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Não é o capital, é confiança

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

O leitor não deve esperar informações importantes neste comentário sobre a reunião do G20, em Seul, porque a exigência da pauta era enviá-lo na quinta-feira, 11 de novembro, quando os chefes de Estado ainda estão chegando na capital sul-coreana para a abertura dos trabalhos. O encontro de cúpula destes senhores do mundo pode se tornar um marco extremamente positivo nas relações entre os povos se ao menos conseguir evitar o aprofundamento da guerra cambial que pode nos levar a produzir erros semelhantes aos que nos leva-ram à Grande Depressão dos anos 30 do sé-culo passado.

Às vésperas da reunião, no entanto, os dois principais parceiros dos Estados Unidos no comércio mundial, China e Alemanha, fizeram duras críticas às posições americanas e acusaram de irresponsável a decisão do Federal Reserve de comprar US$ 600 bilhões do Tesouro, injetando mais liquidez na economia, desvalorizando o dólar. “Os Estados Unidos – disse o vice-ministro da economia Zhu Guangyao – devem se dar conta de suas responsabilidades como país emissor de moeda de reserva e adotar políticas macroeconômicas responsáveis”. O ministro de Finanças alemão Wolfgang Schäube não perdoou: “Os americanos acusam os chineses de manipular a moeda e logo, com a ajuda das impressoras de seu Banco Central, baixam artificialmente o dólar.” Bingo!

Interessante é que enquanto quase todo mundo parece querer “escalpelar” os americanos, esquece-se que os chineses não jogam limpo no comércio há muito mais tempo do que seria tolerável na comunidade global. A China, na realidade, vem se comportando de a-cordo com aquela cínica diretriz segundo a qual “quando todo mundo está competindo, vale a pena ser monopolista”. Em linguagem popular: “Vale a pena jogar sujo enquanto os idiotas jogam limpo...”

Uma coisa o nosso ilustre Zhu tem razão quando diz que “a medida do Banco Central americano produzirá liquidez excessiva também nos países emergentes, quando o mundo não precisa de mais capital e sim de confiança”. A maior dificuldade que os Estados Unidos continuam enfrentando é a descrença do cidadão na capacidade do governo Obama em fazer a engrenagem da economia voltar a funcionar. O desemprego continua no ponto mais alto em duas décadas.

É preciso convencer os americanos que não adianta simplesmente aumentar a liquidez porque não é aí que reside o problema. Na re-alidade, nos EUA já há liquidez excessiva: as empresas não financeiras guardam três trilhões de dólares em caixa, os bancos têm 1 trilhão de dólares em caixa, ninguém investe e  consome porque não há confiança que vão sair da crise. Significa um risco de que se produza uma deflação, que é quando as pessoas guardam o dinheiro porque passam a acreditar que ele vai valer mais amanhã. Dificilmente se poderia imaginar uma situação mais desagradável no mundo e não apenas para os americanos...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Desenvolvimento. contatodelfimnetto@terra.com.br

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