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Entrevista da Semana: Rossana Teresa Curioni Mergulhão

Gisele Hilário
| Tempo de leitura: 10 min

‘A participação é o que me move’

A juíza de Direito Rossana Teresa Curioni Mergulhão é dessas pessoas que, hoje em dia, a sociedade não está mais acostumada a encontrar. Ela resolveu sair, literalmente, do gabinete que ocupa no Fórum de Bauru, como titular da 1.ª Vara Cível, para conhecer mais a fundo o mundo do lado de cá e atuar para ajudar nas mudanças necessárias. Assim, além do trabalho diário como magistrada, dá aulas e é engajada nas discussões que envolvem o meio ambiente e sustentabilidade da vida por onde quer que passe.

Quando estava em Ibitinga, fez um trabalho social lá. Aqui, no início deste mês, foi novamente organizadora do 2º Fórum de Ações Antrópicas e o Desafio da Sustentabilidade (Faads), realizado na Universidade do Sagrado Coração (USC), cujo objetivo foi o de sensibilizar a comunidade para o desafio que a humanidade vive, gerado pela intensa degradação e desequilíbrio ambiental provocado pelas próprias ações do homem e intensificados pelas mudanças climáticas.

Rossana, que nem sabe bem de onde vem tanta ligação com a natureza – acredita que seja herança dos avós -, afirma: “A participação é o que me move”. Coisa que deveria fazer parte da vida das outras pessoas, enquanto elementos importantes dentro da sociedade. “Meu holerite viria igual se eu não me movesse. Eu não critico quem não se envolve, mas eu me envolvo”. Na próxima quarta-feira (22/09), ela lançará seu livro "A produção da prova no Direito Processual; o alcance e os limites do ativismo judicial", na OAB, na avenida Nações Unidas, às 19h30.

Jornal da Cidade – A senhora é bastante ativa, com várias atividades ao mesmo tempo: juíza, professora, integrantes de ONG. Como conciliar tudo isso?

Rossana Teresa Curioni Mergulhão – Eu acho que é questão de perfil. Sempre corri atrás das minhas coisas. Me lembro que desde criança sempre quis fazer alguma coisa para ter o meu dinheiro, a minha independência, embora não fosse esse o perfil da época, quando ia para a escola. Geralmente você vai para escola, faz tarefa e eu sempre quis fazer outras coisas. É a minha personalidade. E na função, o que acaba me levando mais, é que eu sempre fui muito participativa. Eu acho que não basta ser só juiz. Claro que às vezes preciso sacrificar algumas coisas para atender outras, mas na medida do possível vou atendendo tudo de modo satisfatório, ainda que não imediatamente.

JC – Como então a senhora decidiu fazer Direito?

Rossana – Na verdade, saí do colégio, fiz um curso técnico em contabilidade, porque na cidade era o que tinha. Depois disso, comecei a tentar me encontrar, a me perguntar o que eu queria fazer da vida. E quem me descobriu para o Direito foi meu irmão. Ele estudava com um menino que era muito amigo dele, cujo tio era juiz. Ele conheceu o tio e me disse: “Tatá, acho que você deve fazer direito”. Eu sempre tive muita facilidade para estudar, o perfil de tentar resolver. E decidi. Fui para faculdade para fazer Direito para ser juiz.

JC- Nunca quis advogar?

Rossana – Não. Fiz o exame da OAB, passei, mas nunca advoguei. Fui cartorária, fui chefe de cartório enquanto fiz a faculdade e até passar no concurso. Mas isso é uma coisa que eu quero reservar para depois, quando eu me aposentar. Me aposento razoavelmente cedo, com 50 e poucos anos. E pretendo viver muito mais do que isso. É uma coisa que talvez eu queira fazer. Não sei qual advocacia ainda, gosto muito do direito público, administração pública, questão ambiental. Talvez eu foque meu doutorado para isso para depois trabalhar na área com que mais me identificar no momento.

JC – A senhora já se viu em outra atividade?

Rossana - Grandes amigos que foram pessoas que influenciaram muito minha vida. Alguns promotores, juízes que eu tinha contato. Tem uma pessoa muito querida, o Tim Gentil, que é promotor há muito tempo, de Itápolis, que até tentou me levar para o Ministério Público, mas eu sempre dizia que não era o meu perfil. Eu dizia: “eu vou para o concurso da magistratura”. Eu fiz dois concursos. No primeiro eu fiquei no oral e nos segundo eu passei. Eu nunca tive dúvida, depois que eu entrei para a faculdade de Direito, que eu queria ser juíza.

JC – É uma questão de foco, determinação.

Rossana - Na minha vida, sempre fui determinada e disciplinada. Saí da faculdade em agosto de 1991 e decidi ficar dois anos descansando para começar a estudar de uma maneira muito tranquila. Tive que dar um tempo porque eu viajava. Morava em Itápolis e estudava em São Carlos. Viajava todos os dias uma média de 300 quilômetros para estudar e trabalhar. E comecei a estudar como se eu estivesse lendo um romance. Quando estava fazendo dois anos, estava na escola da magistratura. Foi um desafio, eu nunca tinha ido para São Paulo sozinha, nem sabia o que esperava. Então, dois anos depois, quando eu pensava em começar a estudar, já estava dentro do Tribunal fazendo a escola da magistratura. As coisas foram acontecendo. Não caiu do céu. Eu corri atrás, porque era uma coisa que eu queria muito. E é isso que eu falo para os meus alunos. Precisamos ter metas e disciplina. Se nos dedicarmos, nós conseguimos.

JC – E como foi entrar numa carreira dominada por homens?

Rossana – Há 15 anos ainda era uma carreira um pouco machista. Hoje, nem tanto. Eu nunca enfrentei dificuldade porque nunca me permiti ser discriminada. Tenho algumas posturas. Então, ainda que as pessoas quisessem, fossem preconceituosas, me discriminassem, eu nunca me senti discriminada. Não sofri isso por que não deixei que isso acontecesse.

JC – Ainda hoje os homens lideram nas escolas de Direito.

Rossana – Ainda tem muitos homens, mas hoje o Tribunal de Justiça está caminhando a passos largos com muitas mulheres. Não sei dizer quantas. Mas eu não gosto de dividir isso em homem e mulher. Acho que a gente pode caminhar muito bem juntos. O homem tem algumas coisas que nós não temos e nós temos algumas coisas que eles não têm. Então, acho que o trabalho junto é muito bom e mais gratificante. Quando une isso, dá certo.

JC – Seu marido também é ligado ao Direito?

Rossana – Meu marido é advogado. Então, não dá muito conflito. Pelo contrário, a gente se ajuda muito, Quando tenho dúvida recorro a ele; quando ele está com problema eu o socorro. É uma dinâmica muito legal.

JC – A senhora é defensora do meio ambiente. É um escape do estresse do dia a dia?

Rossana – Eu tenho uma relação muito forte com a natureza. Não sei de onde vem isso. Cresci no sítio, meus avós são descendentes de italianos. Então, é bem aquela coisa do italiano que chega aqui e vai explorar a terra. E a minha vida foi muito ligada a isso. Eu cresci vendo os meus pais cultivando terra. Isso tudo é uma coisa muito forte em mim. Eu entro em êxtase quando vejo uma noite de luar maravilhoso. Eu paro para ver, chego a conversar com Deus ou essa força maior. É uma coisa que está muito ligada em mim. E da mesma maneira com as árvores, as flores. Eu tenho mania por flor. Gosto de orquídea, cultivo. Preciso chegar no fim de semana e fazer isso, recarregar minhas energias, preciso ter essa troca. Me dá o combustível para semana. Quando não vou para lá e que eu não faço isso, minha semana não é igual. A ligação com o meio ambiente é forte. Meu marido até brinca comigo, dizendo que eu devia ser gari, porque eu vou caminhar, eu cato lixo. Paro na estrada para catar lixo e jogar.

JC – Mas essa deveria ser uma preocupação de todos.

Rossana – Mas infelizmente não é. E muitos não têm noção dessa situação. É uma falsa ideia de que tudo é infinito, e não é. Quando eu cheguei em Ibitinga, fizemos um trabalho social grande lá. Temos um problema ambiental sério lá, por questões da bacia hidrográfica grande, rios abundantes e os ranchos que foram sendo construidos impedindo que as pessoas pudessem ter acesso e degradação. Isso tudo tem um pouco de nós.

JC – A senhora vê luz no fim do túnel em relação à conscientização das pessoas?

Rossana – Vejo, claro. Se todos forem conscientizados e somarmos esforços. É fácil? Não. É o desafio da sustentabilidade. Precisamos crescer economicamente, mas não podemos esquecer o meio ambiente, que faz parte de nós. Nós estamos sentindo isso na pele. Ainda que a gente não queira e façamos de tudo para não ver isso, está acontecendo. Esse calor, essa falta de chuva, essa doideira. É a natureza falando: “Vocês estão mexendo de maneira errada”. Nós estamos desequilibrando o local onde estamos. Estamos tirando tudo do lugar, estamos diminuindo uma coisa e pondo outra demasiadamente, produzimos lixo como se a Terra fosse infinita, destruímos como se os recursos brotassem naturalmente. Eu preciso acreditar, para viver, que isso tem saída, mas não posso acreditar que isso aconteça naturalmente. E eu levo isso na minha vida. Se eu não acreditasse que eu pudesse ser juiz eu não seria. Na minha família não tinha ninguém na área, mas eu queria isso. E acreditei. Então, preciso acreditar que a gente pode salvar.

JC - Qual o principal problema de meio ambiente em Bauru?

Rossana – Além do esgoto, o lixo. É uma cidade que não é arborizada. As árvores que têm cortam, destroem. E às vezes não precisa de muito custo. São hábitos. Por exemplo, plantar uma árvore. Se nós tivéssemos mais árvores, acredito que a cidade não seria tão quente assim. Nós temos um trânsito que não é tão calmo. O meio ambiente requer tudo. O número de veículos que temos aqui é uma coisa absurda. São pequenas coisas e devemos nos policiar. Então, a gente pode se policiar. Se posso usar um carro só, por que usar dois? E como a gente muda? Antes de tudo, informação, para se formar melhor. Nada mudaria se não houvesse um movimento social.

JC – Por onde a senhora iniciaria a mudança?

Rossana – Pela conscientização através das discussões. E a partir daí o trabalho de formação e informação, de educação. Talvez o processo educacional não sirva mais para este momento que existe hoje, talvez seja preciso repensar esse modelo. Nós vivemos num estado de direito, na democracia, que pressupõe participação. Mas quantos de nós tem participação? O que nós fazemos?

JC – Essas são as perguntas que te movem?

Rossana – Claro. A participação me move. A participação que está dentro do processo democrático. A gente só vê esse processo democrático como político, mas o político partidário. E não é isso. Então, a partir do momento que cada um se sentir um elemento importante dentro da sociedade, as coisas mudam. E nós, o que fazemos? Criticamos ou achamos que quem está fazendo está levando algo em troca. E não é isso. Tem um monte de gente fazendo coisas sem nada em troca. E eu posso dizer isso de mim. Meu holerite viria igual se eu não me movesse. Eu não critico quem não se envolve, mas eu me envolvo. E às vezes sou criticada por isso, tipo “devia tá fazendo processo”. Sim, vou fazer os processos. E as coisas urgentes eu vou entregar na hora, mas tem coisas que podem esperar. E a minha atitude pode mudar em alguns aspectos, assim como a sua, assim como a de todo mundo, a partir do momento em que a gente se engajar e acreditar que o Estado somos nós. E nós vemos o descaso com a coisa pública, que nós vemos como sendo de ninguém. Então, não nos preocupamos. A coisa pública é de todos, não de ninguém. Assim como o meio ambiente.

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Perfil

Nome: Rossana Teresa Curioni Mergulhão

Idade: 48 anos

Local de nascimento: Itápolis

Filhos: Não tem.

Signo: Escorpião

Hobby: Fazer caminhadas, mexer com as minhas plantas, minhas orquídeas

Livro de cabeceira: Gosto muito da literatura do Boff. Gosto muito de “Saber Cuidar”

Filme preferido: Não tenho tido muito tempo. Faz tempo que não vou ao cinema e não tenho um que tenha me marcado

Time: Palmeiras

Para quem dá nota 10: Para as pessoas que não se corrompem, apesar de todas as dificuldades

Para quem dá nota 0: Para os corruptos. O mal maior do País é a corrupção.

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