Pesca & Lazer

Onde o ‘Velho Chico' encontra o mar

Márcia Duran
| Tempo de leitura: 4 min

“Em algum lugar este rio se junta com outro, depois com outro, até que - distante dos meus olhos e do meu coração - todas estas águas se misturam com o mar”, escreveu Paulo Coelho no livro “Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei”. Sem tentar comparar as minhas impressões com as do mago, eu fiquei, sim, muito emocionada ao navegar pelo rio São Francisco.

Um rio brasileiro, que nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, a aproximadamente 1.200 metros de altitude, atravessa a Bahia, entra pelo norte de Pernambuco, é a divisa natural de Sergipe e Alagoas, e, por fim, deságua no Oceano Atlântico, em Piaçabuçu, após percorrer 2.830 quilômetros de extensão.

Já a poucos metros de se encontrar com o mar, as dunas serpenteiam o “Velho Chico”. Lagoas se formam às margens e convidam ao banho. A água é morna; uma mistura de doce e salgada; o sol é escaldante; e a paisagem é de encher os olhos. Para chegar ao encontro do rio com o mar só a pé. O barco não pode chegar até lá. Uma caminhada de uns 50 minutos (ida e volta). O cenário compensa.

A fé dos nativos se reflete nas imagens de barro de São Francisco de Assis, que eles comercializam a módicos R$ 5,00 às margens do rio. Após a venda, explicam: “Você pega a imagem, mergulha com ela no rio e faça seu pedido. Não esqueça de agradecer. São Francisco sempre foi grato por tudo.” Ritual ensinado, ritual praticado.

Um conselho que dou ao leitor: se for a Alagoas, não deixe de se banhar nas águas do São Francisco. Um mergulho para “lavar a alma”.

Espécies

Entre as espécies nativas mais importantes nos rios e lagoas naturais da bacia do rio São Francisco destacam-se as migradoras, caso de curimatã-pacu (Prochilodus marggravii), dourado (Salminus brasiliensis), surubim (Pseudoplatystoma corruscans), matrinxã (Brycon lundii), mandi-amarelo (Pimelodus maculatus), mandi-açu (Duopalatinus emarginatus), pirá (Conostome conirostris) e piau-verdadeiro (Leporinus elongatus); e as sedentárias, como pacamão (Lophiosilurus alexandri), piau-branco (Schizodon knerii), traíra (Hoplias malabaricus), corvinas (Pachyurus francisci e P. squamipinnis), piranha-vermelha (Pygocentrus nattereri) e piranha-preta (Serrasalmus piraya).

Muitos gêneros de peixes encontrados na bacia do São Francisco são comuns às bacias amazônica e do Prata. O dourado é um pouco maior que a espécie da bacia do Prata, alcançando 30 quilos e 1,50m de comprimento. Os pintados são famosos pelo tamanho que atingem, mais de 100 quilos, embora peixes desse porte não sejam muito comuns.

Vale ressaltar que muitas espécies de outras bacias hidrográficas, ou mesmo espécies exóticas, já foram introduzidas na bacia, quando do povoamento de seus reservatórios e açudes. Entre elas, encontram-se os tucunarés (Cichla spp.), introduzidos nos reservatórios de Três Marias e Itaparica, em 1982 e 1989, respectivamente, mostrando aumento acentuado de ano para ano.

Outra espécie foi a pescada (Plagioscion sp.), introduzida em Sobradinho pelo DNOCS no final da década de 70 e, posteriormente, também em Itaparica, com abundância crescente com o passar dos anos, além de diversas outras espécies inseridas no sistema a partir de experimentos de cultivo, como carpas, tilápias, tambaqui (Colossoma macropomum), pacu-caranha (Piaractus mesopotamicus), apaiari (Astronotus ocellatus) e o bagre-africano (Clarias lazera).

Apesar dos sérios problemas ambientais observados na bacia do São Francisco, inclusive a polêmica da transposição, que não vamos abordar nesta reportagem, algumas áreas ainda oferecem condições para uma boa pescaria. Dourados, surubins, matrinxãs, piaparas, curvinas, traíras, mandis, pirá (um bagre endêmico da bacia), tucunarés (introduzidos em alguns reservatórios e no baixo São Francisco), e outras espécies introduzidas e bem sucedidas podem ser capturadas em suas águas.

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Sua majestade, Aldo, o peixe-boi

Quem visita São Miguel dos Milagres, em Alagoas, não pode deixar de conhecer o projeto de preservação do peixe-boi, espécie ameaçada de extinção (www.projetopeixe-boi.com.br)

A visita é monitorada. Em meio ao rio Tatuamunha, cercado de manguezais, a jangada desliza suavemente em direção ao santuário da preservação do mamífero. O mais famoso e mais dócil do lugar chama-se Aldo. Para vê-lo é preciso paciência. Aldo dorme muito e não pode ser incomodado de jeito nenhum. O peixe-boi é muito sensível e adoece facilmente.

Aldo quase nunca vai para o mar, prefere ficar no rio, por isso é visto mais facilmente. Motores são proibidos, assim como bebidas e alimentos. Tudo para garantir o sossego dos sete peixes-bois que vivem entre o rio e o mar, graças a um projeto de preservação do Ibama, que já dura 15 anos.

Aldo foi encontrado por pescadores ainda na água em Quixaba, distrito de Aracati, no Ceará, sendo carregado pela correnteza. O animal foi resgatado por um morador, colaborador do Ibama. Os profissionais do Projeto Peixe-Boi foram ao local para tentar uma reintrodução ao habitat natural, mas a chuva atrapalhou o trabalho. E como a corrente marinha estava muito forte na área e havia o risco de que o animal encalhasse de novo, decidiu-se pela transferência do filhote para a Ilha Itamaracá, onde a espécie recebe um tratamento especial.

A reintrodução foi feita em setembro de 1998, numa Área de Proteção Ambiental no litoral de Alagoas, depois de mais de dois anos de tratamento em Itamaracá. Aldo adaptou-se bem ao ambiente natural. É monitorado por rádio e engordou - pesa mais de 200 quilos e tem 1,70m de comprimento.

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