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Tradição e tranquilidade para morar

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min

Quando se fala em rua Batista de Carvalho, a maioria dos bauruenses já imagina o imenso calçadão comercial que corta parte do Centro da cidade. Mas o que poucos se lembram é da pequena parte do final da rua, exatamente entre as quadras 12 e 15, onde muitos moradores antigos e novos elegeram como o local para conseguir a tão sonhada tranquilidade aliada à proximidade do comércio central.

Ao passar pelas últimas quadras, é possível ver casas ainda muito antigas, rústicas, de portão baixo, outras até parecem estar abandonadas. O comércio chegou por lá, mas não fez com que o local se tornasse menos tranquilo. Aproximadamente três oficinas, parte de uma loja de material de construção, corretora de seguros e até uma igreja dão um ar mais moderno à via.

Entre todos os imóveis, um se destaca: a casa dos moradores Rubens Zapater, 75 anos, e Ieda Ferraz Zapater, 67 anos, que residem na mesma casa da rua Batista de Carvalho desde 1970. “Nós nos casamos em 1964, tivemos três filhos, sendo duas meninas e um menino, e depois que mudamos para cá tivemos mais uma filha”, relembra Rubens.

A história de vida da família foi baseada na tranquilidade. No início, a casa simples tinha grades baixas e uma grande janela na fachada. “Nossos filhos foram criados livremente aqui. Eles aprontavam muito. Tinham muito espaço para brincar e tranquilidade. Eles brincavam até no cemitério”, conta Ieda, aos risos.

Ela continua o pensamento lembrando que nunca teve problemas com os vizinhos, mas que em certa época, a casa que fica em frente à sua se transformou em um cortiço. “Era engraçado, uma barulheira. Lá moravam cerca de 10 pessoas que utilizavam um único tanque para lavar as roupas.”

Modernidade

O tempo passou, os filhos cresceram e cada um seguiu seu destino. O casal permaneceu ali, mas a casa já não tinha mais os mesmos contornos. Foi ganhando novas cores e toques artesanais escolhidos e confeccionados pela própria Ieda. “Esses espelhos e os quadrinhos eu fiz. Fui inventando. As cores lilás e amarela também. Ficou bem alegre”, afirma Ieda.

Sem deixar de lado a rusticidade da casa, como os pisos de taco - impecáveis e bem lustrados -, as grades do portão foram substituídas por outras mais altas e modernas. A antiga janela já não existe mais. Hoje, uma grande porta tomou seu espaço e completa a tranquilidade do local ligando a sala à varanda. “Essa varanda nós aproveitamos mais no frio, porque as telhas a deixam muito quente”, explicou Ieda.

Muitos anos se passaram desde que o casal chegou por lá, mas uma coisa ainda não mudou: a antiga rua de paralelepípedos. “A modernidade chegou, algumas empresas se instalaram aqui, mas a rua continua nos paralelepípedos. As outras foram asfaltadas, mas essa permanece assim”, aponta Rubens.

Entretanto, o casal finaliza dizendo que o local foi escolhido por eles como um lar fixo. “Se formos vender essa casa, não conseguiremos nada porque com certeza ela vale pouco dinheiro, mas o valor sentimental não existe. Nós adoramos morar aqui”, finaliza o casal.

Imóveis

Para quem deseja morar na Batista de Carvalho, ainda existem imóveis à venda. Uma casa com aproximadamente 621 metros quadrados de terreno está custando cerca de R$ 265 mil, segundo a imobiliária responsável pela comercialização.

Quando surgiu a oportunidade de sair da Vila Falcão, Celso Caires Dourado e Araci Ferreira da Silva não pensaram duas vezes em procurar uma casa próxima à rua Batista de Carvalho. “Nós achávamos a rua onde morávamos muito barulhenta e minha esposa fez uma operação e não podia mais ficar andando muito. A Vila Falcão é mais longe do Centro em comparação à rua Batista de Carvalho”, afirma Celso.

A oferta surgiu há 5 anos, mas para aluguel. “A casa era de uma conhecida nossa e ela alugou sem problemas. Nós gostamos do local e surgiu a oportunidade de comprar essa casa. Nós adoramos a ideia porque fica bem próximo ao Centro da cidade e nós podemos ir à pé sem problemas. O lugar é muito tranquilo também.”

Cadeiras na calçada: filme antigo

Os anos em que predominavam os bate-papos entre vizinhos sentados nas cadeiras de área colocadas na calçada durante as noites quentes da “Batista residencial” ficaram para trás. E os novos tempos também trouxeram um novo perfil de moradores.

Aliada ao espírito cosmopolita da própria Bauru atual, com muita gente que chega para trabalhar ou estudar apenas por períodos provisórios na cidade, a modernidade tira, conforme o passar dos anos, aquele “ar de cidade pequena” da rua.

Com o envelhecimento de alguns e a saída de moradores tradicionais, as casas abrigam muita gente que mal se vê, não porque detesta vizinhos ou algo do gênero, mas pela correria diária.

Aos 82 anos - 46 deles vividos numa espaçosa casa em frente aos paralelepípedos da Batista -, Maria do Carmo Frutuoso tem parâmetros de sobra para comparar como é e como foi a vizinhança da região.

“As pessoas que chegam para morar por aqui, hoje em dia, ficam fora o dia todo. Não há mais aquele vínculo de antigamente”, observa a moradora. “No verão, as calçadas eram repletas de cadeiras”, recorda-se.

Viúva, Maria do Carmo deixou a casa onde passou a maior parte da vida para morar com o filho, algumas casas “ladeira acima” da rua. É lá onde ela curte os netos e lembra da época em que a espaçosa e hoje vazia casa, que visita esporadicamente para buscar um objeto ou outro, era “ponto de abastecimento” da molecada que subia e descia a ladeira, seja atrás de uma bola ou envolvida em outras brincadeiras de uma infância também longínqua, que nem imaginava o que seriam computadores ou videogames.

“A molecada toda vinha aqui depois de jogar bola. Estourávamos pipoca, era delicioso”, lembra. “Hoje poucos conheço. Mas é assim, é a vida moderna”, resigna-se.

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