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Em protesto, alunos anulam Saresp

Alexandre Padilha
| Tempo de leitura: 5 min

Insatisfeitos com a escassez de professores e “falta de qualidade nas aulas” ministradas na escola estadual Stela Machado, estudantes do 3º ano do ensino médio decidiram boicotar a prova do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) aplicada ontem. Os resultados do exame são utilizados para traçar políticas públicas para o aprimoramento da educação, e os alunos optaram por marcar duas respostas para a mesma questão do gabarito para invalidar suas provas.

Ao perceber a iniciativa dos alunos, a representante que tomava conta da sala onde era aplicado o exame informou o fato à direção da escola. Com isso, os alunos que tomaram a atitude foram chamados à diretoria, alguns acompanhados pelos pais, e receberam uma suspensão de seis dias por terem “fraudado” a prova. Mais tarde, a Secretaria Estadual de Educação informou através de sua assessoria de imprensa que nenhum estudante foi suspenso e afirmou que as escolas não registraram falta de professores ao longo do ano.

Todavia, a opinião emitida por alunos da Stela Machado foi de que a escassez de docentes foi um fato constante ao longo de 2010, o que prejudicou a qualidade do ensino ministrado na escola estadual. Entretanto, ao conversar com a reportagem do JC, os estudantes pediram para não serem identificados para não sofrerem punições por parte da direção da instituição.

De acordo com um aluno de 17 anos que participou do boicote à prova do Saresp, o principal motivo que os levou a planejar a anulação do exame foi a responsabilidade tributada a eles em tentar melhorar o resultado da escola. Ele explicou que os estudantes que anotaram duas respostas para uma mesma pergunta são todos da sala do 3º “A”, grupo de alunos que consegue as melhores médias no último ano do ensino médio.

“Alguns professores falaram que nossa sala seria responsável pelo melhor aproveitamento do Saresp, compensando o provável déficit das outras classes. Isso foi o motivo principal que levou a maioria a fazer isso (boicote). Mais de 20 alunos da sala decidiram anular as questões para chamar a atenção para o ensino público que está uma porcaria”, destacou.

Por outro lado, uma aluna que participou da iniciativa na manhã de ontem afirmou que a atitude foi tomada em decorrência da falta de qualidade do ensino apresentado pela rede pública estadual, tanto pela falta de professores quanto pela baixa qualidade das aulas ministradas. “Nós estamos há um ano sofrendo com a defasagem de professores e, por essa situação, achamos que não fomos preparados para o Saresp”, declarou ao pedir para ter sua identidade preservada.

Segundo outro estudante da escola estadual, “não houve aulas de várias disciplinas durante os semestres”, o que prejudicou aqueles que estavam interessados em estudar. “Havia dias em que era 9h30 e os alunos estavam saindo da sala de aula porque não tinha professor. Às vezes vinha substituto, mas cada um passava um conteúdo sem sequência”, alegou o estudante.

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Sobre o Saresp

Maior avaliação do ensino fundamental e médio do Estado de São Paulo, o Saresp de 2010 foi aplicado nos dias 17 e 18 de novembro. Os resultados deste exame são utilizados como indicadores de desempenho utilizados para cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp).

No Idesp, são apontados índices para cada um dos níveis de ensino, a partir dos quais são definidas as metas para o ano seguinte. A partir dos indicadores, os gestores municipais podem estabelecer programas de incentivo à melhoria da qualidade das escolas, como o Bônus por Resultados.

Todas as 5.054 escolas estaduais que oferecem ensino regular nos anos avaliados, além de 117 escolas técnicas estaduais administradas pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, 3.469 escolas municipais e 255 escolas particulares participaram do exame.

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Estudantes reclamam de

falta de diálogo na escola

A reclamação dos estudantes da escola estadual Stela Machado não se baseou apenas na falta de estrutura apresentada ao longo do ano. Alguns deles apontaram a reação da equipe gestora da escola como um dos principais problemas. Evidenciado pelo fato de nenhum aluno querer se identificar por medo de retaliação, o problema de relacionamento entre estudantes e direção foi um assunto abordado pelos adolescentes.

“Ela não dialoga com alunos e pais”, indicaram alguns alunos sobre a diretora da escola estadual. Outros disseram que os relatos de “abuso de poder” e “reações desmedidas” são constantes. Inclusive alunos de outras turmas, que não estavam envolvidos diretamente com o caso do Saresp, avaliaram a atitude da direção em suspender os estudantes por seis dias como algo “desnecessária”.

Após o boicote, os alunos foram suspensos pela direção da Stela Machado, que convocou os pais desses estudantes para conversar, na presença dos filhos. Presente na sala da diretoria durante a conversa, um aluno do 3º ano do ensino médio que participou do boicote relatou que os estudantes tentaram conversar e explicar os motivos da ação, mas não teriam sido ouvidos pela equipe da direção.

“Tentamos conversar e explicar. Alguns saíram bastante abalados, chorando por conta deste abuso de poder. A diretoria decidiu nos aplicar seis dias de suspensão, mas não apresentou justificativa para a punição”, frisou o aluno.

Segundo um estudante de 16 anos, que cursa o 8º ano do ensino fundamental na Stela Machado, demais alunos da escola aprovaram a iniciativa em relação ao Saresp e ficaram indignados com a reação da direção em suspender vestibulandos no final do ano, quando é realizada a maioria das provas para ingressar em universidades. “Todos os alunos apoiaram e sentiram que a atitude foi necessária”, concluiu.

A direção da escola estadual Stela Machado foi acionada pela reportagem do JC, mas uma funcionário informou que não havia ninguém responsável durante a tarde de ontem porque todos estavam em reunião na Delegacia Regional de Ensino. Deixado recado, a equipe gestora da escola não retornou à reportagem. A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Educação informou depois que nenhum estudante seria suspenso, mas não autorizou entrevista com a direção da escola.

De acordo com os alunos do 3º ano do ensino médio, a direção agendou uma reunião com os estudantes envolvidos no boicote do Saresp e seus respectivos responsáveis para as 20h de hoje, na própria escola.

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