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O mesmo do mesmo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Sou do tempo em que remédio tinha nome e sobrenome: Leite de Magnésia de Phillips, Emulsão de Scott, Pílula de Vida do Dr. Ross (“pequeninas, mas resolvem”), Regulador Xavier (“o amigo da mulher”). Eram simples e eficazes no combate às indisposições estomacais, à prisão de ventre e aos incômodos “daqueles dias”. Este, demorei muito tempo para entender para que servia. Agora, com o advento dos genéricos que o Serra jura ter introduzido no Brasil, o médico receita dimetilpolissiloxana. Até mesmo o rapaz da farmácia tem que consultar um guia dos remédios para saber que se trata do conhecido espasmo-silidron. Os remédios, no meu tempo, já haviam virado artigos de consumo. Monteiro Lobato promoveu o Biotônico Fontoura ao escrever o célebre panfleto contando a falta de disposição do ”Jeca Tatuzinho”, retrato do brasileiro roído pelos vermes. Antes dele Bastos Tigre criara a sextilha do Rum Creosotado – “Veja ilustre passageiro” – até hoje presente na memória do publico. Os nossos primeiros slogans publicitários foram criados por gente como Casemiro de Abreu, Olavo Bilac, Guilherme de Almeida, Menoti Del Picchia. De certa forma a publicidade sustentou esses poetas. E era esse quase mecenato que lhes garantia um meio de vida.

A passagem do tempo implica mudanças. Tudo o que tem cara de moderno ganha status de dogma, e quem não se afina com esse coro corre o risco de ser tachado de jurássico. Hoje tudo tem que ser “sustentável”. O jargão, até 1980 pertencia aos engenheiros agrônomos e florestais – ecossistema permanentemente robusto e estável apesar de agredido por alguma exploração humana. Hoje o adjetivo passou a ter amplíssimo uso para exprimir ambições de continuidade, durabilidade ou perenidade, todas remetendo ao futuro da espécie humana. Os candidatos à Presidência garantem o desenvolvimento econômico “sustentável” e duradouro para o país. Nesta cínica era da impunidade que vivemos no Brasil, a única coisa realmente sustentável continua sendo a corrupção. O presidente Lula aparece na televisão em apoio à candidatura do ex-governador do Amapá que, dois dias depois é preso junto com o governador e a camarilha toda, acusados do desvio de R$ 600 milhões. Daqui a pouco esses fichas sujas estarão na rua a tempo de serem eleitos e ainda ganharem imunidades.

O escritor Lima Barreto, que morreu em 1922, costumava chamar o regime de “societas sceleris”, sociedade criminal, ou mais singelamente “República dos Velhacos”. A leitura do autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” denota que, se muita coisa mudou neste país, como o surgimento dos genéricos, a generalidade da roubalheira continua a mesma do início da República. O modus operandi segue idênticos padrões da política pós-monarquia que Lima Barreto tanto atacava. Acabou internato à força num asilo de loucos do Rio de Janeiro, na famosa ala Pinel. As mazelas que o autor denunciava à sua época são assim resumidas pelos críticos literários: o fato do sucessor do presidente ser decidido no próprio palácio presidencial; clientelismo generalizado; assistencialismo oportunista; controle dos sindicatos; patrocínio da imprensa; orquestração da opinião pública; administração da penúria dos miseráveis para mantê-los vivos; impostos altos. É inacreditável que se possa perceber de modo tão claro que nada mudou. A política assistencial, no Brasil, chega depois que se prova que é pobre. Nada que evite a pobreza. Há uma diferença entre prevenir e curar. Toda a política social na América Latina está pensada em unidade familiar. O número de filhos até 16 anos decide o Bolsa Família. Política social deveria se dirigir a pessoas de forma a qualificá-las a deixar os bolsões de miséria, de forma “sustentável”.

Quebra de sigilo fiscal só preocupa uma minúscula faixa da opinião pública. O povo não está nem aí com as garantias constitucionais e as instituições democráticas. Muito menos se o Zé Dirceu vai ter lugar no futuro governo. Nada disso vai abalar a candidata Dilma Rousseff. O esforço do PSDB de reverter as pesquisas de intenções de voto lembra o trabalho das bruxas do Macbeth que quanto mais lenha colocavam na fogueira só faziam por explodir o caldeirão ebuliente, provocando ainda mais danos. Lula elegeu sua porta-bandeira e continuará no poder como mestre-sala. Tudo o mais soa como choro de perdedor. O eleitor não vê mal nenhum em que se vasculhe a declaração do imposto de renda de familiares de Serra. “Quem não deve não teme” – diz o ditado que logo vem à mente do cidadão. Que todos se regozijem ou, os que não puderem que se conformem: Vamos ter a primeira presidenta da República. O mundo pertence a todos e as mulheres souberam conquistar o seu espaço antes reservado apenas aos homens. Que o novo não seja o mesmo do mesmo.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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