Os recentes episódios tornados públicos, que envolvem uma verdadeira quadrilha que vasculha a vida privada dos brasileiros, é algo que escapa a qualquer análise ética, e faz com que a transparência de tais atos chafurde no lamaçal da iniqüidade. Em qualquer nação de primeiro mundo, tais atos já teriam produzido a queda das autoridades responsáveis pela receita federal, bem como os envolvidos até então descobertos, amargariam a perda da liberdade.
No entanto, nada disso ocorreu até então. Um joga a culpa sobre o outro, e todos escondem quem é o verdadeiro mandante e interessado nessa arapongagem. Não é de hoje que os camelôs de vários pontos da capital paulista vendem a qualquer um CDs com o cadastro de várias empresas e de órgãos governamentais. Muitos de nós recebemos telefonemas em nossas residências, com oferta de imóveis, de passeios turísticos, e de um monte de outras ofertas. De que forma descobriram nossos telefones?
Porém, nunca nenhuma autoridade da área da segurança ou da Justiça adotou qualquer procedimento para evitar tais vazamentos de informações, que deveriam ser resguardadas pelos órgãos governamentais e por empresas, estatais ou privadas, que tem acesso a eles. A coisa só estourou da forma que se vê, porque atingiu pessoas de muita projeção, por que nós, infelizes mortais, não temos a quem prestar queixa.
A ética e a transparência de há muito estão apartadas da vida nacional. O que vale é a Lei de Gerson, e quem pode mais chora menos. Há quase duas décadas o povo brasileiro assiste à divulgação de escândalos que envolvem personagens importantes da vida nacional, sem que ninguém seja preso, julgado e condenado.
Tal prática se alastra em qualquer relação no cotidiano de nossas vidas. A simples produção de um evento cultural, onde dois patrocinadores estejam aparentemente irmanados, quando você se descuida, fala mais alto o ego ou interesses pouco transparentes, e um dos sócios é colocado de escanteio sem maiores delongas, sem um mínimo de ética, de educação e de sensibilidade. São os mistérios da alma humana, quando o estrelismo supera as barreiras da lealdade e da cordialidade, que deveriam existir entre parceiros.
É o ataque do pavão misterioso, na ânsia de desfilar seu pretenso e opaco poder. É pena que os brasileiros estejam se acostumando com tais praticas. Por certo não nos levará a nenhum caminho luminoso.
O autor, Carlos Pinto, é jornalista e colaborador de Opinião