“O que é a Vila Independência para mim? Ah, moça... é minha cidade. Se um dia eu for obrigado a mudar deste bairro é como se não estivesse em Bauru.” Foi com esta frase que o aposentado Nélson Lourenço, 73 anos, explicou à equipe do JC o sentimento que nutre pela vila onde mora há 53 anos.
Nelson era jovem quando se mudou para a casa onde vive atualmente, tinha apenas 20 anos. Antes disso morou com os pais em dois lugares: o primeiro foi uma fazenda em Tibiriçá, distrito de Bauru; o segundo, uma chácara que existia nas proximidades da Vila Independência. E quando os calendários marcavam o ano de 1957, foi a última vez que Nélson teve de requisitar os serviços de um caminhão de mudança.
Desde então a rua Vasco da Gama, escolhida pela família Lourenço, já foi cenário para o crescimento de quatro gerações. Por ela já passaram, além de Nelson, seus pais, filhos e netos. Não é à toa que, quando a reportagem percorreu as ruas do bairro perguntando por algum morador antigo que pudesse contar um pouco da história da vila, Nélson foi o primeiro a ser indicado.
“Posso dizer que, por aqui, muita coisa mudou. Mas também que muita coisa permaneceu igual... se é que você me entende? Sou do tempo que as ruas do bairro eram todas de terra e a Felicíssimo Antônio Pereira era uma via superagitada. Nela tinha todo tipo de comércio. Hoje isso acabou. Ganhamos o asfalto, mas, em compensação, o comércio se espalhou por toda a extensão da Castelo Branco”, explica.
Por outro lado, a maioria das casas do bairro ainda conserva a fachada repleta de detalhes, típica do início do século passado. Raros são os imóveis que têm ‘cheiro’ de reforma recente.
Placas de ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’ também são raridade na Vila Independência. Isto porque grande parte de seus moradores está há muito tempo no bairro e não faz planos de se mudar, fato que contribui para o clima de boa vizinhança.
“Morar aqui é muito bom, é como se fossemos uma grande família. Quando vemos um estranho rondando já ficamos em estado de alerta, um ajuda a cuidar da casa do outro”, afirma Nélson, que há anos não vê sair das quadras vizinhas um caminhão de mudança.
Eterna morada
O cemitério São Benedito, localizado na avenida Castelo Branco, sempre foi uma das paixões da vida do pedreiro Júlio dos Santos, 52 anos. Tal afirmação, para muitos, pode parecer um tanto estranha. Mas, para ele, faz todo sentido.
Julinho, como o pedreiro é conhecido, cresceu brincando nas ruas na Vila Independência, onde morou por mais de 20 anos. Na infância, era um menino sapeca e curioso. No ranking de peraltices mais praticadas pelo garoto, espiar o trabalho dos médicos legistas, feito no necrotério do cemitério do bairro, era sua especialidade.
“Eu morava aqui pertinho. Da minha casa dava para ver quando chegava um cadáver novo. Eu sempre deixava tudo o que estava fazendo para acompanhar os exames no corpo. Às vezes não permitiam minha entrada. Eu teimava: ficava na ponta do pé e bisbilhotava pelo vidro do necrotério”, lembra Julinho.
A curiosidade do menino pode ter justificativa no fato de que o cemitério era também o local de trabalho de seu pai, que atuava como coveiro. Foi com ele que Julinho aprendeu o ofício que exerce há 35 anos. Quando o pai faleceu, o filho assumiu seu lugar.
“Enterrei muita gente e ajudei a construir muitos túmulos. Para falar a verdade, acho que a maioria das sepulturas têm um pouco do meu dedo. Quando comecei a trabalhar, só existia a parte central, depois é que foi ampliado, tanto para baixo quanto para cima. Lembro que, assim que terminávamos a cova, o espaço já era comprado”, explica.
Os arredores do cemitério, inclusive os costumes que o envolvem, também mudaram bastante. Os terrenos adjacentes, que antes eram baldios, agora são ocupados por casas e moradores que não se deixam intimidar pelos vizinhos que já partiram ‘dessa para melhor’. Além disso, o número de enterros diminuiu consideravelmente e, atualmente, segundo Julinho, não passa de 15 por mês.
“Antes, quando uma pessoa morria, era um acontecimento no bairro. Um avisava o outro e, em poucos minutos, todo mundo já estava sabendo. O cortejo percorria algumas ruas, parava na igreja Senhor Bom Jesus, recebia a benção do padre e seguia para o cemitério. Conforme o morto ia passando, os comerciantes baixavam as portas por alguns minutos em sinal de luto e respeito”, conta.
E, para quem tem a curiosidade, Julinho nunca pensou em mudar de profissão. “Já vi muita assombração, mas, praticamente adotei o cemitério como casa. Passo mais tempo aqui do que lá”, justifica.
Comércio itinerante
Quem analisa os 35 anos de existência do armarinho que é propriedade de José Carlos Ribas, 66 anos, pode afirmar que a Vila Independência é o lugar ideal para montar comércio e prosperar. Porém, só quem é morador do bairro sabe que o sucesso de José Carlos é uma exceção.
Isto porque boa parte do comércio da vila - que se concentrava na rua Felicíssimo Antônio Pereira, na época a via mais movimentada da região pelo fato de ser o único acesso à Piratininga, município vizinho de Bauru – não existe mais.
José Carlos, que mora na Vila Independência desde que nasceu, se lembra bem das características do comércio e sabe apontar as transformações ocorridas no setor.
“As ruas ainda eram de terra e a Felicíssimo já era um agito só. Ali tinha de tudo: desde loja de roupa até secos e molhados. Porém a maior parte daquele movimento era de clientes do extinto supermercado Santo Antônio. Desta forma, o fechamento do mercado provocou também a falência de muitos pequenos comerciantes”, analisa.
Atualmente, os moradores do bairro precisam recorrer à avenida Castelo Branco ou aos bairros vizinhos quando precisam de algum serviço ou produto mais específico. “Ainda assim não tenho do que me queixar, não falta nada. Pode não ter o que a gente precisa exatamente aqui, na Vila Independência, mas tem por perto”, frisa.
Mas se o comércio no bairro mudou tanto, como o armarinho se José Carlos sobreviveu à debandada de estabelecimentos comerciais da Vila Independência? De acordo com ele, a resposta é simples: o segredo do sucesso é o caminho do meio.
“Minha loja fica no interior da vila e não em uma via de muito fluxo. É verdade que nunca vendi de acabar os estoques, mas também nunca deixei de ter clientes fiéis. Tive muita sorte aqui”, avalia.
Orgulho do bairro
“A Indepa tá aqui na arquibancada... A Indepa nunca para de torcer... Indepa ô! Indepa ô! Indepa ôÔôÔô...”
Embalados pelo ritmo frenético de uma bateria e bradando este hino, os torcedores do Independência Futebol Clube fazem as arquibancadas dos estádios distritais tremerem sempre que o time do bairro entra em campo para disputar uma peleja do campeonato amador.
A empolgação da torcida é suficiente para deixar boquiaberto quem assiste pela primeira vez a um jogo do Indepa, como o time é carinhosamente chamado. Entre os torcedores é possível encontrar jovens, adultos, crianças e até mesmo idosos, sendo que a maioria destas pessoas é tão fanática pelo time quanto pelo bairro que ele representa.
“O Indepa é o orgulho do bairro. As pessoas curtem mesmo. Saem de casa para apoiar o time, e este é nosso diferencial na conquista dos títulos. Não é à toa que somos a equipe do amador que tem a maior torcida em Bauru”, comemora Marcelo Aguiberto Novelli, presidente do Indepa.
O time foi criado em 1964 e leva o nome do bairro onde surgiu como forma de homenagem. Em 46 anos de trajetória já conquistou, com a ajuda da fiel torcida, diversos títulos. O mais recente foi o de campeão da primeira fase do amador, em julho deste ano.
Porém, só o apoio da torcida e a disposição dos jogadores não são suficientes para manter o time na ativa. O Indepa conta com apoio de patrocinadores para sobreviver e precisa se desdobrar para organizar os treinos.
“É complicado o time treinar por dois fatores: um deles é a dificuldade em conciliar o horário dos jogadores, já que todos exercem outras atividades; o outro é a falta de um campo próprio”, lamenta Marcelo.
Apesar de todos os obstáculos, o Indepa possui sede própria, que é coberta, equipada com vestiários e tem até um espaço para o tradicional churrasquinho pós- jogo. “Não pode faltar, né!”, brinca Marcelo.
Luta contínua
Transformar a Vila Independência e adjacências em bairros seguros, bem iluminados, com asfalto de boa qualidade e praças bem cuidadas é sonho dos membros da Associação de Moradores da Vila Independência. Sonho que, de acordo com Elza Soares Radiguieri, tesoureira da entidade, está próximo de ser alcançado.
“A associação existe há muito tempo e, nestes anos de luta, já conseguimos muitas melhorias. As coisas estão se encaminhando aos poucos. Há algum tempo, por exemplo, as ruas da vila tinham mais buraco que asfalto propriamente dito. Hoje isso já mudou”, explica Elza.
Segundo ela, a iluminação e a manutenção das praças do bairro também estão dentro do esperado pela associação. Além dos semáforos e faixas de pedestres, que foram instalados nos pontos mais críticos da avenida Castelo Branco e que contribuíram significativamente para a redução do número de acidentes.
Outra conquista da associação apontada por Elza é o Centro Comunitário, que há anos funciona na Vila Independência e oferece aos moradores do bairro diversas atividades, como aulas para a terceira idade, capoeira, ginástica, entre outras coisas.
“Agora nosso próximo passo é conseguir policiamento ostensivo para reduzir a criminalidade no bairro e batalhar para que mais moradores se envolvam em uma causa que é de todos nós”, planeja.
A ‘Liberdade’ bauruense
Quando se fala na Vila Independência, uma das primeiras referências que vêm à cabeça é a grande colônia japonesa que lá reside. Fundado em 1931, o bairro tornou-se, para Bauru, o que a Liberdade é para São Paulo.
Quem analisar a história do surgimento da vila poderá notar que, desde o princípio, uma série de fatores contribuiu para que o local se tornasse reduto dos imigrantes nipônicos.
Um dos motivo que levou os japoneses a se instalarem naquelas terras foi a existência do córrego Água do Sobrado que, na época, oferecia água em abundância, utilizada pelos imigrantes na irrigação das suas plantações.
“Antes a Vila Independência era repleta de chácaras. Na época, os japoneses estavam deixando de serem empregados para se tornarem patrões. Muitos criaram suas próprias plantações aqui na Vila Independência. Depois, com o tempo, foram loteando os terrenos, dividindo entre seus descendentes e conterrâneos”, conta Giro Ishikava, que mora no bairro há 54 anos.
Na sequência, em 1936, foi construído o primeiro templo da Igreja Tenrikyo, o que, segundo Giro, contribuiu ainda mais para a aglomeração de nipônicos. “O bairro estava se tornando, para nós, um pedacinho do Japão. Morando próximos de iguais tudo ficava mais fácil”, argumenta.
Às vésperas de completar 80 anos, o tempo se encarregou de que a Vila Independência se apropriasse cada dia mais da cultura e dos conhecimentos do povo do sol nascente. “Os japoneses que conseguiram um pedaço de terra aqui não mudam por nada, te garanto”, afirma Giro.
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Vila de todos os santos
Quando o quesito é religião, os moradores da Vila Independência não têm do que reclamar. Isto porque o bairro abriga uma grande variedade de templos e igrejas. Desta forma, pode se afirmar que seus habitantes estão, literalmente, protegidos por todos os santos.
O primeiro templo a ocupar os terrenos do bairro é, também, o que ainda hoje, mais atrai a atenção dos bauruenses e visitantes: a Igreja Tenrikyo. Inaugurada em 1951, a construção de moldes japoneses é a evolução arquitetônica da primeira igreja que difundiu a religião xintoísta na cidade, fundada em 1936, pelo líder espiritual primaz Chujiro Otake.
Além dela, os japoneses foram responsáveis por fundar no bairro a única Igreja Budista do município. Localizada na quadra 7 da avenida Castelo Branco, o pequeno templo, erguido em 1959, conta com cerca de 200 famílias associadas, porém apenas 25 pessoas frequentam de forma assídua os mantras.
Em maio de 1960 foi a vez da Vila Independência começar a receber as celebrações de missa da igreja católica. Sob o comando do padre José Araújo, então pároco da Matriz de São Benedito, os fiéis do bairro se reuniam nos primeiros domingos do mês e todas as sextas-feiras junto ao cruzeiro para celebrar a missa.
Com o tempo, a verba de quermesses viabilizou a construção de uma pequena capela. Mas foi somente em 25 de março de 1965, com a recente instalação do Bispado de Bauru, que a igreja ganhou o título de primeira paróquia do município.
A Vila Independência também foi o primeiro bairro da cidade a receber os cultos da Igreja Assembleia de Deus. A memorável reunião, presidida pelo pastor Deleva, teria sido realizada na travessa Volpe, localizada atrás da avenida Castelo Branco. Nos anos seguintes, a igreja teve outras sedes, até se estabelecer onde está atualmente, na quadra 1 da rua Felicíssimo Antônio Pereira.