ficamos na arquibancada coberta, meu tio, muito sãopaulino, preocupado comigo, me levou para um lugar que chamou de “cala-boca”, ou seja, de quem for o gol é melhor não comemorar. Não entendia muito, mas fiz menção em obedecer. Lembro-me que o SPFC abriu o marcador, fiquei ali observando, mas o Noroeste tinha um “10”, se não me falha a memória era Márcio o nome dele, e foi ele, um meia esquerda baixinho, que propiciou o meu primeiro grande surto de alegria em um estádio.

Engraçado, o gol do São Paulo foi de bola rolando, nem me lembro como foi a jogada, e o empate do Noroeste foi de pênalti, cometido no Márcio (acho) e cobrado por ele mesmo. Lembro-me como se fosse hoje, bateu de pé direito rasteiro no canto direito do goleiro Sérgio, do SPFC, nem foi tão bonito, a rede nem estufou, mas eu não sei explicar, algo explodiu de dentro e eu gritei “GOL”. Pisei no pé do meu tio (coitado, tinhas umas lesões em virtude de diabetes), chorei, lembro-me ter sido meu primeiro choro de alegria... Nem era final, não éramos campeões, só um reles empate em um amistoso, lembro-me que as crianças ao meu redor se encantavam com as guloseimas dos ambulantes,... eu não... só queria saber de olhar o gramado e torcer para que os de camisa vermelha ficassem mais com a bola.

Final de jogo: SPFC 3 X 1 ECN. Não foi motivo de desânimo, e falei para o meu tio: - ainda vou ver o Noroeste ganhar do SPFC. Ele respondeu: não espere por isso, é melhor você torcer para o São Paulo. Esperei, e foi aos 17 anos de idade, no Campeonato Brasileiro de 1978, o único em que o Noroeste participou, que concretizei meu desejo lá de 1971: Noroeste 1 x 0 São Paulo, gol de Jairzinho, este mesmo, o Furacão da Copa de 70.

O Norusca não leva sorte contra o Tricolor! Assim é o ser noroestino, sempre pronto a uma alegria incontestável e digno a absorver os golpes que tonteiam, mas nunca provoca nocaute. Cair-se-á, mas na certeza que se levantará. Ano após ano, o amor ao clube só se acumula e aumenta com cada campeonato que disputa, cada divisão que freqüenta nas mais diversas posições na tabela.

É conveniente ressaltar que na minha vida foram, sem dúvida, André e Matheus, meus filhos, minhas grandes alegrias e a eles deixo a paixão incontestável de ser alvirrubro. Somos Norusca, não roxos, mas vermelhos e brancos. O Esporte Clube Noroeste completa 100 anos, um século, mas os parabéns destino aos bauruenses e noroestinos que podem, como nós, gritar aos quatro cantos a alegria inexorável de ser abençoado por Deus e ter em suas vidas a presença deste grande time de futebol. Avante, Noroeste!

O autor, Arsenio Sales Peres, é professor de odontologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP, um bauruense, como tantos outros, fanático pelo Norusca. Foi vice-presidente de futebol amador do Norusca

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