E se um belo dia alguém dissesse que Santos Dumont não inventou o avião, o samba não é um produto de origem nacional e que Aleijadinho nada mais é do que um personagem literário? Os mais tradicionais ou nacionalistas, certamente, não gostariam de ver personalidades históricas retratadas de forma diferente a não ser na figura de herói, mas é justamente para esse lado que algumas historiografias e até livros didáticos começam a pender.
O surgimento das correntes que primam por novas interpretações, que dão “pés de barro” aos mitos criados em diferentes tempos, entretanto, não visa diminuir ou desmerecer feitos, atestam historiadores, mas sim buscar uma nova visão sobre fatos colocando defeitos e virtudes em lados opostos de uma mesma balança.
Entre os mais vendidos no País há oito meses, o livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” (Editora Leya, 319 páginas), evidencia esse novo olhar. Carregada de crítica, muitas vezes com um leve sarcasmo e linguagem simples, a obra é incisiva.
Segundo o próprio autor, o jornalista Leandro Narloch, a obra não tem a pretensão de servir como amparo didático, mas sim levantar o debate sobre questões até então tidas como unânimes.
“Foi escrito para repercutir, criar um debate”, sintetiza ele, surpreso com a popularidade alcançada. “Não esperava que fosse vender tanto”, diz. “Mas esperava algum barulho”, admite o autor.
Ex-repórter das revistas Veja e Superinteressante, Narloch conta que a ideia do livro surgiu pela busca, dele próprio, por peculiaridades sobre fatos e personagens além da superficialidade dos livros didáticos de sua infância e adolescência.
“Aprendi história nos anos 80. Aquela história ainda criada sob a sombra do regime militar, época em que era intelectualmente estimulante falar mal dos militares, grandes potências, encaixar a luta de classes na história do Brasil”, relaciona. “Não que era errado, mas sempre tudo muito simplório. O rico malvado, o pobre bonzinho”, detalhou o autor, por telefone ao Jornal da Cidade.
Ao colecionar casos que remavam contra aquilo que aprendeu na escola, ele resolveu aprofundar-se e escrever o que, segundo ele, é o primeiro livro politicamente incorreto sobre história do Brasil.
Mito x verdade
Após três anos debruçado sobre um total de 120 livros, o jornalista publicou as 319 páginas carregadas de revelações com bom humor, parcialidade (também segundo o próprio Narloch) e polêmica sobre alguns personagens, como Aleijadinho e Santos Dumont.
Na visão do autor, o escultor mineiro não passaria de um personagem literário, um mito criado numa época em que mais valiam relatos “de boca” do que embasados em documentação.
Já o “pai da aviação” - ao menos para os brasileiros - no livro de Narloch é retratado como um vaidoso inventor, que adorava sair em jornais - tinha até uma espécie de assessoria de imprensa, em pleno início do século XX.
Apesar de toda pompa, Alberto Santos Dumont, segundo aponta o livro, além de não ter inventado o avião – feito atribuído aos irmãos norte-americanos Orville e Wilbur Wright – também teria contra si atribuídos alguns trambiques.
Origem europeia para o samba é outra tese que causa arrepios nos nacionalistas. Para Narloch, que admite o tom parcial e opinativo na introdução do livro, a ideia, acima de tudo, é fomentar o debate.
“Tem bastante opinião e brincadeiras, num tom até meio que adolescente”, detalha o jornalista, considerando que o ensino de história mudou – para melhor – de um tempo para cá. “Os historiadores, nos últimos dez, vinte anos, ficaram mais distantes daquela luta política, ideológica. Agora são mais modestos ao tirar conclusões e mais baseados em documentos”, diferencia. “A história está sendo bem contada”, considera.
Vertente crítica busca novo olhar sobre a história tida como oficial
A vertente de evidenciar o lado humano dos mitos históricos ou outros olhares de fatos do passado brasileiro deixa de lado a superficialidade dos livros didáticos sobre determinados fatos e pessoas, algo marcante principalmente até o início dos anos 90, dizem os estudiosos.
“Até pouco depois do final da ditadura ainda predominava totalmente esse olhar mais conservador”, lembra a historiadora Márcia Navas Sobreira, da Universidade do Sagrado Coração (USC).
“Agora, há uma forte corrente, uma tendência de utilizar-se do herói, do personagem, mas mostrando também o que ele é em si. A história não retira os feitos do personagem, mas insere também as suas fraquezas”, conceitua.
Para a também historiadora e escritora Sônia Mozer, do Colégio Seta, em Bauru, o maior ganho trazido pelo desprendimento das versões oficiais – ou oficiosas - são as obras com olhares diferentes sobre um mesmo fato. “Em história não se recria o que passou. Contudo, o mais importante é o surgimento de novas interpretações”, enfatiza.
Mesmo a favor de novos olhares sobre velhos temas, Sônia pondera: o fato de um episódio ou personagem ser retratado por obra revisionista ou até mesmo com opiniões divergentes do que até então era consensual não significa que a nova versão tome ares de verdade absoluta. “Interpretações novas são bem vindas, mas são interpretações”, reforça.