Regional

Família sepulta corpo de parente num cemitério sem coveiro em Reginópolis

Da Redação
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Reginópolis – A dor da perda de um ente querido teve um sabor ainda mais amargo para os familiares de Aparecido dos Santos, 62 anos, chamado carinhosamente de Cidinho, que morreu na manhã do último dia 6 em Bauru. Seu corpo foi enterrado no dia seguinte, no cemitério de Reginópolis (70 quilômetros de Bauru). De acordo com a família, todo o processo, desde a abertura da cova até o sepultamento do corpo, teve que ser feito por parentes e amigos de Aparecido porque o coveiro titular estava de férias e seu substituto não se encontrava no município.

Um dos irmãos da vítima, o oficial da reserva da Polícia Militar Anézio Camargo da Silveira, conta que as complicações para enterrar Aparecido tiveram início ainda no Pronto-Socorro Central (PSC) de Bauru, para onde ele foi levado no dia 6 por uma viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) após passar mal em uma rua no Jardim Santa Luzia, bairro onde morava, e ser socorrido por um motorista de ônibus que passava pelo local.

A morte de Aparecido teria sido registrada às 6h25. Contudo, segundo Anézio, a liberação do corpo só ocorreu por volta das 16h, quando uma das assistentes sociais do hospital foi levada por familiares da vítima até uma clínica médica localizada na zona sul da cidade para colher a assinatura do médico legista, que passou mal e não teve como comparecer ao PSC às 13h, quando deveria ter chegado à unidade de saúde.

Anézio relata que o corpo do seu irmão foi levado para Reginópolis pelo veículo de uma funerária de Ibitinga por volta das 17h10 e velado na casa de dois irmãos que moram na cidade. Segundo ele, pelo fato de Aparecido pesar mais de 130 quilos, seu corpo teve que ser colocado em um caixão especial. Quando foi providenciar os trâmites para o enterro, os desencontros recomeçaram.

“Meu irmão era bem gordo, bem pesado. A gente tinha dois lugares para colocar ele: junto com a minha mãe, em um jazigo, ou numa cova normal de terra, que teria que ser aberta”, explica. Em função do tamanho do caixão, os familiares optaram por enterrá-lo em uma cova. Contudo, quando foram procurar o responsável pelo cemitério, descobriram que o coveiro titular estava de férias e o seu substituto viajando, possivelmente pescando. “Resumindo, não tinha ninguém para abrir a cova”, alega.

Desesperados, os familiares procuraram o prefeito Marco Antônio Martins Bastos (PSDB) para pedir ajuda, porém não foram atendidos. Em seguida, entraram em contato com o fiscal municipal Lázaro Vitorino, o “Lazinho”, comenta a irmã Inês. “Ele repudiou o pedido de mandar outro funcionário. Fomos humilhados pelo fiscal”, alega.

De acordo com Anézio, a situação deixou a família de Aparecido revoltada. “A gente entende que é um serviço essencial e que teria que ter alguém no lugar dele”, diz. “A gente paga uma taxa, que acho que hoje é de mais de R$ 40,00, para esse tipo de coisa”.

Como não havia outro jeito, e já estava escurecendo, com ajuda de um funcionário da prefeitura, os familiares da vítima não tiveram outra alternativa senão abrir uma cova. “São coisas que humilham a gente”, afirma. “A gente não tem noção de como é feito, da maneira correta. Eu tive que medir o comprimento, largura e altura do caixão com medo de chegar no outro dia e não dar certo”.

Passada a situação definida pelos familiares de Aparecido como “constrangedora”, na manhã do dia 7, feriado de Independência, por volta das 8h, eles seguiram para o cemitério com o corpo para fazer o sepultamento. “Aconteceu o que nós não esperávamos. Chegamos lá e não tinha ninguém para sepultar”, conta o irmão. “Nós fizemos tudo de novo. Descemos o caixão dele, só nós e alguns conhecidos, e puxamos toda a terra que tínhamos tirado”.

De acordo com Anézio, o sepultamento foi registrado pelas câmeras dos aparelhos celulares de alguns parentes. Quando o corpo já havia sido enterrado, segundo ele, o fiscal “Lazinho” teria chegado ao cemitério dizendo que seus funcionários haviam aberto a cova no dia anterior. A família de Aparecido não registrou boletim de ocorrência (B.O), mas não descarta acionar o Ministério Público (MP) para que o caso seja apurado.

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Fiscal alega falha de comunicação

O fiscal municipal Lázaro Vitorino, o “Lazinho“, diz que houve falha de comunicação entre a família de Aparecido dos Santos e o funcionário da prefeitura que estava substituindo o coveiro de férias antes do sepultamento. “O coveiro oficial estava de férias. Foi escalado um outro funcionário e esse outro funcionário não estava na cidade na hora do falecimento dessa pessoa”, explica.

Segundo ele, a comunicação sobre a morte de Aparecido teria sido feita a ele por um pedreiro chamado Rubens, que teria sido contratado por familiares da vítima. “Não foi nem a família que entrou em contato comigo no meu celular. Quem entrou em contato comigo foi um pedreiro chamado Rubens”, alega.

Após o telefonema, “Lazinho” conta que aguardou novo contato sobre a necessidade ou não de abrir a cova em razão do tamanho do caixão. “Me parece que o caixão não ia caber na gaveta, alguma coisa nesse sentido”, revela. “O pedreiro voltou a me ligar e disse que achava melhor fazer cova por precaução”.

Como o substituto do coveiro não foi localizado em sua residência, o fiscal conta que chamou o servidor público Joaquim Picinato, que trabalha como pedreiro na prefeitura, para fazer a abertura da cova. “Fomos nós que fizemos a cova”, afirma. “Eu peguei um outro profissional, um pedreiro nosso, e fui até o cemitério com ele. Esse Joaquim Picinato pegou a picareta e foi fazer a cova auxiliado por outras pessoas”.

“Lazinho” declara que considera o fato de não haver nenhum coveiro no momento do sepultamento um mal-entendido e que, como na segunda-feira o pedreiro contratado pela família estava no cemitério, achou que ele também faria o enterro do corpo.

“Esse coveiro que está substituindo o coveiro que está de férias achou que o Rubens ia lá, contratado pela família. Mas o pedreiro não apareceu no sepultamento”, diz. “Não imaginamos que não ia ter ninguém lá. Foi um mal-entendido por parte do coveiro nosso em achar que o pedreiro ia. Eu tenho certeza que foi um erro de comunicação”.

De acordo com ele, na maioria das vezes, pedreiros contratados por familiares são os responsáveis pelo sepultamento, com acompanhamento do coveiro, para que seja feita a preparação da cova. “É difícil você ver alguém que se joga numa cova lá embaixo, naquela profundidade que foi feito, e já joga terra direto no caixão da pessoa”, afirma.

O fiscal explica que, assim que recebeu um telefonema da irmã de Aparecido comunicando sobre a ausência de pessoa responsável para realizar o enterro, levou o pedreiro Joaquim Picinato, o mesmo que havia feito a abertura da cova, ao cemitério, mas o sepultamento já havia sido realizado pelos familiares. Segundo ele, os parentes de Aparecido receberam pessoalmente um pedido de desculpas seu pelo que ele considera uma “falha de comunicação”.

O prefeito do município, Marco Antônio Martins Bastos (PSDB), foi procurado pelo Jornal da Cidade, mas não atendeu o celular e nem retornou a ligação.

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‘Meus tios não puderam velar o irmão’

Sobrinha de Cidinho, Bruna Thais Camargo da Silva considera absurda a situação. “Logo após o corpo chegar a Reginópolis, descobrimos que o coveiro, conhecido por Paraná, que era responsável pelo plantão, tinha ido pescar. Meus tios tiveram que deixar de velar o corpo e ir em busca de pás para fazer a cova”, declara.

No dia seguinte, a família foi para o cemitério e não tinha ninguém para enterrar, reclama Bruna. “Meus tios tiveram que voltar para casa e pegar as ferramentas para enterrar o irmão, um absurdo! Procuramos o prefeito, que estava em sua chácara. Conseguimos falar com o vice, que tem um mercado na cidade. Ele disse que o problema era da família”, diz.

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