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Entrevista da semana: Marcos Vinícius Caracho

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Não é novidade para ninguém que crianças, normalmente, são arteiras. O arquiteto Marcos Vinícius Caracho não só foi arteiro quando menino, como aprendeu a fazer arte. “Fui literalmente arteiro. Educação artística era a matéria que eu mais gostava na infância. Foi já nessa época que surgiu o interesse pela profissão”, conta.

Amante da arte, acredita que ela é parte integral da arquitetura e defende que o produto final deve respeitar as características do lugar ou região. “Recentemente fiz o projeto de um centro educacional e ambiental, no Interior de Goiás. Apelidei o trabalho de “Centro Educacional Buriti”, devido a uma palmeira que dá na região e que acabei usando como a trama do forró da sala principal”.

E por falar em projetos, Marcos é o responsável pelos projetos arquitetônicos dos supermercados Confiança Max, Flex e Esmeralda, da livraria Empório Cultural e boutiques como Aleatory, Chica Brasil, Sofia Olbrich, Fuso Horário, Mínimo Detalhe, Trem Bom, Dino e Armazém, entre muitas outras.

Além da paixão e histórias da arquitetura, viagens, hobby e projetos futuros também fazem parte da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade. Confira os principais trechos a seguir.

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Jornal da Cidade - A infância já revelava o Marcos arquiteto?

Marcos Vinícius Caracho - Eu fui bem arteiro, principalmente depois dos 12 anos, na 6ª e 7ª séries. Lembro-me que o gosto pelas artes plásticas surgiu exatamente nessa época. Eu tive um professor de educação artística que me marcou bastante chamado Jurandir. Inclusive, o compasso que ele usava está comigo até hoje. Uso como decoração em minha sala.

JC- Então fazia artes literalmente (risos).

Marcos - Sim (risos). Eu era muito bom. O professor Jurandir ensinava desenho geométrico, técnicas de pintura... Mas a parte que eu mais gostava era a geometria. Ver a geometria como arte sempre me fascinou. Acho que uma das pessoas que conseguiram me resgatar para essa veia de arquitetura foi o professor Jurandir.

JC - Chegou a pensar em ter outra profissão?

Marcos - Cheguei a pensar em fazer letras porque gostava de ler e achava ser um caminho fácil. Na verdade também pensava em fazer arquitetura, mas achava o vestibular difícil. Porém, tive a sorte de passar. Entrei na faculdade um pouco tarde, aos 24 anos, e terminei em 1996.

JC - Em Bauru?

Marcos - Sim, na Unesp. Depois disso fui para São Paulo, onde fiz especialização em desenho de mobiliário, que é algo que gosto bastante, talvez meu trabalho e relação com lojas e boutiques venha daí. Depois de três anos eu voltei a Bauru e, entre um projeto e outro, montei meu escritório.

JC - A arquitetura com o viés da arte sempre foi sua intenção?

Marcos - Ah, sim. Tanto é que eu tinha dúvidas sobre fazer arquitetura de edifício ou fazer de móvel, mesmo. Por isso é que eu acabei me especializando em desenho de móvel. Embora adore e busque a perfeição, acho que arquitetura em escala é muito grande, é muita coisa. Enquanto o desenho do móvel permite que você chegue aos detalhes. Você desenha uma peça e consegue chegar ao final... Gosto muito de criar peças e objetos. Mas isso é apenas uma diferença de escalas. Acho que o processo criativo é muito parecido, tanto em uma pessoa que é designer de objetos, quanto um designer de arquitetura.

JC - Até pouco tempo, as pessoas tinham dificuldades em diferenciar o trabalho do arquiteto do trabalho do engenheiro.

Marcos - Eu acho que há 10 anos os engenheiros dominavam o mercado de trabalho e as pessoas não entendiam o que era a pessoa do arquiteto. Isso era confuso. Hoje está bem mais delimitado. O arquiteto concebe o espaço, enquanto o engenheiro trabalha com a estrutura e a parte técnica. O conceito e o charme ficam por conta da arquitetura.

JC - Qual foi o seu primeiro trabalho marcante?

Marcos - Foi uma casa que fiz para um amigo no condomínio Samambaia. Foi a primeira casa que fiz em Bauru. Ele me deixou livre para fazer e gosto dela até hoje.

JC - O que mais dá prazer em seu seu trabalho?

Marcos - Gosto da forma e do conteúdo. O objeto realizado dá prazer. Mas eu acho que o ato de criar tem mais sabor e gosto pelo processo, principalmente quando se tem liberdade total.

JC - Quais são os seus trabalhos mais marcantes?

Marcos - Estou há 10 anos em atividade. Fiz o projeto arquitetônico dos supermercados Confiança Max, Flex, Esmeralda... Também gosto do projeto da Empório Cultural, acho que tem alma de livraria, boutiques como Aleatory, Chica Brasil, Sofia Olbrich, Fuso Horário, Mínimo Detalhe, Trem Bom, Dino e Armazém, projetos de 18 casas do condomínio Estoril 5, entre outras. Às vezes, um arquiteto pega um projeto que ele não conhece e precisa conceber, passar a entender como funciona aquele setor.

JC - Por exemplo?

Marcos - Recentemente fiz o projeto de um centro educacional e ambiental, no Interior de Goiás, em que precisei lidar com materiais de reuso em um lugar ermo. Precisei juntar tudo e dar uma característica regional ao trabalho. Fiz visitas ao local e descobri que na região existe um artesanato feito por deficientes visuais... Então, fui incorporando coisas feitas na região. Esse trabalho foi a soma de um monte de coisas. Precisei estudar o que existia na região, sua cultura, diversidade... Dei o apelido de “Centro Educacional Buriti” ao projeto devido a uma palmeira que dá na região e que acabei usando como a trama do forró da sala principal.

JC - Sempre surgem projetos fora de Bauru?

Marcos - Tenho projetos replicados pelo Brasil afora, em todas as capitais do Nordeste, do Sul, em Brasília... Hoje, acho que já são mais de 20 lojas. Mas foi um projeto que precisou de um plano piloto. Você faz um projeto e o replica para outros lugares. Desse modo, ele tem a característica do produto e não do lugar, diferente do centro educacional que tem o sotaque da cidade, região... Ali existe o respeito das características regionais. Acho que isso é arquitetura contemporânea.

JC - Essa é uma preocupação?

Marcos - Sim. Também gosto de indicar materiais de reuso para meus clientes devido à importância da sustentabilidade. Hoje se usa muito a madeira de demolição, coisa que acaba virando modismo, é uma tendência. Não gosto muito da ideia de seguir a “moda”. Temos madeira de reflorestamento que é excelente e que dá para fazer um trabalho muito legal. Muito material que dizem ser de demolição é falso, é produzido com cara de velho, ou seja, um falso produto sustentável.

JC - Seu trabalho tem uma marca registrada?

Marcos - Olha, eu vejo a arquitetura muito próxima da linguagem do cinema porque adoro chegar em um lugar e me sentir diferente nele, ou acolhido, ou curioso... Adoro a arquitetura que causa alguma sensação. Gosto que a pessoa faça parte do lugar de alguma forma ou que ele a instigue a alguma coisa. Também gosto muito da luz pela proximidade com o cinema. Tanto é que o arquiteto que eu mais gosto no mundo é o japonês Tadao Ando. Acho que ele sabe trabalhar muito bem com a luz e, na minha opinião, o grande segredo da arquitetura está na iluminação.

JC - O gosta de fazer fora do trabalho?

Marcos - Gosto muito de ler e viajar.

JC - Viagens fazem parte de seu tempo livre?

Marcos - (Risos) Sim. Conheço muitos lugares. A Índia é um dos mais marcantes. Lá, eles desprezam a arquitetura, do mesmo jeito que desprezam tudo o que é material. A organização do espaço deles é muito caótica, mas é o jeito deles. Usam as cores de um jeito fantástico em um lugar que é totalmente caótico. O Oriente é muito organizado e embora próxima, a Índia, não. O Nepal fica do lado do país e é bem mais organizado. Mas Paris é o lugar que mais gosto. A cidade é monumental. O moderno é muito bacana, as escadarias... E quando você cai em padarias e pequenos bistrôs, percebe que o cuidado é o mesmo. Também quis conhecer Dubai para observar a arquitetura, que é muito boa. Mas vejo aquilo sem conteúdo, os espaços não dialogam, falta algo humano. Diferentemente de Paris, onde você anda quilômetros sem perceber. Em Dubai você só anda de carro.

JC - O que falta para a realização completa?

Marcos - Ah, falta o resto da vida (risos).

JC - E o que pretende fazer com o resto de seus dias?

Marcos - Eu pretendo focar meu trabalho em clientes que gostam de arquitetura, de arte, de viver bem... Mas isso está acontecendo naturalmente. Agora que comecei atuar na área de arquitetura de interiores, pretendo desenhar mobiliários. Principalmente com a última viagem que fiz para Milão, eu fiquei muito entusiasmado com essa ideia. Já faço para lojas, mas desenhar peças avulsas para serem comercializadas em série, montar uma exposição... É um sonho.

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