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Aprenda a respirar e livre-se de angústias

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Por anos a fio, as crises de bronquite asmática atrapalharam Camila Paes. Desde cedo, a moléstia respiratória a impedia de realizar na plenitude tudo o que mais gostava.

Hoje, aos 31 anos, a atriz de teatro e professora de yoga respira mais aliviada e tem uma vida muito mais ativa, após praticamente se livrar do problema.

Com auxílio de uma ferramenta usada por todos nós, mas que poucos sabem que podem domá-la, nossa personagem leva uma vida muito mais ativa simplesmente pelo fato de, literalmente, respirar melhor.

Uma das atividades mais elementares e fundamentais do corpo humano, a respiração também é a chave para curar e prevenir uma série de desconfortos, sejam físicos ou emocionais.

Assim como os batimentos cardíacos ou funcionamento do sistema digestivo, a respiração é involuntária e vital. Contudo, é a única função que podemos disciplinar e, assim, colher inúmeros benefícios.

Respirar corretamente é uma boa forma de evitar ou amenizar o nervosismo, por exemplo, e evitar os reflexos negativos do estresse cotidiano em nosso organismo.

Entre os especialistas que defendem o uso da respiração para acalmar e até curar estava o célebre psiquiatra José Ângelo Gaiarsa. O médico, que morreu mês passado, aos 90 anos, deixou prestes a ser lançado o livro “Respiração, Angústia e Renascimento (editora Ágora, 456 páginas).

Na obra, ele convida o leitor para uma análise sobre a função que, mal percebemos, pode influenciar, positiva ou negativamente, na nossa qualidade de vida.

Gaiarsa, ainda no livro, ensina exercícios práticos e fundamenta a necessidade de uma “educação respiratória” com base em casos clínicos.

Respirar, defendia o especialista, é o paralelo entre questões psicológicas e biológicas do corpo humano. “Já após alguns segundos (sem ar), começamos a sentir sua falta, sempre muito aflitiva e rapidamente insuportável”, descreve. “Não estaria aí a explicação da angústia e, ao mesmo tempo, da permanência do eu?”, questionou.

A constatação de Gaiarsa ganha fôlego com outros especialistas que endossam a cura por via respiratória. “Em casos psiquiátricos há o uso terapêutico do controle de respiração para pacientes ansiosos”, cita o também médico psiquiatra Evandro Borgo, de Bauru.

Especificamente entre pacientes com crises de pânico, relaciona ele, a respiração, geralmente, se mostra ofegante. Segundo Borgo, isso só piora o quadro: “o controle deste episódio, com técnicas respiratórias combinadas às de relaxamento muscular, são eficazes e diminuem a necessidade de medicação”, atesta.

Calmante

Ainda conforme o psiquiatra, o estado de pânico causa sensação de falta de oxigênio na pessoa. Apenas sensação, explica: “na verdade, é falsa a impressão de que não entra ar”, desmente. “Na verdade, o problema é que não esvazia”, diferencia o médico.

Desta forma, ensina Borgo, exercícios fazem com que o fluxo se regularize nas vias aéreas com consequência no sistema nervoso.

“Muitos pacientes chegam ao consultório com uma crise nervosa e saem deste estado somente com orientações de como respirar”, comenta. “Peço que eles coloquem a mão na barriga e respirem pausadamente, sentindo a mão subir e descer”, descreve.

“Solicito, nesse instante, que o paciente não pense em mais nada e se concentre apenas na inspiração e expiração”, completa. “Na grande maioria há uma remissão quase completa do quadro”, assegura.

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Respirar direito ‘cura’ até mau hálito

Exercícios contribuem com a qualidade de vida. Quem se educou para respirar melhor é testemunha dos resultados práticos de novos e saudáveis hábitos.

Camila Paes, atriz, conta que desde a infância sofria muito com crises de bronquite asmática, até que conheceu exercícios que a deixaram com mais ânimo e capacidade pulmonar para o trabalho nos palcos. “Houve grande reflexo em minha saúde, disposição. Conviver com bronquite é complicado. Minha infância teve algumas limitações por isso”, atribui.

Hoje, a atriz também é estagiária a instrutora de yoga, tradição que também usa exercícios respiratórios, principalmente para relaxamento. “São atividades muito recomendadas para diversos problemas, desde males respiratórios até cansaço, desânimo e tristeza”, incentiva.

Halitose

Respirar errado pode levar até mesmo ao mau hálito, de acordo com o odontologista Maurício Duarte da Conceição, da clínica Halitus, de Campinas. A respiração bucal, atribui, é uma das principais causas. “Respirar pela boca provoca ressecamento e uma descamação excessiva de pele microscópica de lábios e bochechas, alimentando bactérias”, descreve. “Essa pele é um verdadeiro banquete para as bactérias”, ilustra.

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Respiração evidencia o estado da mente no corpo

Mas não são apenas nos problemas emocionais que a respiração influencia. “Pacientes que sofrem de obesidade, asma ou enfisema, entre outras, possuem limitações respiratórias. Isto reflete em padrão de sono, fadiga diurna, entre outros problemas, que resumem em pior qualidade de vida”, enumera Borgo.

Em seu livro, José Ângelo Gaiarsa também disseca, com base em recentes pesquisas, o consumo do oxigênio no cérebro. Segundo ele, o neocórtex cerebral, responsável por nossa capacidade de pensar, avaliar ou julgar, é o que mais necessita de oxigênio. Respirar melhor e profundamente, dizia, “ilumina” o cortex e o raciocínio se torna claro.

“Se respiramos mal, alimentamos apenas os centros mais primitivos do cérebro. Ficamos reféns do medo, agressividade e emoções negativas, como inveja e competição”, detalha.

Respiração, ao lado de alimentação, também é responsável por energizar nosso organismo, enfatiza Fernando Perri, instrutor de yoga. “O efeito principal e visível desse fluxo (energético) se dá pela vitalidade. Quanto mais vitalidade, menos estresse, mais equilíbrio a gente tem. Pela respiração se aumenta a quantidade de energia”, relaciona.

Qualidade

Porém, ressalva, não basta quantidade, mas também qualidade. “Há a energia estimulante e a que tranquiliza. Uma pessoa ligada no 220, que fala muito rápido, normalmente tem uma respiração curta e alta. Ela expira com o peito e de forma acelerada. Essa pessoa, para buscar o equilíbrio, precisa fazer um exercício que diminua um pouco essa energia”, exemplifica.

Em casos contrários, com pessoas sonolentas ou até depressivas, existem exercícios respiratórios de estimulação. “Existe o que nos mantém acordado e o que nos ajuda a dormir. Nossas emoções são transmitidas ao corpo físico pelo (corpo) energético, controlado pela respiração”, define.

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