Bairros

Chefes de família por falta de opção

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Mulheres, mães de família, provedoras do lar, donas de casa e, em alguns casos, estudantes. Estas são as funções desempenhadas por 34,9% das brasileiras classificadas como chefes de família pela Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílio (PNAD), referente ao ano de 2008 e divulgada em 2009.

À primeira vista, uma vida atarefada e repleta de acontecimentos pode parecer, no mínimo, emocionante. Afinal, foram anos de luta feminista para que as mulheres conquistassem direitos como o de trabalhar e o de serem donas do próprio nariz, entre outros tantos que gozam atualmente.

Porém, a realidade vista de perto é bem diferente. Se os números desta pesquisa, realizada em nível nacional, forem aplicados a Bauru, é possível estimar que, dos 107.232 lares existentes na cidade, cerca de 37.400 são comandados por mulheres, de acordo com o censo deste ano.

E, ao percorrer os bairros entrevistando as chefes de família bauruenses, é possível afirmar que a maioria delas não vê nenhum glamour no ‘cargo’ que ocupam. Pelo contrário, assumem a posição de comandantes do lar por pura falta de opção.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), casamentos desfeitos, violência doméstica, homens que abandonam a família, falecimento do marido, maior participação da mulher no mercado de trabalho somados às mudanças culturais lideram o ranking de causas que levam as mulheres a assumirem as rédeas da situação.

“Ninguém assume uma família sozinha porque quer, mas, sim, porque não tem alternativa melhor. Tem dias que penso que seria preciso que o dia tivesse mais de 24 horas para dar conta de tudo. Logo que me separei, passei a trabalhar em três empregos e ainda cuidava da casa e das crianças pequenas. Não podia escapar nada”, recorda Rosemari Flores, que, mesmo sem ter a intenção, demonstra ter talento para ‘malabarismos’.

Além disso, outro dado da pesquisa que chama a atenção é o aumento significativo de mulheres declaradas chefes de família apesar da presença de um cônjuge no lar: de 2,4%, em 1998, para 9,1% em 2008.

Para Acyr Santinho Motta, presidente do Conselho da Condição Feminina de Bauru, este aumento é um curso natural, fruto da transformação da sociedades. “Creio que, há algumas décadas, este tipo de liderança feminina já existia, porém era invisível, mascarada por uma sociedade conservadora. Agora as coisas mudaram, as pessoas estão mais flexíveis, e a presença de uma mulher à frente de uma família passou a ser normal e frequente”, analisa Acyr.

Lilian Henrique de Azevedo, historiadora e pesquisadora de gênero, acrescenta que esta transformação ocorreu devido a uma série de fatores, como o movimento feminista, iniciado na década de 70, o surgimento de grupos organizados a favor da mulher e a Lei do Divórcio, criada em 1977. “Além disso, existe também o fator econômico. O mercado de trabalho percebeu que a mulher era uma ótima mão de obra, mais barata, inclusive, e se aproveitou disso, emitindo estímulos para que a dona de casa deixasse o lar em busca de independência financeira”, explica Lilian.

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