Déficit de profissionais, deficiência no atendimento humanizado, muitas filas, longas esperas. Nos últimos anos, a população de Bauru cresceu e pouca coisa foi feita para atender a demanda de pacientes que hoje superlotam as unidades de saúde da cidade.
A falta de investimentos e o descaso de anos resultaram ontem em um episódio dramático para a população que implorava por atendimento médico de urgência. Simplesmente, quem esteve logo cedo na unidade do Pronto-Socorro (PS) do Jardim Bela Vista “deu com a porta na cara”. Médicos estavam ausentes, sendo que apenas um pediatra foi encontrado no local.
Segundo o diretor do Departamento de Emergência e das Unidades de Pronto-Atendimento de Bauru, Luiz Antonio Bertozzo Sabbag, o problema ocorreu devido a uma readequação de escalas dos funcionários. “Por esse motivo, ficamos sem médicos e outros servidores da saúde no Bela Vista momentaneamente. E, ainda, está ocorrendo um Congresso do Samu em Brasília e os médicos estão participando. Mas vamos normalizar o atendimento o quanto antes.”
No entanto, pessoas que dependiam de tratamento no Bela Vista tiveram que ser transferidas para o Pronto-Socorro Central (PSC), o que causou grande tumulto ontem na sala de espera e pelos corredores da unidade. De acordo com o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, a situação foi ainda mais agravada porque, anteontem, apenas cinco vagas de internação foram concedidas nos hospitais da cidade e os pacientes que demandavam transferência permaneceram nos corredores do PSC.
“O problema da falta de médico ocorreu porque, entre a concepção do PCCS (Plano de Carreiras, Cargos e Salários da Saúde) até a entrada dele em vigor, houve uma certa defasagem do valor pago pelos plantões. E, na região, esses valores ficaram muito acima do de Bauru”, comenta, acrescentando que a pasta já está estudando uma forma de reajustar a quantia a ser desembolsada para remunerar os profissionais, medida que, obrigatoriamente, terá der ser aprovada pelo Legislativo.
Caos
Por conta da falta de médicos, Ana Maria de Melo Maciel foi uma das pacientes que precisou enfrentar um cenário caótico ao levar seu irmão de 45 anos para ser atendido ontem, no PSC. “Ele estava sendo tratado no PS do Bela Vista, mas hoje, ao retornar, não encontrou os médicos por lá”, relatou.
“O paciente precisa ser tirado da unidade onde faz tratamento para ser despachado para outro local, como se fosse um animal. É uma falta de respeito, eu não sei mais o que faço”, desabafou Ana Maria. De acordo com ela, seu irmão teve um derrame e precisa urgentemente ser transferido para uma unidade de internação específica. Mas, até a manhã de ontem, ela aguardava pelo diagnóstico.
“Ele está lá na maca, se batendo o tempo todo e ainda não tenho informações sobre seu quadro clínico”, disse Ana Maria. “E os outros pacientes lá de dentro estão até sem maca, que faltou até na ambulância”, mencionou.
Outra situação dramática flagrada ontem no PS era da idosa Maria Cleusa Porcaro Puliesi, que com idade já avançada, precisou carregar o filho adulto por cerca de 20 quadras até o PS Bela Vista.
“De casa, eu chamei o Samu para levar o meu filho até lá, que teve convulsão, mas esperei meia hora e não veio nenhuma ambulância. Então, tive que andar carregando ele até o PS mais próximo, que é o do Bela Vista, que não tinha médico”, contou.
Sem atendimento, o filho de Maria Cleusa foi um dos 15 pacientes transferidos para a unidade central e aguardava na sala de espera em situação deplorável. Seu corpo estava todo endurecido por causa da convulsão sofrida. O rapaz não conseguia manter-se sentado na cadeira, tendo que ser amparado o tempo todo pela mãe.
No último dia 8, uma mulher registrou boletim de ocorrência (BO) para denunciar o PS Central por omissão de socorro a uma idosa de quase 70 anos de idade, que sofreu um AVC. Ela ficou pelos corredores da unidade aguardando vaga no Hospital Estadual.
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Vereador cobra secretário
Membro do Conselho Gestor do PS Central, Rose Lopes, indica uma saída que poderia ser viável para garantir o acesso à saúde da população e o atendimento humanizado em situações de emergência. “O secretário poderia, para atender esse volume de pacientes, pagar pelo serviço de atendimento nos pronto-socorros dos Hospitais Estadual e de Base da cidade.”
“Lá, temos unidades de emergência, mas que não aceitam pacientes das unidades municipais. Se o secretário pagasse pelo atendimento, parte dos pacientes poderia ser transferida para essas unidades hospitalares de emergência, descongestionando as unidades municipais, como a central”, propôs Rose.
O vereador Roberval Sakai foi chamado por pacientes até unidade do PS Central ontem para ver de perto o caos. “Os corredores estavam todos lotados de pacientes. Nós aprovamos o Plano de Cargos, Carreira e Salários de Saúde para continuar com essa situação inadmissível? Os vereadores exigem uma tomada de posição do secretário da Saúde. E os profissionais também estão desesperados, os médicos não conseguem arcar com toda essa demanda de atendimentos”, aponta o vereador.
Procurado pela reportagem, o titular da Secretaria Municipal de Saúde, Fernando Monti, adiantou que não pretende terceirizar o serviço de atendimento de saúde do município.