Começa logo cedo a rotina de quem depende de atendimento médico nas unidades públicas de Pronto-Socorro (PS) em Bauru. No entanto, o que deveria ser algo rotineiro acaba se tornando, muitas vezes, um sacrifício à própria saúde, inclusive de pacientes com idade avançada, que são obrigados a esperar, em média, de duas a três horas por atendimento.
É o caso da aposentada Narcisa Navarro, de 61 anos. Ontem, ela foi levada por Fabiana Inhtasta, sua filha, ao PS do Jardim Bela Vista e, de acordo com Fabiana, a espera por uma consulta demorou mais de três horas. Narcisa parecia necessitar de atendimento emergencial, já que apresentava o corpo todo adormecido, tontura e vista embaçada.
“Ela estava passando mal e ninguém naquele Pronto-Socorro ligava para isso. O descaso é enorme. As enfermeiras passavam ao meu lado desfilando, conversando com outros funcionários, sem dar atenção”, reclamou. “Tive que insistir para que o médico a atendesse, pois ele disse que estava de saída, sendo que só havia ele ontem no Pronto-Socorro”, alegou Fabiana.
Além do atendimento tardio, o diagnóstico da paciente idosa, na concepção de Fabiana, não foi preciso. O médico que consultou Narcisa teria apenas recomendado para que ficasse algumas horas tomando soro. “Ele não a examinou, não avaliou o que ela poderia estar sentindo”, disse Fabiana.
Carlos Eduardo Lelis, 29 anos, que reclamava de uma intensa dor de estômago, acabou deixando o posto às 12h30. Foram três horas aguardando na sala de espera, desde as 9h30.
“Tinha pessoas até de pé aguardando”, relatou Carlos. “A gente tem que ir no Pronto-Socorro tratar um problema emergencial, mas sabendo que já vai perder um período do dia”, ressaltou o munícipe.
Para ser atendido em até meia hora ou imediatamente, o paciente precisa se enquadrar em padrões de classificação, que são estabelecidos mediante cores. Irregularidades constatadas nos batimentos cardíacos, pressão arterial ou oxigenação no sangue devem ser considerados casos de emergência.
Mudanças
De acordo com o diretor do Departamento de Emergência e das Unidades de Pronto-Atendimento de Bauru, Luiz Antonio Bertozzo Sabbag, o atraso de ontem no PS da Bela Vista aconteceu por motivos ligados à readequação nas escalas dos médicos. “Devido ao novo plano de cargos e carreiras, instituído em novembro, tivemos que readequar as escalas de horários”, informou o diretor.
“Houve problemas momentâneos decorrentes do gerenciamento de horário, e, como consequência, faltou um médico”, explicou Sabagg, que prometeu regularizar o número de médicos plantonistas na unidade, que são dois, ainda nesta semana.
Ele enfatiza que o remanejamento de escalas permitirá flexibilizar os profissionais a trabalharem em determinada unidade de seu interesse. “Até então, nós tínhamos uma exclusividade, já que cada médico trabalhava com escalas fixas. Mas com o novo plano de cargos, poderemos remanejar o médico que tenha interesse em atender em unidades diferentes”, salientou.
Sabbag indica que a demanda de atendimento segue uma mesma constante em qualquer época do ano. “O que mudam são as queixas, mas o movimento de pacientes é o mesmo. No verão, há mais pessoas que apresentam reclamações de queda de pressão, desidratação, conjuntivite, entre outras patologias”, cita Sabbag.
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Consultas
Em média, são registradas 8 mil consultas no PS da Bela Vista mensalmente. No PS Central, que recebe a maioria dos casos com gravidade, são 11 mil consultas no mês. Já o Pronto-Atendimento Infantil (PAI) recebe 6.600 casos.
A carência de profissionais da saúde agrava a demora no atendimento. Atualmente, Bauru conta com apenas 60 médicos trabalhando nos departamentos de urgência. Em toda a Secretaria Municipal de Saúde, há 200 deles. “Vamos abrir concurso para contratar mais médicos e esperamos conseguir efetivar mais profissionais para cobrir todas as deficiências necessárias da rede de saúde”, declara o diretor do Departamento de Emergência e das Unidades de Pronto-Atendimento de Bauru, Luiz Antonio Bertozzo Sabbag.
O salário inicial de um médico para atuar na rede de saúde de Bauru, por 20 horas, praticamente dobrou para aproximadamente R$ 3.600,00, com a adoção do novo plano de carreira da categoria. No entanto, faltam médicos, principalmente, na especialidade de pediatria.
“Preciso atingir um número de 24 pediatras para conseguir atender a toda a população, assim como mais ortopedistas, cirurgiões e clínicos gerais, ainda mais com a implantação das Unidades de Pronto- Atendimento (UPAs) ”, informou o diretor.
Na cidade, estão previstas implantações de quatro UPAS. Três delas devem começar a funcionar no início do ano que vem. “Com elas, pretendemos descongestionar os Pronto-Socorros”, sublinhou Sabagg.