Em meio à polêmica gerada em torno do número de habitantes de Bauru, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) segue até o próximo dia 24 com a coleta de dados do Censo 2010 nos domicílios em que não foram encontrados moradores em tentativas anteriores. O trabalho, realizado agora somente por 40 supervisores, tem por objetivo chegar ao valor mais próximo da realidade, que deve ficar longe dos 400 mil esperados pelo prefeito Rodrigo Agostinho e grande parte da população.
Ontem, o chefe da unidade estadual do IBGE em São Paulo, Francisco Garrido Barcia, esteve em Bauru para visitar a agência local do instituto e conversar com as equipes que ainda estão em campo. Em entrevista concedida ao JC, ele preferiu não realizar projeções para a cidade, mas reconheceu que o levantamento final não deve apresentar grandes surpresas.
“Antes deste prazo, seria leviano afirmar quantos moradores há no município, mas não chegaremos aos 400 mil que a cidade estava esperando”, pontua. Dados preliminares do IBGE, divulgados no início do mês, dão conta de que Bauru possui 335.888 habitantes, mas os números definitivos serão divulgados somente no próximo dia 27.
A demora para finalizar a coleta em Bauru, conforme relataram recenseadores que procuraram a reportagem, se deve à grande dificuldade que encontraram para conseguir aplicar os questionários - seja por não encontrar os moradores em casa, seja por protocolos de segurança impostos por condomínios residenciais ou pela simples falta de colaboração das pessoas que deveriam ser recenseadas. De fato, Barcia reconhece que a principal característica do Censo 2010 - além da inovação da coleta digitalizada por meio do Personal Digital Assistant (PDA) - foi a falta de acesso dos agentes.
“O nível de conscientização aumentou ao longo dos anos, mas o crescimento do número de condomínios fechados e a redução do número de moradores em cada domicílio dificultaram bastante o nosso trabalho neste Censo. É uma situação comum, por exemplo, encontrar apartamentos onde mora somente um casal jovem, que trabalha durante o dia, estuda à noite e nunca está em casa”, esclarece.
Agressão
Os recenseadores também enfrentaram problemas com a falta de receptividade de moradores não só de loteamentos fechados, mas também de alguns prédios e imóveis comuns. Sem se identificar, agentes contam que não foram poucos os moradores que se recusaram a prestar informações ao Censo porque “não queriam participar” ou “não tinham tempo”.
“O síndico de um prédio chegou a dizer, ironicamente, que ninguém morava naquele lugar”, relata uma das pessoas que trabalharam na coleta de dados. Outro recenseador disse que chegou a ser agredido por insistir com a tentativa de entrevista.
Mas, para Barcia, estes contratempos não justificam a discrepância entre os números apurados até o momento pelo IBGE e a expectativa das lideranças políticas e empresariais de Bauru.
“É uma diferença de milhares de residentes, de quase um quarto a mais de habitantes do que o município realmente tem. A cidade precisaria ter, pelo menos, mais 30 mil domicílios além do que o IBGE contou”, frisa ele, destacando que irá apurar a diferença entre o número de imóveis residenciais apurados pelo instituto (de 108 mil) e os apresentados pela CPFL (de 142 mil).
Em relação à expectativa populacional projetada pelo próprio instituto para o ano de 2009, de 359 mil habitantes, Garcia explica que os cálculos são baseados em metodologias desenvolvidas na década passada, quando a população crescia em ritmo mais acelerado que o de hoje.
“Com base na aferição da nova realidade que será demonstrada no Censo 2010, poderemos ‘calibrar’ novamente o modo de fazer esta estimativa para os próximos anos”, considera.
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Ainda dá para se recensear
Se você não recebeu a visita de um recenseador do IBGE em sua casa, mande e-mail para o Jornal da Cidade com seus dados (nome, telefone, endereço e cidade): censo@jcnet.com.br. Para ser entrevistado e incluído nos dados do Censo, é preciso agendar entrevista até o dia 24 pelo telefone 0800-7218181 ou pela Internet, através de preenchimento de formulário que consta no endereço eletrônico http://www.censo2010.ibge.gov.br/cadastro_nao_recenseado.php.
Quem não participar do Censo pode ser punido com multa, mas o IBGE adianta que não pretende aplicar a penalidade porque espera a colaboração voluntária de toda a população.
A aplicação do questionário não demora mais do que cinco minutos e irá colaborar para que a cidade se aproxime do número de habitantes mais próximo do real, o que é importante para o recebimento de recursos federais e estaduais, investimentos da iniciativa privada e estabelecimento de políticas públicas em todas as áreas.
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Polo regional, Bauru ‘incha’
com o número de visitantes
O chefe da unidade estadual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em São Paulo, Francisco Garrido Barcia, avalia que, por ser polo regional e concentrar um grande número de universidades, Bauru acaba por concentrar um grande contingente populacional que, no Censo, não é computado como morador da cidade. São estudantes universitários - considerados população flutuante e contados em seu município de origem -, pessoas que vivem em cidades vizinhas e trabalham em Bauru ou vêm para a cidade para usufruir das opções de consumo e lazer que o município oferece.
“E esse grande volume de pessoas circulando o dia todo dá a impressão de que o número de residentes é muito maior do que realmente o que a cidade realmente possui. Mas nós não temos que nos basear nos dados concretos e objetivos que estão sendo levantados pelo trabalho que está sendo feito em cada domicílio”, observa, lembrando que as residências em que os moradores não forem encontrados também serão, ao final, computadas nos dados do Censo.
“Os domicílios fechados (onde há indícios de haver moradores, mas ninguém foi encontrado) estão sendo revisitados. Mas, se mesmo assim não for possível aplicar o questionário, nos basearemos na média de residentes por imóvel da própria cidade para acrescentar este número no levantamento”, revela. De qualquer modo, o resultado final não deve elevar consideravelmente os dados preliminares divulgados pelo instituto no último dia 4.
Para Barcia, no entanto, o número abaixo do esperado não deve se avaliado como ruim, já que crescimento populacional nem sempre implica em progresso e desenvolvimento para o município.
“O que temos observado é que os municípios com menor contingente populacional têm oferecido maior qualidade de vida. Quando a administração municipal consegue equilibrar e adequar seus recursos à população que possui, a condição de vida que pode ser dada a essas pessoas se torna muito melhor”, diz.