Morreu o leão da Metro, abatido pelas dívidas. O finado urrava desde 1928 e serviu para anunciar os melhores filmes produzidos na história do cinema. Quase todos os 6 bilhões de habitantes do Planeta, pelo menos uma vez na vida viu o leão na tela e ouviu o seu imponente rugido, preparando-se para assistir a uma grande película. O signo era a mensagem. Somente uma vez Harpo, dos irmãos Marx substituiu o leão sob a moldura rococó encimada pelo lema Ars Gratia Artis (A Arte pela Arte). Foi uma concessão ao riso; uma piada para anunciar que a comédia ia começar. Nenhum investidor, nem mesmo o Eike Batista se propôs a salvar o mais tradicional estúdio. Groucho Marx dizia que não confiava em ninguém que o convidasse para sócio.
Foi-se a época dourada. Além do leão da Metro tínhamos a Colúmbia com a tocha da liberdade; a Fox adotou um símbolo de modernidade - nada menos que o século XX -; Warner tinha um distintivo cabalístico com o W e o B, que hoje fariam as delícias dos semioticistas; Universal era a bola do mundo dando voltas em si mesma... Tudo desenhado numa perspectiva que dava a sensação do grandioso, do infinito. Com essas marcas os estúdios fizeram grandes filmes que ainda perduram. Os produtores, desde os anos 1920 perceberam que o cinema era o espetáculo de massa e substituiria o rádio com a vantagem de atingir visão e audição ao mesmo tempo. Era chamada de Sétima Arte, a mais perfeita por englobar música (som), dança (coreografia/movimento), pintura (cor) escultura (volume), teatro (representação) e literatura (palavra). Hoje teríamos ainda a “arte digital”, como nas séries Senhor dos Anéis e Harry Potter, verdadeiros videogames em terceira geração. Com a pretensão de conquistar o mundo inteiro, nos anos 1940 os estúdios contrataram os grandes intelectuais do momento para contarem as histórias e elaborarem os diálogos mais incitantes. Hemingway, Faulkner, F. Scott Fitzgerald e vários outros laureados com o prêmio Nobel de Literatura trabalharam para Hollywood. A indústria cinematográfica pagava bem mas, sob contrato nenhum figurão poderia ser dono do seu texto. Atrás deles vinham os “fazedores de gags”. Escritores que não tinham talento para o Nobel mas sabiam o que o povo queria ver. As gags eram o que poderíamos chamar de “cacos”, como na gíria teatral: uma piadinha ou ironia para quebrar a seriedade ou retardar o clímax; pitadas de emoções, geração de conflitos, amor, ódio, traição. Conteúdos arquétipos. Aquelas coisas que recheiam as nossas telenovelas e que mexem com os sentidos das pessoas, qualquer que seja a sua cultura e onde quer que elas vivam. O escritor premiado recebia seu salário generoso, tinha o nome na ficha técnica do filme e nada tinha a reclam
ar.
O gênio de certos diretores às vezes superava o próprio livro. Foi o caso de ...E o vento levou, produzido por David O. Selznick, muito melhor que o original de Margareth Mitchel. Vivien Leigh, como Scarlett O‘Hara e Clark Gable, vivendo Rhett Butler ainda hoje fazem suspirar qualquer platéia. A MGM produziu Ben-Hur, ganhador de onze Oscar. É a dona da série James Bond. Nos musicais o leão foi o máximo, com O Mágico de Oz (Judy Garland), Um Americano em Paris (Fred Astaire, Gene Kelly e Frank Sinatra) sem falar no Tom&Jerry. “Mais estrelas do que as que estão no firmamento” - era o slogan.
A realidade foi mudando à margem do cinema, e a Metro não quis enxergar. Seus executivos seguiam aplicando mecanicamente as mesmas normas, na ilusão de que o mito do leão era mais forte que a própria vida. Enquanto isso os jovens iniciavam um cinema em que a política, o sexo e as drogas eram os temas cruciais. A Metro e outros estúdios continuaram ancorados em suas premissas de vender um mundo cor-de-rosa. Houve, na verdade, esforços de adaptação aos novos tempos. O emprego de novas tecnologias, o cinemascope, os efeitos por computador. Durante algum tempo deram certo, mas hoje se revelam insuficientes. As filas de quarteirões para assistir a um filme, com o espectador em trajes domingueiros são coisas do passado. A televisão em casa também tem tela larga, led, home theater, pipoca de microonda (um horror) e até terceira dimensão. Além do que há o computador pessoal, os tuíteres, os face books. Sair de casa só se a mulher for muito chata. Agora, sobra o lamento, a nostalgia, e a Sessão Coruja dos filmes memoráveis, do tempo em que o leão era o rei da selva... e do cinema. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)