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A teologia da camisinha

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O Papa Bento XVI admitiu a utilização de preservativos nas relações sexuais, “em certos casos”. No livro-entrevista “A luz do mundo”, o chefe da Igreja Católica considera que na prostituição, o uso da camisinha já é um primeiro ato de responsabilidade. Seria uma forma de começar a conscientização de que nem tudo é permitido. As pessoas não podem fazer tudo o que querem, de forma irresponsável. O pontífice volta a afirmar que o uso da camisinha não é a forma apropriada e verdadeira de vencer o contágio pela Aids, mas admite que tem um papel importante na luta contra essa epidemia. De verdade, segundo suas próprias palavras, é preciso uma “humanização da sexualidade”.

Ninguém foi capaz de interpretar, com segurança, se houve um “avanço”. O porta-voz do Vaticano apressou-se em amenizar as palavras do Papa, aparando as arestas heterodoxas para fazê-las compatíveis com a doutrina tradicional católica. “As palavras do Papa não reformam nem modificam os ensinamentos da Igreja, senão que as reafirmam” – explica o Vaticano. Parece que a Igreja segue sustentando seu anacronismo sexual e mantém a resistência ao controle da natalidade por métodos artificiais, profiláticos ou anticonceptivos.

Se houve algum avanço, chega muito tarde. Desde o início da epidemia nos anos 1980, 60 milhões foram infectados e quase 30 milhões de pessoas morreram por doenças relacionadas à Aids. Existem 33,3 milhões de infectados pelo HIV no mundo; 1,8 milhão morreram em 2009. Na África subsaariana estão 70% dos infectados e 10 milhões não têm acesso ao tratamento antirretroviral. Isto já não é mais uma estatística: é um genocídio. Mais de 20 milhões são órfãos de mãe, de pai ou de ambos em países que não dispõem de capacidade para absorver tanta tragédia. Depois da escravidão, outra praga – a Aids. Como disse uma freira que trabalha num hospital de Ruanda, “o quinto Mandamento diz “não matarás” e aqui na África, o preservativo é uma questão de vida ou morte, não de sexo. Se tenho que escolher entre o Vaticano e Deus, eu já fiz minha eleição”. E a Igreja ainda insiste em impor a “tabelinha do Vaticano”, em países em que poucos sabem contar as noites pós-menstruação. Alguém precisa avisar que na selva não existe termômetro para medir a temperatura vaginal. No Brasil são 810 mil doentes de Aids. Felizmente o número de mortes tem diminuído graças aos coquetéis de drogas distribuídos gratuitamente. O Papa quis corrigir as declarações que realizou durante sua viagem à África, em 2009, quando alertou sobre o uso do preservativo e sustentou que, mais que ajudar a combater a Aids, só “aumentam o problema”. Uma demonstração de insensibilidade que põem em risco a vida, na contra-mão dos esforços de todos os governos e da ONU para o uso da camisinha. Falar em abstinência na África é estar fora da realidade. A irrealidade mata milhões. Se a intenção foi mesmo esta, ainda falta muito para a hierarquia católica ombrear-se com os problemas da sociedade. Continua a caminhar na contra-mão dos fatos.

No magnífico Museu Britânico, em Londres, depois da Pedra de Roseta que Champollion decifrou existe uma seção dedicada à história da camisinha. Ela já existia há 1.000 a.C no Egito. Era feita de tripas de animais ou da bexiga natatória de peixes. Foi possível ao Museu enfileirar uma série de preservativos dos séculos 16, 17 e 18, encontrados em escavações no castelo de Duddley. A gente percebe que Darwin estava certo na sua teoria evolucionista. As camisinhas daquele tempo eram bem menores que as atuais, que chegam a 22 centímetros. O objetivo não era a anticoncepção. Filhos são sempre uma bênção, para ajudar no sustento da família. O flagelo era a sífilis. A doença acabou com as performances de Henrique VIII (1491-1547), em seis casamentos. Quem sabe por isso mandava matar as mulheres... Manter em segredo a falta de desempenho. A igreja anglicana, que não deve obediência ao Papa, apóia o uso da camisinha. A preocupação lá é de outra ordem: 100 milhões de preservativos de látex flutuam nos rios e mares da Grã-Bretanha. A tartaruga morre engasgada por confundi-la com a água-viva. O Museu Britânico ainda exibe as últimas inovações: camisinhas de todas as cores, inclusive fosforescentes; com anéis e protuberâncias para provocar sensações mais intensas; com aromas de baunilha, framboesa, chocolate, banana, coco.

Estou pretendo demonstrar que o fenômeno é histórico. O laicismo cada vez mais forte e agressivo leva ao enfrentamento entre a fé e a modernidade. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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