De acordo com Karl Marx, alguns fatos importantes, na história da humanidade, aconteceriam, por assim dizer, duas vezes: a primeira como tragédia e a segunda como farsa. Anuncia-se, quem sabe, outra farsa, embora não seja a segunda vez que o fato se apresente na história brasileira. Vou tentar explicar melhor. Fiz questão de ficar fora do debate sobre as eleições gerais e presidenciais, até agora, porque minha posição como educadora e formadora de opinião pode ser vista como partidária. Nesse ponto faço questão de dizer que sou, a priori, apartidária e, se fosse possível, assumiria meu, quem sabe ainda o faça um dia, lado anarquista.
Mas o caso que se apresenta pelos meios de comunicação de massa me assusta em vista do terrorismo fundamentalista religioso - ou pseudo - sobre uma questão que me é pessoalmente muito cara, como os que já me conhecem, sabem, que é sobre a descrimi-nalização do aborto. Penso que está aí a gran-de marcha para a hipocrisia. E, de acordo com outras marchas no passado da história brasileira, pode resultar em uma não tão saborosa estória para contarmos aos nossos netos. Eu não tenho orgulho nenhum em ter nascido num tempo (1970) em que uma geração foi massacrada em seus princípios de liberdade de pensamento por uma tacanha ideia de pro-gressismo fundado em um falso moralismo capitalizado por um ideário que nem ao menos sabia o que era esse país.
Essa cultura do medo hipócrita, ignorante, tacanha já deu provas mais do que suficientes que não funciona para o modelo de país que eu desejo e tento ajudar a construir. Respeito as religiões e nem acredito que muitos dos que estão se arvorando por aí estejam de fato representando direito ou conheçam direito seus respectivos credos.
O mínimo que peço aos que proclamam alguma fé é que leiam melhor os textos que consideram sagrados ou fundamentais para a sua doutrina e respeitem os demais textos sagrados para os outros, inclusive respeitem o direito das mulheres em decidirem o que devem decidir sobre suas vidas, pois a questão do aborto é muito séria para uma mulher para ser banalizada como vem sendo, é uma questão de saúde pública, é tão antiga quanto a própria humanidade e não pode, não deve ser carta de jogo político, tampouco será algo passível de ser excluído da humanidade por decreto ou proibição legal. (A autora, Lílian Henrique de Azevedo, é doutora em História, pesquisadora e professora universitária de Bauru)