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Guerra cambial

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Normalmente, o crescimento rápido das importações não deveria trazer problemas pa-ra uma economia que cresce também rapidamente e, mais ainda, de forma robusta como vem acontecendo com a economia brasileira neste primeiro ano pós-crise financeira mundial. Apesar dessa verdade simples, somos obrigados a reconhecer que o aumento recente das importações de bens de consumo está se tornando uma das dificuldades maiores que a economia brasileira enfrenta. 

O fato de essas importações já responderem por aproximadamente 20% do que o mercado interno está consumindo não é o maior problema. O que é complicado é que esse tipo de importações está desconstruindo segmentos importantes de um setor industrial sofisticado que nós levamos décadas para desenvolver. Isso se deve a que o câmbio tem estado sobrevalorizado por tempo demasiado. Já veio do primeiro mandato de FHC que permitiu essa tragédia: nós tivemos o câmbio sobrevalorizado todo esse tempo e mesmo no governo de Lula nós estamos mantendo o Real supervalorizado há um ano e meio ou dois anos. Não é porque este seja o desejo dos governos, mas porque os mecanismos que estão construídos tornaram isso factível: um enorme diferencial entre as taxas de juro interna e externa que atrai esse capital que valoriza o câmbio, dificulta nossas exportações e facilita as importações.

Esse problema tornou-se muito maior do que o próprio câmbio quando hoje vemos alguns estados competindo para conceder subsídios às importações.  Além da valorização do câmbio passamos a ter as dificuldades dessas concessões que dão subsídios às importações desde que entrem em certos portos brasileiros. Estamos deixando que essas coisas cresçam de uma maneira insensata, permitindo a desmontagem da estrutura sofisticada que a indústria brasileira construiu durante tantos anos de desenvolvimento continuado.  

O problema da valorização do Real é muito mais sério do que a maioria dos economistas acredita. Nós nos tornamos um caso escandaloso de câmbio sobrevalorizado, ignorando as conseqüências de um fato extremamente grave: o Brasil está hoje caminhando para uma situação delicada diante do crescimento do déficit em contas-corrente, enquanto faz questão de não enxergar o risco de manter o câmbio sobrevalorizado 20%. Ao mesmo tempo, o câmbio chinês está desvalorizado em torno de uns 40%. A diferença entre os preços do Brasil e da China não tem nada que ver com competência empresarial ou eficiência produtiva. O Real está tão valorizado e o dólar tão desvalorizado que nos tornamos o país que mais contribui para o superávit comercial norte-americano.

Os Estados Unidos estão se preparando para um grande programa de exportação desvalorizando o câmbio, cientes de que vão ter que desvalorizar o dólar ainda mais porque a China não dá confiança e mantém o Yuan ligado à moeda americana, ou seja, quando o dólar desvaloriza o chinês desvaloriza junto, o que está causando uma perturbação enorme no mundo inteiro.

É a isto que o ministro Guido Mantega chamou com toda razão de “guerra cambial”, que caminha para terminar numa guerra comercial, ameaçando o mundo com a reedição do que houve de pior na Grande Depressão dos anos 30 do século passado: o desemprego amplo, geral e irrestrito.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Desenvolvimento. contatodelfimnetto@terra.com.br

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