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Vítimas são maioria em curso de defesa

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Guerra urbana não implica, necessariamente, no cenário vivido pelo Rio de Janeiro. Mesmo sem carros incendiados por traficantes e tanques de guerra circulando pelas ruas, outras metrópoles ou cidades do porte de Bauru também possuem seus campos de batalha.

Seja na cada vez mais tensa ida ao caixa eletrônico, no que antes era uma simples parada no semáforo, pelo medo de ter a casa invadida por um criminoso ou até mesmo nas escolas, com agressões físicas ou verbais – difundidas pelo termo bullyng –, a guerra urbana é real e se manifesta em variados fronts.

Sem poder de polícia para pegar em armas e, obviamente, respeitador das leis, o cidadão de bem lota academias de defesas pessoais para transformar o próprio corpo em artimanha para se defender. De acordo com constatação feita pela reportagem em cursos de defesa pessoal visitados nesta semana em Bauru, a maioria dos frequentadores sofreu algum tipo de violência.

Entre os cerca de 30 alunos treinados na academia do instrutor Douglas Patri Gonzales, por exemplo, a maioria, relata, enfrentou algum tipo de situação violenta. “Geralmente o aluno não fala de cara o que aconteceu, apenas diz que quer treinar. Com o tempo ele se abre e descobrimos a história de cada um”, comenta o instrutor, especialista em kombato, arte marcial desenvolvida nos anos 1980 dentro da Marinha do Brasil.

Baseado na utilização de técnicas de defesa derivadas de diversas vertentes de combate, a arte marcial, explica o treinador, propicia ao praticante transformar qualquer objeto em arma e responder de forma proporcional à força com que foi atacado.

Desde adolescentes até senhores na faixa dos 60 anos frequentam a academia em busca de conhecimento para se sentirem seguros. “Temos vítimas de crimes, brigas e até bullyng”, descreve o instrutor.

Porém, a procura por defesa pessoal, diferencia o especialista, jamais deve ser confundida como se transformar numa máquina de agressividade. Transformar o cidadão num “Rambo” com sangue nos olhos, à caça de bandidos, vingança ou simplesmente arrumar uma briga e se aproveitar da técnica – letal, garante – não é a proposta dos cursos, ao menos nas academias sérias.

Pelo contrário, atestam professor e alunos. Ao participar de um curso de defesa pessoal, a vítima pode até se tornar alguém mais calmo, tanto em sociedade quanto dentro de casa. “Você aprende a ter autocontrole e fica mais tolerante. Até no trânsito, deixa de gritar, xingar”, exemplifica o técnico em refrigeração Rodner Fernandes Alegre, praticante de kombato.

Ele conheceu a arte marcial após ter sido vítima de um assalto, há cinco anos. A abordagem criminosa que sofreu no Centro de Bauru, em plena luz do dia, o motivou a aprender a técnica.

“Saquei dinheiro no banco e andei dois quarteirões até que um cara colocou o revólver na minha barriga”, recorda-se. “Foi às 3 da tarde. Ele sabia o quanto eu tinha e até em que bolso estava. É uma sensação de inutilidade total, fora o medo de morrer. Você se sente um nada. As pessoas passavam do lado e viravam o rosto. Fingiam não ver”, descreve.

Instrutores alertam para estratégia segura

Durante os treinos de kombato, não são ensinadas apenas técnicas de defesa, que, segundo praticantes, são eficientes e rápidas. O aspecto psicológico é mais do que um complemento às aulas, diferencia o instrutor Douglas Patri Gonzales. De qualquer forma, o mais importante é que o aluno não saia dos treinos considerando que pode enfrentar qualquer desafio. Não reagir a assaltos é fundamental.

Os alunos, aponta o instrutor Gonzales, são instruídos a não reagir em situações de risco e a usar os ensinamentos apenas em situações extremas, quando o risco de morte é evidente.

“O kombato ensina que reagir não é importante. Você só vai reagir em último caso, se for a sua vida ou a dele”, acentua o praticante Rodner Fernandes Alegre.

Apesar de iniciado na arte marcial após o assalto, ele crava que o melhor bem que podemos preservar após uma abordagem violenta é a vida. “Celular, relógio, carro...a gente compra tudo de novo. Vida não se compra outra. Se um cara chega e fala: ‘Eu quero seu carro’, respondo para ir com Deus que o tanque está cheio. Não vale a pena fazer loucura por causa de bem material”, ensina.

Essa é a orientação também de quem, por ofício, zela pela segurança pública e repreensão à criminalidade. “Nunca reaja. Atenda ao que pede o infrator. Grandes lutadores já foram surpreendidos por criminosos armados, reagiram, e o saldo foi triste”, recomenda o capitão Ézio Carlos Vieira de Melo, oficial de relações públicas do 4º Batalhão da Polícia Militar em Bauru.

De acordo com o policial, as chances de uma reação acabar em tragédia podem chegar até 90%. “Pense na vida, nos parentes, nos filhos”, apela o oficial, ao diferenciar instruções para não ser agredido ou até morto por ladrões de resignação com o crime.

“Não informamos para que se aceite o mal. Não se reage em assalto, mas também pode-se ajudar a polícia na captura, ao prestar atenção nas características dos infratores e ao entrar em contato imediatamente com a PM”, orienta. “Quem deve agir é somente o policial. Preparado e pago para isso”, atribui.

Apesar da descrição ser importante, a polícia também recomenda: jamais encare o assaltante. Assim como um animal selvagem, o olhar nos olhos, para o marginal, pode significar desafio. “Evite encará-lo. Ele pode se sentir desafiado”, acentua.

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