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Antes do Big Bang

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Desde criança ouço minha mãe contar-nos a história de dois irmãos que moravam em lados opostos de uma montanha. O mais jovem, casado, tinha uma grande família. O outro solteiro e sozinho, preocupava-se com o irmão com tantos filhos, tantas exigências e tão pouco para viver. Por isso, todos os dias, levantava-se na calada da noite e levava um grande feixe de trigo para o irmão. Por outro lado, o casado, pensando na solidão de seu irmão, sem ninguém para ajudá-lo e para alegrar seu coração, no meio da noite transportava um feixe de trigo até a cabana do irmão solteiro, com a intenção de aliviar seu trabalho fornecendo-lhe um sustento extra. Todas as manhãs, quando os irmãos acordavam, ficavam espantados ao ver que a sua pilha de trigo aumentava durante a noite. Isto continuou por anos a fio, até que, certa noite, os irmãos se encontraram quando cruzavam a montanha com seus feixes de trigo.

Quando esperávamos o desfecho para saber o que aconteceu com os irmãos ou como reagiram quando se cruzaram, ela concluía afirmando que o verbo amar vem de dar, que o amor depende do doador e não do receptor e que ele surge como uma consequência do processo de doação.

Dentro deste conceito, existe um exemplo maior relatado por antiga Tradição oriental cuja origem perde-se no tempo. Segundo esta Tradição, antes do Big Bang existia uma Energia Infinita, a Primeira Causa e única realidade que, além do tempo, preenchia toda a eternidade. A essência e substância dessa Energia era a satisfação infinita, a alegria sem limites e a iluminação ilimitada. Ela continha tudo o que desejamos: plenitude, amor, paz, felicidade, enfim, Luz. Sua natureza era se expandir, compartilhar, mas para isto, era preciso um receptor que quisesse receber ou com desejo de tomar posse da oferenda para que o ato de compartilhar ocorresse. Então para completar sua natureza, a Energia Infinita criou um receptor, o primeiro efeito, cuja natureza era constituída pelo desejo infinito de receber.

O receptor, composto pelos aspectos masculino e feminino, pode ser entendido como um copo feito de gelo enquanto que, a água líquida é o Doador que escorre e enche o copo. Água líquida e gelo, duas formas diferentes, mas uma única substância, uma única essência. Um criado a imagem do outro; um para compartilhar e outro para receber... um infinito de plenitude.

Mas, havia um problema: o receptor queria fazer por merecer tantas benesses e ser a causa de sua própria satisfação e felicidade; o receptor sentia todas aquelas emoções negativas que acompanham um sucesso não merecido. Assim, o receptor repeliu, resistiu à Luz. A Energia Infinita, então, retirou-se, contraiu-se e criou um espaço vazio, como um pai carinhoso que se afasta e permite que a criança caia para que, assim, aprenda a andar.

Houve uma explosão quando a Energia Infinita criou o espaço e o tempo, o nosso universo, para que o receptor pudesse desenvolver a sua própria natureza divina; para proporcionar ao receptor a oportunidade de, através de seu livre arbítrio, fazer por merecer sua própria satisfação. A Energia Infinita escondeu-se fazendo com que o receptor aparecesse após um longo período evolutivo.

Por isto somos uma espécie de recebedores, constantemente repetindo: que vou ganhar com isso? Esse comportamento reativo coaduna-se com a ambição, com o egoísmo. Mas, estamos aqui para mudar essa natureza! Este foi o acordo: para usufruirmos da plenitude verdadeira e duradoura temos que fazer por merecê-la transformando nossa natureza reativa em proativa ou transformando nosso desejo de simplesmente receber em um desejo de receber para poder compartilhar e uma das formas mais claras desse interesse proativo é a generosidade.

Neste contexto, a tolerância é outra palavra chave, pois, ela permite que se acolha o outro, ela permite que se supere o medo de abrir mão do controle para viver o encontro. Seguindo o exemplo da Energia Infinita, quando nos contraímos, abrimos espaço para o outro e deste esforço nasce a mutualidade, uma relação igualitária entre desiguais. É preciso contrair o eu, para aprendermos a arte de encontrar e ser encontrado.

O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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