Quando os antropólogos discutem a humanidade na pré-história, costumam se concentrar no papel que o homem desempenhava como “caçador”. Ignoram ou deixam de enfatizar o papel mais importante da mulher como “coletora de raízes e sementes”, a base da alimentação. Elas criaram a agricultura, com o plantio das sementes em carreiras. Foram as mulheres que desenvolveram ferramentas e tecnologias necessárias para plantar, colher, preparar e preservar os alimentos. Esta revolução agrícola feita pelas mulheres no ano 12.000 a.C. fez a diferença à sobrevivência da espécie. No entanto, até a segunda metade do século XX, a história escrita das sociedades ocidentais foi totalmente dominada pelas conquistas dos homens. Como se o papel da mulher durante milênios tenha se reduzido a manter o fogo aceso nas cavernas, parir e amamentar crianças.
Diz uma antiga concessão machista que “por trás de cada grande homem há uma grande mulher”. Os biógrafos reconhecem mulheres notáveis na Antiguidade. No século V a.C., Péricles teve a ajuda fundamental de Aspásia, idealizadora do Pathernon. Saiu da sua cabeça a criação do primeiro estado democrático, após lutar contra a aristocracia. Dizem que Herpile, mulher de Aristóteles, mãe de Nicômaco (Diálogos a Nicômaco), escreveu parte das obras do filósofo. A mulher de Sócrates só atrapalhou suas reflexões. Xântipe injuriava o marido chamando-o de “ocioso” porque vivia pensando à sombra da árvore do quintal. Quem é que pode ser sábio sem ser ocioso? Certa vez Xântipe, após desfiar seu vocabulário cheio de perversos qualificativos jogou um balde (ou seria uma ânfora?) de água no filósofo. Sócrates apenas comentou: “Após a trovoada sempre vem a chuva”. Feliz foi Platão que permaneceu solteiro. Quando muito fazia epigramas para jovens de boa aparência. No teatro grego em Lisystrata, apresentada pela primeira vez no ano 411 a.C., Aristófanes agarrou-se à eterna imagem da esposa que recusa o sexo ao marido. Transformou esta obra em uma estranha comédia política, até hoje encenada, mais de 2.400 anos depois. Quando Lisystrata e suas irmãs decidem se opor ao jeito guerreiro de ser dos homens, simplesmente negando-se a ir para a cama com eles (Lembrem-se do exemplo, daquelas mulheres de Atenas... Chico Buarque) há comoção na sociedade grega. Pelo menos neste momento, o poder da cama provou ser mais forte do que o poder da espada. Com seus comentários obscenos, a peça parece tão atual quanto o slogan dos anos 1960 - “faça amor não faça a guerra”. Immanuel Kant achava que sexo era perda de tempo e manteve-se solteiro.
O oposto nunca é dito - nós não falamos sobre o homem por trás da grande Elizabeth I, em cujas mãos nasceu o maior Império que o mundo teve notícias. Elizabeth nunca se casou e por isso era chamada de “rainha virgem”, mas são conhecidos seu relacionamento com o poeta e aventureiro sir Walter Raleigh Scott. Ninguém se lembra de Feroze Ghandi, marido de Indira que foi preso com ela por causa do apoio aos movimentos nacionalistas na Índia. Margareth Tatcher foi a primeira premier a conquistar três mandatos consecutivos e ninguém nem lembra o nome do marido que ficava em casa cuidando dos gêmeos do casal.
Diz um ditado italiano que “exercer o poder é melhor do que sexo”. Talvez por isso, homens poderosos preferiram mais as amantes. Mata Hari, Sarah Bernhardt, Marilyn Monroe e tantas outras ficaram conhecidas por desfrutarem do poder na cama e gozarem das benesses. Júlio César era menos canônico nas suas escolhas depois de um dia exaustivo – poderia levar para a cama tanto um centurião como nobres romanas e rainhas egípcias. O sexo é sempre entendido pelos detentores do poder como uma espécie de merecido bônus a premiar alguém que se esfalfou o dia todo para cuidar dos interesses do Estado e do povo.
A partir de 1 de janeiro vamos ter, pela primeira vez na República do Brasil uma mulher-presidente. E quem será o “grande homem” atrás de Dilma Rousseff? Lanço a pergunta com o maior respeito, sem nenhuma conotação mais íntima. Vão surgir boatos sobre a existência ou não de uma pessoa inspiradora nos bastidores. Os apressadinhos dizem que a presidente será o “Lula de batom”. Pura maldade. Se Dilma chegou aonde chegou é porque tem competência e as mulheres sabem exercer o Poder. Ela teve três casamentos. A imprensa fofoqueira nunca conseguiu uma palavra de mágoa dos ex. Sinal que também foi competente nos casamentos, enquanto duraram. Quem sabe durante o mandato ela possa dizer: “estou casada com o Brasil”. Naturalmente, para fazer o seu povo feliz.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC