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Entrevista da Semana: Luiz Ornelas

Da Redação
| Tempo de leitura: 8 min

Se alguém perguntar para Luiz Ornelas o que ele mais gosta da vida - depois dos quatro filhos, é claro -, certamente vai ouvir que é música. De cada dez palavras que pronuncia, oito tem a ver com música. Foi assim durante a entrevista. Ornelas, que nem imagina quantas melodias conhece, se diz um apaixonado quando o assunto é música. Não sabe dizer ao certo de onde vem tanto amor, mas acha que está no DNA. Ele, que vem de uma família de músicos, cresceu ouvindo os pais e tios tocarem. E a paixão é tamanha que, por volta de 6 anos, fez, sozinho, com madeira e um facão, seu próprio violão. As cordas eram improvisadas, feitas com linhas de pesca que pegou da tralha do irmão... Aprendeu os primeiros acordes sozinho. E não parou de tocar nunca mais.

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Jornal da Cidade: Em geral, quando as pessoas pensam no Luiz Ornelas imaginam o músico. Alguns dizem que é o músico que virou secretário municipal. Quem é o Luiz Ornelas?

Luiz Ornelas - O Luiz é um bon vivant, um brasileiro nato, um músico de coração, um pai sempre presente, família, que adora as coisas boas da vida e bastante comprometido profissionalmente.

JC - E que está fazendo um trabalho bem diferente do que estava acostumado, hoje...

Ornelas - Não, eu já fui da Cesp (Companhia Energética de São Paulo). Fiquei 26 anos na Cesp e já trabalhei, inclusive, no governo do Estado. Atuei na malha de segurança empresarial e já participei de atividades de segurança de diversos governadores de Estado e até do então presidente da República João Figueiredo. Um lado que quem me conheceu da noite, da música, apenas, não conhece. É que comecei cedo, como auxiliar técnico, depois passei a técnico, a analista, vindo até a assistente regional, a segurança empresarial. Minha área era todo o Tietê, em termos de fiscalização de usinas hidrelétricas, de Barra Bonita até Avanhandava; todo o Paranapanema, de Júlio Mirim até Rosana; e o Pontal do Paranapanema, que é Porto Primavera.

JC - Você não é bauruense...

Ornelas - Eu nasci em Lençóis Paulista. Vim para cá com 9 ou 10 anos. Então, me considero bauruense, embora ame a minha cidade natal, Lençóis Paulista. Tenho um irmão que mora lá, tenho uma ligação forte com a cidade, onde começaram meus primeiros acordes.

JC - Como foi isso?

Ornelas - Sou de uma família grande, com oito irmãos. Meus pais nos deram uma formação legal, todos trabalhadores, uma família bastante unida. Era a educação das antigas, mas, felizmente, todos nós tivemos uma educação excelente e eu tenho muito orgulho. Tanto que as coisas positivas copio na educação dos meus filhos.

JC - São quantos?

Ornelas - Eu tive um casamento que durou 22 anos. Dele, temos três filhos maravilhosos, o Gustavo, a Camila e o Fábio. E puxaram a mim no gosto pela música e pelas artes marciais. Fui atleta e cheguei à faixa preta de karatê. E tenho a Giovanna, do meu segundo casamento com a Juliana Merencio. Ela está com 3 anos e me tira o fôlego!

JC - Você era esportista, faixa preta, como é que foi essa migração do karatê para a música?

Ornelas - Eu sou autodidata em violão. Eu mesmo construí o meu violão, de madeira, quando era criança.

JC - Quantos anos você tinha?

Ornelas - Eu tinha por volta de 5 ou 6 anos. Peguei madeira em casa, um facão e fiz meu primeiro violão. As cordas foram feitas com as linhas de pescar do meu irmão. E aí comecei a tocar... Aprendi sozinho, olhando meus tios, que tocavam também. Eu olhava e admirava bastante a minha família toda, que era envolvida com música. Meu pai também foi músico, na área de instrumento de sopro...

JC - Era músico profissional?

Ornelas - Ele tocou em banda, em orquestra. Não foi famoso, mas me marcou bastante, principalmente depois que ele virou evangélico. Ele tocava muito na igreja. A igreja tinha uma orquestra e eu tinha um grande orgulho de ver meu pai lá, tocando. Isso me inspirou bastante. Até que consegui entrar numa escola, aqui em Bauru. Era a Magister, de violão. E me especializei em músicas clássicas...

JC - E já foi para a noite...

Ornelas - Na minha juventude, participei de bandas em Bauru. Depois, tivemos um grupo, o Musical Presença Show. Tocamos em vários bares de sucesso. Inclusive, em 1985, se não me engano, fomos escolhidos pela revista Veja como o grupo de maior fama, digamos assim. Não o melhor grupo, mas o de maior fama, tradicional, no Estado de São Paulo. Foi feita pesquisa em São José do Rio Preto, Ribeirão, Campinas, Presidente Prudente, Araçatuba e Bauru. E dentre as bandas pesquisadas, a nossa foi considerada a mais popular.

JC - Você era músivo e funcionário da Cesp?

Ornelas - Adolescente, eu era músico, atleta e trabalhava. Eu dosava bem o meu tempo. Na hora do almoço era atleta, à noite eu estudava. Nos intervalos e final de semana, eu vivia o violão. Até ganhei um festival!

JC - Onde?

Ornelas - Em Piracicaba. Depois disso, comecei a me apresentar abrindo shows de cantores sertanejos como Chitãozinho e Xororó, Gian e Giovani, vários. Também tive o prazer de tocar junto com o Toquinho, quando ele fez uma apresentação em Bauru. Nós nos encontramos na antiga Baiúca, que existia aqui em Bauru, e tocamos lá até de madrugada. Eu sempre me especializei na MPB, embora eu faça um pouco de tudo. Então, toquei com o Luiz Melodia, também fiz algumas apresentações no Rio de Janeiro, em São Paulo junto com o Canhoto, do Demônios da Garoa, o Benito de Paula. Então, tive muitas alegrias em matéria de música, muitas mesmo.

JC - Mas você não vivia só da música?

Ornelas - Não, eu fazia isso como um hobby, apesar de também receber, mas eu era funcionário da Cesp...

JC - Você nunca pensou em viver só da música, com tanto destaque que você tinha?

Ornelas - Faltou arrojo, faltou coragem na realidade...

JC - Coragem de arriscar...

Ornelas - É, porque eu pensava sempre na família, nos filhos. E sendo um funcionário da Cesp, eu tinha toda segurança lá na empresa...

JC - Você se arrepende disso?

Ornelas - Não, não me arrependo. Tive grandes amigos na Cesp, grandes experiências dentro da empresa, principalmente porque eu fui direto na presidência da Cesp, tive a oportunidade de conhecer a empresa praticamente todinha. Foi uma empresa muito importante para Bauru. O fim dela foi uma perda enorme.

JC - E no meio disso tudo ainda tinha o casamento, os filhos...

Ornelas - Mas eu conseguia, mesmo depois de casado, conciliar tudo. Só não podia aparecer muito como músico. Infelizmente, quando você ocupa um cargo de destaque numa empresa estatal, você é funcionário do governo do Estado. Então, na época não ficava bem você ser músico, o músico era tido como um boêmio, um bon vivant, aquela coisa toda... Mas conseguia conciliar, tocar nos finais de semana.

JC - E hoje como é que tudo isso interfere na sua vida?

Ornelas - Eu consigo tirar de letra tudo isso. Hoje eu tenho a atividade de secretário municipal das Administrações Regionais, tenho o meu segundo relacionamento, a minha filhinha Giovanna, que é maravilhosa, que deu uma nova vida para o pai... Eu disse para os meus filhos: Vocês não me dão uma netinha, eu dou uma irmãzinha para vocês (risos)... Claro que não é fácil, mas eu consigo conciliar. Não quero deixar nunca a música. A música para mim é o pulmão.

JC - Dentro dessa sua vida agitadíssima, você conseguiu fazer faculdade?

Ornelas - Fiz sociologia e fiz direito. Se bem que direito não cheguei a concluir. Fiz até o 5º ano, na realidade só faltou pegar o diploma... É que eu comecei a viajar muito e aí complicou tudo.

JC - E seu trabalho na Sear, por que você resolveu aceitar esse desafio?

Ornelas - Eu sempre procurei atuar, me sinto útil ajudando. E vi na Sear uma oportunidade de ajudar, porque é bem específica. Resolver os problemas dos bairros, os problemas mais críticos. É muito gratificante quando você vai a um bairro e uma rua está em situação crítica e você deixa a rua perfeita. Vê o sorriso do morador, você foi útil.

JC - Você pensa em seguir carreira política?

Ornelas - Não, não penso não. Eu sou mais técnico do que político. Sempre fui bem mais técnico. Em todas as áreas que eu atuei eu procurei me informar bastante sobre aquilo que eu estava fazendo e me dedicar 100% para fazer o mais correto possível e me dedicar ao máximo profissionalmente. Então, o lado político fica em segundo plano.

JC - Há quantos anos você estuda música?

Ornelas - Eu sou apaixonado por música acho desde que nasci, desde pequenininho ouço música de todos os tipos. Tinha muita música na minha casa. Minha mãe, meus tios, meu pai. Todos apaixonados por música. Acho que eu tenho DNA musical.

JC - E passou para os filhos

Ornelas - Meus filhos amam música. E espero que a Giovanna também. Ela já tem um violãozinho, adora tocar... O Gustavo até dá aula de música em São Bernardo. Ele já chegou a ser diretor musical do Osvaldo Montenegro, mas hoje não atua mais, só dá aula mesmo... A Camila trabalha nos Estados Unidos, em uma empresa de transporte urbano, mas adora música, canta num coral lá. O Fábio, trabalha na Scania, em São Bernardo.

JC - Dá para dizer que você é feliz com tudo o que fez e com a profissão que você escolheu?

Ornelas - Muito, muito feliz mesmo. Feliz, realizado e orgulhoso por tudo que acontece na minha vida.

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