Política

Discurso político transcende a realidade

Por Fernando Strongren | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 3 min

Nas últimas semanas antes da eleição de hoje, nenhum outro assunto tem gerado tantos debates quanto a política. Para isso, basta uma rápida folheada no jornal ou uma visita a páginas da Internet que logo se depara com uma quantidade enorme de opiniões, comentários e reportagens sobre a política nacional. Mas como o discurso político é construído pelos candidatos e chega até os eleitores?

Foi para tentar responder questões como essa que Dominique Maingueneau esteve em Bauru no último dia 14 para proferir a palestra “O posicionar-se no campo do discurso político”, no anfiteatro da Universidade do Sagrado Coração (USC). Antes, o professor de ciências da linguagem na Universidade Paris XII, França, concedeu entrevista coletiva em que comentou a política nacional e as características do discurso político.

Para Maingueneau, a eleição é um momento mágico, onde o sonho da construção de um novo mundo é possível. Fundado sobre este momento mágico, o discurso político ganha caráter transcendente. “O discurso político hoje é, ao mesmo tempo, um discurso da realidade e também um discurso transcendente, mítico”, afirma.

Mesmo com seu lado mítico, Maingueneau diferencia o discurso político do discurso religioso em sua constituição. Para o professor, o segundo é auto-legitimado por uma entidade absoluta, enquanto o primeiro é apoiado em outros discursos, como o científico, econômico ou mesmo no discurso religioso.

Justamente em sua tentativa de falar para todos os públicos, o discurso político não constitui seu público-alvo e torna-se inconsistente e vago. Mas Maingueneau não vê nesta inconsistência uma falha: “Política significa cidade, sociedade. Na verdade, nunca se fala para todos, a não ser no discurso político.”

Por surgir da sociedade, o discurso político fica na fronteira entre os discursos que a constituíram, como a religião e a ciência. Mas ainda assim deve tocar a realidade, já que o discurso político também modifica a vida das pessoas.

Caminhando sobre essa fronteira, o discurso político não pode ser definido, pois muda de acordo com o valor dado à política por cada sociedade. “Numa sociedade islâmica a grande parte da atividade social é religiosa, e a política tem pouco poder de modificar a vida das pessoas. Já na sociedade democrática europeia é o contrário.”

Momento

Sobre o discurso do presidente Lula, Maingueneau aponta que ele é fruto de um certo momento do Brasil, principalmente comparando sua imagem há 22 anos e a atual. Um homem político que tem a capacidade de adaptar seu discurso ao momento. “Ele achou o que se chama de ethos, uma maneira de falar, de ser, que permite um consenso de ser brasileiro.” Para ele, o presidente consegue recategorizar em uma linguagem simples, sobretudo com uso de metáforas, coisas complexas e dar sentido à população.

Sobre a política da América Latina, o professor destaca que a imagem de Lula foi positiva para mostrar que eleger uma pessoa de origem humilde não era contraditório. “Mas acho que foi uma ilusão, pois não se pode comparar o Chaves (Hugo Chaves, presidente da Venezuela), com Lula, pois o Lula tem uma cultura política antiga. O Chaves é um militar.”

Esquerda x direita

Outra característica do discurso político no mundo globalizado é a sua proximidade e semelhança mesmo em países e sociedades distintas. Com a queda do Muro de Berlin e o fim da União Soviética, os discursos políticos da direita e da esquerda também se aproximaram, revela Maingueneau.

Para ele, no Brasil a aproximação entre o discurso de direita e esquerda é ainda mais marcante. Com o fim do comunismo, a esquerda clássica não pôde mais usar o discurso de esquerda clássica. Isso, somado ao crescimento econômico do País, permitiu o surgimento do discurso centrista nos últimos anos.

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