Um capotamento no trecho urbano da rodovia Marechal Rondon, em Bauru, provocou a morte de mais um morador da cidade, o quinto a perder a vida neste ano em um dos 11 quilômetros considerados mais críticos de toda a extensão da via. A vítima, a camareira Viviane Dias de Almeida, 26 anos, era passageira do veículo Fiat Uno que se desgovernou depois de ser “fechado” por outro carro na madrugada de ontem. Como ela não usava cinto de segurança, acabou morrendo antes de ser socorrida, devido aos graves ferimentos que sofreu.
Em 2010, o trecho urbano da Rondon, que é utilizado como “avenida” por milhares de motoristas diariamente, registrou 234 acidentes até o mês passado, média de quase uma ocorrência por dia. O número representa aumento de 19% nos índices em relação a outubro de 2009, quando foram computados 196 acidentes.
Na ocorrência de ontem, Viviane voltava de uma festa com um amigo, o mecânico Ivan Henrique da Silva, 20 anos, que dirigia um Fiat Uno com placas de Bauru. Eles seguiam no sentido Agudos-Bauru e, quando atingiram o quilômetro 337 mais 350 metros, teriam sido “fechados” por um Fiat Palio de cor azul, segundo relatou uma testemunha em depoimento prestado no Plantão da Polícia Civil.
Ivan teria perdido o controle da direção do automóvel e colidido contra a proteção metálica da pista. Com o impacto, o carro capotou e só parou na canaleta de escoamento de água localizada no canteiro central.
O condutor sofreu apenas escoriações pelo corpo e foi encaminhado pela Unidade de Resgate do Corpo de Bombeiros até o Pronto-Socorro Central (PSC). Ele recebeu alta ainda durante a madrugada. Viviane não resistiu aos ferimentos e morreu no local.
Amigos
A mãe de Ivan, a cozinheira Aparecida Rosária da Silva, 47 anos, conta que os dois se tornaram muito amigos desde que Viviane se mudou para o Parque Vista Alegre, há cinco meses, bairro onde Ivan mora. Ontem, ele teria levado a vizinha a uma festa e, depois do acidente, teria ficado em choque.
“Ele nem conseguiu explicar direito o que aconteceu. Disse que tentou segurar a direção depois que freou para não bater no carro que atravessou a frente dele, mas não conseguiu. Ele está se sentindo muito mal com tudo o que aconteceu”, revela.
Segundo avaliação do comandante do 1º Batalhão da Polícia Rodoviária em Bauru, tenente Luiz Carlos Ferreira dos Santos, o quilômetro em que o acidente ocorreu - próximo ao acesso à rua das Festas - não é considerado um dos mais problemáticos na extensão da rodovia Marechal Rondon inserida na área urbana do município. “Houve uma imprudência por parte deste veículo que teria fechado o outro, mas a morte da garota poderia ter sido evitada se ela estivesse usando cinto de segurança”, destaca.
Ele explica que um dos pontos mais críticos - e também um dos mais fiscalizados pelo policiamento - é o aclive acentuado no quilômetro 342, no sentido Interior-Capital, na altura da Universidade Sagrado Coração (USC). “Neste local, nos horários de maior movimento os veículos lentos, que são proibidos de transitar na faixa direita, acabam desrespeitando as placas de sinalização e provocam morosidade no trânsito. A fila de veículos criada por essa lentidão se torna perigosa, porque pega de surpresa o motorista que está a 80 quilômetros por hora.”
Na avaliação de Santos, o aumento no número de acidentes na Rondon neste ano está intimamente vinculado ao aumento da frota em Bauru, que já ultrapassou a marca de 200 mil veículos neste ano. Por conta desta saturação no trânsito, é consenso entre especialistas a necessidade de implementar melhorias nos dispositivos de segurança do trecho urbano da rodovia, utilizada constantemente por pedestres, ciclistas e motoristas que se deslocam entre os bairros.
De acordo com o tenente, os acidentes ocorrem justamente porque, nesta extensão, o trânsito local acaba se misturando ao tráfego entre municípios - situação em que pode ter ocorrido no acidente que tirou a vida de Viviane.
“A atenção de um condutor que está se deslocando de uma cidade a outra é maior do que a atenção daquele que está somente no trecho urbano. A grande concentração de veículos, a movimentação das ultrapassagens e a entrada e saída dos carros pelas vias de acesso acabam expondo todos eles a um maior risco de acidentes”, considera.
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Vítima sonhava com um casamento feliz
Nascida em Bauru e caçula de sete irmãos, a camareira Viviane Dias de Almeida dizia, ultimamente, que seu maior sonho era encontrar um companheiro com que pudesse viver um relacionamento feliz. Recém-separada, há cinco meses ela deixou a casa em que morava com o ex-marido e foi morar com a irmã Consuelo Dias de Almeida, 35 anos, no Parque Vista Alegre.
“Ela ainda estava triste com essa situação, mas dizia que tinha esperança de encontrar um homem bom para viver com ela”, revela Consuelo, que também é camareira e trabalhava com a irmã em um hotel da cidade. “Ela era folguista e estava planejando começar um curso de manicure em janeiro do ano que vem para ter uma profissão. Ela sempre foi independente e trabalhou como doméstica e babá para poder comprar as coisas que ela precisava”, relembra a irmã.
Segundo a amiga Márcia Bonfim, 41 anos, há seis anos Viviane perdeu a mãe, a quem era extremamente apegada, mas ainda assim manteve a alegria e extroversão que lhe eram características. “Ela tinha uma relação muito próxima com a mãe, mais do que todos os outros irmãos tinham. Mas ela continuou risonha, falante. Ela fazia amizade fácil com as pessoas”, conta.
O irmão Israel Dias de Almeida, 30 anos, comenta que Viviane era querida pela família, apesar de os irmãos se encontrarem pouco devido aos compromissos profissionais. “Nossa relação não era tão próxima, mas estou muito triste. Todos nós estamos. Ela era muito nova, uma pessoa muito boa”, lamenta.
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Antecipação de marginais
Conforme apurou o JC, a ViaRondon poderá antecipar a construção de duas pistas marginais no trecho urbano da Rondon, prevista no cronograma de obras exigido como contrapartida à concessão estatal que a empresa obteve há um ano. A intenção teria sido originada em razão do volume de acidentes graves registrados no trecho, que, invariavelmente, causam indignação entre os bauruenses.
A informação, no entanto, não é confirmada pela assessoria de imprensa da concessionária, que informou apenas que, até o ano que vem, irá construir uma passarela no quilômetro 339 com investimento de R$ 1,2 milhão.
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Trecho conta com cinco radares fixos e outros instalados diariamente
Em seu trecho urbano, a rodovia Marechal Rondon - que registrou uma alta de 19% na incidência de acidentes no último ano - conta com cinco radares fixos, controlados pela concessionária ViaRondon, além de radares estáticos instalados diariamente em três pontos (quilômetros 338, 342 e 345) pelo Policiamento Rodoviário (PRv) de Bauru. Como os radares da empresa que assumiu a administração da rodovia só fotografam placas dianteiras, nenhuma motocicleta consegue ser autuada por estes dispositivos.
A tarefa fica sob responsabilidade dos equipamentos móveis operados pelos policiais rodoviários, que flagram todos os tipos de automóveis. “As motocicletas são uma grande preocupação nossa porque os acidentes que envolvem este tipo de veículo geralmente resultam em vítimas graves. Mas elas estão presentes na menor parte das ocorrências”, observa o comandante do 1º Batalhão da Polícia Rodoviária em Bauru, tenente Luiz Carlos Ferreira dos Santos.
De acordo com dados do PRv, do total de 234 acidentes registrados entre janeiro e outubro deste ano, as motos estavam presentes em apenas 55 deles (23,5%). No total foram computadas 42 vítimas, sendo sete delas graves e duas fatais. No mesmo período do ano passado, quatro pessoas morreram e outras seis sofreram lesões graves nos 39 acidentes envolvendo motos no trecho.
Mesmo reconhecendo que as motos são mais vulneráveis ao risco de acidentes fatais, Santos explica que o foco das fiscalizações está em todos os veículos que possam, de alguma forma, provocar situações de perigo para o tráfego no local.