Geral

Socorrida, menina achada em lixeira recusa tratamento

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Após ser socorrida, a adolescente de 13 anos encontrada anteontem em um depósito de lixo da Unidade Básica de Saúde do Jardim Europa se recusou a retomar o tratamento contra o vício em crack, droga da qual é usuária contumaz há, pelo menos, um ano. Com a anuência da mãe, Fátima (nome fictício) abandonou as dependências do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD) de Bauru, para onde havia sido encaminhada na tarde de ontem.

Segundo apurou o JC, a garota aguardava transferência para o Hospital Psiquiátrico Tereza Perlatti, em Jaú, quando começou a insistir para que a mãe a levasse para casa. Toda a documentação para o encaminhamento do tratamento já estava pronta quando mãe e filha saíram do prédio do Caps/AD.

O vigia da instituição teria percebido a movimentação, mas foi ignorado ao tentar dissuadir as duas da ideia. Quando funcionários passaram a procurá-las nas imediações, elas não foram mais localizadas.

Por medida de segurança, ainda hoje a diretoria do centro iria registrar boletim de ocorrência e enviar um relatório ao juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, para que o Conselho Tutelar seja notificado a localizar a garota novamente. “Tínhamos pedido para que a mãe permanecesse com a menina dentro do Caps, porque iríamos encaminhá-la para o tratamento adequado. Infelizmente, era uma notícia que a gente não gostaria de dar, mas a adolescente acabou indo embora sem que fosse possível impedi-la”, explica a psicóloga Valéria Moron Perri Gimenes, chefe do Caps/AD.

De acordo com a avaliação dos médicos da instituição, Fátima teria de ser internada primeiramente em um hospital psiquiátrico por estar com baixo peso e devido ao alto grau de dependência que havia desenvolvido em relação ao crack. A estimativa é de que ela permanecesse por cerca de 15 dias em Jaú, quando retornaria a Bauru para ser encaminhada a uma comunidade terapêutica da região conveniada com o município de Bauru.

“Primeiramente, ela precisava passar pela fase de desintoxicação e iria sofrer com crises de abstinência. Uma comunidade terapêutica não tem estrutura para um tratamento clínico como este, principalmente porque a adolescente não aceitava o tratamento”, argumenta a psicóloga.

Dois dias

Segundo Valéria, Fátima foi encaminhada pela primeira vez ao Caps/AD em dezembro de 2009. No mesmo mês, ela foi levada para a Associação Beneficente Casa Gênesis, em Araçatuba, para um tratamento que se prolongou por nove meses. No final de agosto deste ano, a menina recebeu alta e voltou para a casa da mãe, mas retornou para as ruas apenas dois dias depois. “Nem deu tempo de a gente iniciar o processo de reinserção dela no ambiente familiar”, lamenta a chefe do Caps/AD.

Procurada pela reportagem, a diretoria da casa de recuperação informou que a menina foi submetida a avaliação de psicólogos e psiquiatras da instituição e todos os exames detectaram que ela possuía condições de deixar a internação (leia mais abaixo). Para a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Roberta Maria Almeida de Oliveira, o fato de não haver uma clínica de reabilitação na cidade para atender dependentes químicos adolescentes impede que o trabalho de assistência seja feito de maneira apropriada, em conjunto com as famílias.

“A proximidade dos adolescentes com os familiares é importante no processo de recuperação. Além disso, o trâmite para obter a internação fora da cidade costuma ser bastante demorado. Desde outubro nós estávamos esperando uma vaga para a Fátima (nome alterado pela reportagem) em uma comunidade terapêutica”, salienta.

O novo pedido de internação, desta vez para o Tereza Perlatti, foi concedido ainda ontem pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, após solicitação do Conselho Tutelar. De acordo com o magistrado, que não acompanha de perto o caso de Fátima, um dos entraves que tornam a reabilitação ineficaz é a descontinuidade do tratamento quando os dependentes químicos retornam para a cidade. “Quando acontece uma situação grave como a desta garota encontrada em um depósito de lixo, todo mundo fica procurando um responsável. Certamente, ela não teve a estrutura adequada para que não retornasse ao vício”, pontua.

____________________

Garota recebeu alta em agosto

Por causa da dependência em crack, Fátima (nome fictício) foi internada no final de 2009 na Associação Beneficente Casa Gênesis, em Araçatuba, clínica voltada à recuperação de usuários de drogas de 12 a 17 anos. Na época, ela tinha apenas 12 anos e foi encaminhada por ordem judicial para um tratamento que teve duração de nove meses. O município custeou sua estada no local.

Segundo a diretora da associação, Sônia Maria de Moura, em agosto deste ano, a menina apresentava boas condições de saúde e os médicos avaliaram que ela já poderia voltar para casa. “Nós entramos em contato com o Conselho Tutelar e uma viatura do Crea (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de Bauru veio buscá-la. Ela estava apta a retornar para o ambiente familiar. E a mãe, que veio visitá-la algumas vezes, estava ansiosa para que isso acontecesse logo”, comenta.

De acordo com Sônia, a adolescente poderia ter permanecido na clínica por até um ano, porém, o valor inicial pago pela prefeitura de Bauru, que contemplava apenas os nove meses iniciais, teria de ser revisto. “Mas a menina não precisava, porque estava ótima. Estamos surpresos em saber o que aconteceu”, pontua. A internação de Fátima em Araçatuba foi a única a que a garota foi submetida desde que tornou-se usuária de drogas.

____________________

Adolescente pertencia a grupo de usuários de crack reportado pelo Jornal da Cidade

A adolescente encontrada em um depósito de lixo no Jardim Europa, anteontem, pertencia ao grupo de seis garotos e garotas com idades entre 11 e 16 anos que permaneciam grande parte do dia pedindo esmolas em uma movimentada região da zona sul da cidade. Conforme o JC divulgou com exclusividade no início de novembro, todos eles eram usuários de crack e as “doações” eram destinadas ao sustento do vício.

De acordo com a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Roberta Maria Almeida de Oliveira, um dos meninos já foi encaminhado a uma comunidade terapêutica. Os demais, assim como Fátima, até ontem ainda aguardavam vaga para iniciar o tratamento.

Roberta teve contato direto com o grupo e lembra que a garota relatou ter consumido 16 pedras de crack em um único dia. Por conta da situação em que ela se encontrava, o pedido de internação foi feito pelo conselho no dia 20 de outubro à Vara da Infância e Juventude e reiterado há cerca de duas semanas.

“A gente acaba ficando de mãos atadas. Ela voltou (da comunidade terapêutica de Araçatuba) em agosto e, desde então, foi encontrada diversas vezes na rua, de manhã ou à noite. A gente sempre leva para o abrigo que existe na cidade, mas lá não existe estrutura para manter um dependente químico”, comenta a conselheira, salientando que, em função do vício, Fátima costumava fugir no mesmo dia da entidade para onde era encaminhada.

Segundo Roberta, a adolescente costumava dormir em um imóvel abandonado localizado no Parque das Nações e poucas vezes voltou para casa desde que recebeu alta. A menina, no entanto, teria dito às conselheiras que gostaria de receber ajuda.

“O ideal é que ela possa ter acesso a um tratamento de longo prazo, senão, fatalmente voltará para a rua. Temos conhecimento de adolescentes que precisaram de três internações para conseguir alguma melhora. O processo de recuperação contra o vício em crack é muito difícil e precisa ser feito da maneira correta para dar certo”, pondera.

Comentários

Comentários