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Família perde 2º filho para o crack

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

O crack, droga avassaladora que propicia alguns segundos de uma fuga prazerosa da realidade, está acabando com a vida da adolescente Fátima (nome fictício, condição para falar ao JC), de apenas 13 anos. Ela foi resgatada na manhã de anteontem no depósito de sacos de lixo de uma Unidade Básica de Saúde, no Jardim Europa, pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A adolescente foi atendida no Pronto-Atendimento Infantil (PAI), do Pronto-Socorro Central (PSC), e encaminhada juntamente com sua mãe para o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps/AD), no início da tarde de ontem.

O jeito franzino de Fátima não aparenta seus 13 anos. A magreza em seu corpo revela o potencial destrutivo do crack. Recuperada da noite no Pronto-Atendimento Infantil, a adolescente demonstrava inquietação por volta do meio-dia de ontem. Andava pelos corredores do Caps, passou algum tempo sentada em um banco no balcão de suporte ao trabalho da enfermagem.

Em seguida, encostou-se na parede e observou a movimentação na unidade por apenas alguns instantes. Quando veio a alta médica e a ambulância já estava na porta lateral, Fátima foi para o corredor pronta para embarcar, assim que fosse autorizada.

A menina mantém um comportamento esquivo, distante e como se nada lhe interessasse. Esse é o drama mais recente vivido pela dona de casa Luiza (nome fictício), mãe de Fátima e de um adolescente de 14 anos internado por dependência de drogas, há cerca de um ano, em uma clínica no município de Votorantim (SP).

Luiza garante que não desistirá da filha. “Se for ter que escolher entre a rua e a clínica, é claro que é a clínica”, define a mãe sobre o futuro da garota. Fátima está seriamente comprometida com a dependência de drogas. Ela voltou a consumir crack após um período de nove meses de internação em uma clínica para dependentes em Araçatuba. Para Luiza, não era o momento da filha ser liberada do tratamento.

Fuga

No retorno a Bauru no mês passado, Fátima passou dois dias com a família e sumiu de casa para cair no mundo dos usuários de entorpecentes novamente. A mãe diz que foram cerca de 30 dias de buscas, inclusive com registro policial de desaparecimento da filha.

Na semana retrasada, mãe e filha se reencontraram. Foi uma cena desesperadora, contou Luiza durante a conversa com a reportagem do JC, ainda dentro da ambulância com a filha, na porta do Caps/AD.

Luiza localizou a menina em um barraco na favela próxima ao Jardim Europa. De acordo com a mãe, Fátima estava jogada no chão, imunda e com muita fome. Nesse momento do relato emocionado da mãe, a adolescente esboçou contrariedade.

“Você não lembra. Estava morrendo de fome, no chão, com a roupa toda suja e abandonada no barraco. Não queria vir e Deus ajudou que veio”, insiste Luiza nos detalhes.

Visivelmente incomodada, Fátima reage. Com um movimento rápido, troca de assento na ambulância para ficar de costas para a mãe. Em tom de desabafo, Luiza enumera os cuidados que mantém com a filha, como quando conversa e tenta dialogar na busca do que aflige a adolescente.

Mas nada basta para uma pessoa usuária de crack. Luiza destaca que ela e o marido não batem nas crianças. Refuta qualquer trauma na infância relacionado a abuso sexual com a menina.

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Rebeldia

A mãe não acredita nas coisas que falam da filha. Segundo Luiza, foi por outras pessoas que ficou sabendo que a adolescente é usuária de crack e que “apronta” na rua. De acordo com a mãe, a menina convive com amigos da favela. A imagem que Luiza tem da filha é de uma menina inteligente.

“A letra dela é bonita”, ressalta, com brilho no olhar em direção à filha. Contudo, há o lado rebelde da adolescente. Segundo a mãe, Fátima estudou até o quarto ano do ensino fundamental. “Pode uma menina de 13 anos na 4ª série?”, lamenta.

O abandono dos estudos veio devido às brigas na escola, cita Luiza. Possivelmente, as confusões no colégio fossem o sinal de que era preciso intervir. “Não vou falar”, responde a menina com voz frágil, como alguém que não quer ser ouvida.

Segundo Luiza, ela e o esposo, um assentador de pedras decorativas, são evangélicos. O casal possui sete filhos. O outro filho adolescente, que completará 15 anos em breve, é o único homem.

Fátima é a mais velha das seis meninas. A irmã mais nova tem 2 anos e a “escadinha” segue com uma de 4, 5, 7 e 8 anos de idade. Luiza explica que vê o filho todo mês na clínica em Votorantim. Quando ela não pode ir, o esposo não falta à visita familiar. Segundo a mãe, ainda não há previsão para o adolescente sair da internação.

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