Sinto-me envergonhada quando, como brasileira, vi o presidente Lula fazer uma campanha explícita, agressiva e antiética para deixar “de qualquer maneira” sua candidata e o PT no poder. Para isso, ele parou de viajar (“nunca antes nesse país” um presidente viajou tanto ao exterior), subiu em palanques, desrespeitou as leis e esbravejou contra adversários. Para ele só existe o PT, um partido hoje desmoralizado por tanto corporativismo e escândalos com o dinheiro público. Depois que Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio saíram da campanha, aquilo virou uma baixaria total.
Cada vez mais convenço-me do quanto a escolaridade e a cultura fazem falta às pessoas. Agora enxergo melhor a postura ética, educada e culta de Fernando Henrique Cardoso, em contraponto ao presidente atual. FHC fez as reformas possíveis para aquele momento e possibilitou, sem inflação, o crescimento econômico do governo atual. Quanto ao assunto estatização, sou favorável em tese, mas, na prática, no Brasil das instituições públicas corporativistas, morosas, de pouco trabalho, corruptas e caras, só posso ser contra. Aqui, privatizar significa enxugar e moralizar o dinheiro do contribuinte. Até em concurso público tem falcatrua no Brasil. Chico Buarque apóia Lula, só que vive mais na França do que no Brasil e escreveu 3 livros nestes últimos anos. Fica recluso cerca de 2 anos em cada livro, ou seja, seu idealismo precisa de um choque de vida real. Seus amigos, Caetano e Gil, não pensam assim, e estamos falando dos artistas mais inventivos e instigantes da nossa música arte, os três.
Zarcillo Barbosa, o lúcido e culto articulista do JC, em seus dois últimos artigos (24/10 e o anterior) analisou perfeitamente o lamentável quadro político atual. (Parabéns também ao João Jabbour pelo ótimo artigo de segunda-feira, 25/10). Hoje o Brasil tem a péssima nota de 3,7 no ranking da corrupção mundial, sendo que 10 é a pontuação mais alta para os menos corruptos. Segundo analistas, escândalos na Casa Civil são quase impossíveis em outros países porque estão ligados diretamente à presidência da República. Aqui aconteceu e não afetou o presidente Lula, ninguém pediu sua renúncia.
Quanto aos candidatos, Serra e Dilma têm bons históricos, mas Serra teria para o Brasil uma política mais austera e séria, com menos desperdício de dinheiro. Basta ver o Poupatempo (é primeiro mundo), os hospitais estaduais, as escolas técnicas, a bolsa educação, os genéricos, menos escândalos e mais ética, a nota fiscal paulista. A proibição do cigarro em lugares públicos foi um avanço de civilidade e um bem para a saúde das pessoas. Agradeço por isto todos os dias. Por isso admira-me o controle ideológico do frequente missivista à tribuna do leitor Henrique P. de Aquino, petista ferrenho e radical, ao criticar Gazzetta e Dr. Raul pelo apoio a Serra, como se isso denegrisse o impecável comportamento dos dois. Sr. Henrique devia condenar a corrupção da Casa Civil, braço direito de Dilma, e não criticar os poucos políticos capazes, éticos e honestos, ligados ao PV - o único partido com propostas inovadoras para o esgotado modelo atual - e que nos fazem ainda sair de casa para votar.
Vera R. Jeanete Cardoso - professora, bióloga e ambientalista