Sem tempo seco não há flores no inverno, como as dos ipês que estão nos brindando nas ruas de nossa cidade. Com tempo seco nosso corpo sofre, sobretudo com doenças respiratórias. Eis apenas uma das inúmeras ambivalências presentes em nosso quotidiano e na história da humanidade. Aridez e flores é uma ambivalência natural-ambiental, mesmo considerando que a responsabilidade humana potencializa os efeitos negativos do tempo seco na saúde da população. Se a ambivalência natural é tantas vezes bela, o mesmo não se pode dizer das ambivalências geradas pelo progresso científico-tecnológico, por exemplo. A coexistência de objetivos antagônicos, na mesma ação com dois efeitos, um positivo e outro negativo, exige de nossa consciência sabedoria e prudência para poder conjugar ciência e ética. O ser humano sempre foi capaz de escolher o bem e de evitar o mal por meio da reta razão, não contaminada pelos interesses egoístas e destrutivos.
Em tempo de seca pedimos chuva. A ausência valoriza o objeto desejado. Queremos o que não temos. Com o salmista rezamos: “minha alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água” (Sl 62). Enquanto caminhamos neste mundo, como peregrinos, rumo à Pátria definitiva, o Bom Deus, Criador de tudo, nos convida a contemplarmos o belo que é bom. Pelas criaturas chegamos ao Criador!
No cenário complexo como o contemporâneo não há mais espaço para maniqueísmos. Parece que o modo de pensar mais plausível para hoje é o dialético que acolhe as inevitáveis ambivalências, contudo rejeitando o que é mal ou danoso a vida. A complexidade da vida permite dizer que a maioria dos casos-fatos não tem cor definida, pois entre o preto e o branco, parece prevalecer o cinzento. Isso exige um esforço maior de compreensão e discernimento ético. A dialética se aproxima daquilo que Mounier chamou de “otimismo trágico”, ou seja, aquele otimismo que acolhe as tensões e busca superá-las.
O sol e o dia belo não eliminam a ambi-valência do tempo, que segue seco e traz sofrimento para as pessoas. Mutatis mutandis: se não houver chuva está valendo a beleza das flores! Que venha a chuva! Porém, que permaneçam as flores, antecipação da primavera. Afinal, a vida sempre vence e renasce. Na ótica da fé cristã, podemos sintetizar a ambivalência com duas frases, respectivamente uma chamada “mantra” e a outra de Santo Agostinho: “indo e vindo, trevas e luz, tudo é Graça, Deus nos conduz”; “fizeste-nos para ti Senhor, inquieto estará o nosso coração enquanto não repousar em ti”. (O autor, Luiz Antonio Lopes Ricci, é padre, pároco da paróquia de São Cristóvão e vigário geral da Diocese de Bauru)