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Quando a defesa vira um ‘sacerdócio’

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

Mais que simplesmente técnicas de defesa pessoal ou uma arte marcial de cunho esportivo, algumas pessoas encaram o treinamento com dedicação sacerdotal.

Da mesma forma com que boa parte dos praticantes de lutas ou demais treinamentos em busca de segurança e poder de reação em situações de iminente risco de morte, os adeptos do ninjutsu, em sua maioria, também já foram expostos a algum tipo de agressão.

Mas os praticantes, diferencia o instrutor Alexandre Dantas, especialista na arte marcial há três décadas, não podem, por exemplo, ter qualquer tipo de vício, desde os considerados mais graves, como as drogas ilícitas, até mesmo a uma simples cervejinha de final de semana.

Quem luta ninjutsu, explica, é uma arma ambulante e pode transformar objetos inofensivos, como um par de óculos ou um cartão bancário, em armas letais, garante. “Como a pessoa vai beber sendo que tem técnica para matar alguém com qualquer instrumento?”, indaga e justifica o instrutor.

De nome complicado (ninjutsu taifujutsu tamashido), o estilo de luta figura longe do cenário esportivo. Restrito ao campo da defesa pessoal, o ninjutsu, define o instrutor, apesar da longa denominação, simplesmente é: “a arte do super-soldado”.

Eficaz e letal – emprega mais de 280 tipos de armas - , a técnica que, a partir de seis meses, pode começar a ser usada de forma automática pelos praticantes, mescla elementos de artes distintas como o kung fu e judô tem raiz na tradição Ninja, mas foi aprimorada em cada país por onde passou, desde o Japão ao Oriente Médio.

A graduação dos praticantes é semelhante às lutas esportivas, com espécie de faixas atribuídas aos mais evoluídos na arte.

O grande diferencial do ninjutsu é a devoção demonstrada até mesmo por principiantes. Todos de preto, alguns usam coturnos estilo militar, outros uma espécie de “bota ninja”. Denominado “Tali”, o calçado flexível é usado geralmente em escaladas.

Além da arte marcial, os adeptos ainda têm aulas de sobrevivência na mata, realizadas em sítios próximos a Bauru, cuja localização Alexandre prefere manter sob sigilo.

Sob a “guarda” de uma caveira metalizada, os alunos se ajudam mutuamente nos treinos em cima do chão. A camaradagem estabelecida forma uma espécie de clã. “Somos como uma família. Ninguém usa a força no treino. São amigos se ajudando”, explica.

A irmandade de preto se ajuda. Todos são tratados como iguais, explica Dantas, sejam veteranos ou iniciantes na arte. “Do mais antigo ao novato, todos são iguais. Se o aluno perde uma aula, vai precisar de quem a assistiu. Isso é humildade”, define.

Os ensinamentos, diários e com atividades no final de semana, não requerem ringues ou tatames. “Nas ruas, não há tatame”, acentua.

Regras, acrescenta, somente de conduta. “Estudo é sempre importante assim como ter uma religião, independentemente de qual seja, respeitar os mais velhos e as moças”, elenca o treinador. Nas raras horas onde o ensinamento deve ser aplicado, orienta, elas deixam de existir. “Não tem regra. Até porque o inimigo, o bandido, não tem”, define.

Trauma em números

Nas mais variadas modalidades, foram registrados 99 assaltos em Bauru apenas no mês de setembro, período contabilizado mais recentemente pela Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo.

Os números, que desprezam ainda outras ações criminosas – homicídios, por exemplo -, representariam uma média superior a três pessoas intimidadas por bandidos por dia na cidade.

Hipoteticamente, se uma em cada três vítimas desenvolvesse algum quadro de estresse pós-traumático nesse período, mais de trinta pessoas necessitariam de algum cuidado médico em decorrência da criminalidade, quase uma por dia.

Ainda conforme a literatura médica, testemunhas de ações violentas também podem desencadear o transtorno, o que multiplicaria o número de atingidos pelo problema.

Ordens do bandido devem ser seguidas

Letal para agressores, o ninjutsu também não tem a finalidade de reação em assaltos ou outros pequenos delitos. Em caso de abordagem a mão armada, o recomendado é que as ordens do bandido sejam cumpridas. O dedo no gatilho, detalha o instrutor Alexandre Dantas, é mais rápido do que qualquer movimento.

Apesar disso, afirma, é possível desarmar alguém com as técnicas. Contudo, os movimentos são feitos apenas em situações de extremo perigo de morte e com total certeza do praticante de que terá sucesso. “Não orientamos a reagir em assaltos, somente em casos muito extremos de ameaça a vida, quando você sabe que, se não agir, vai morrer e com total garantia de sucesso”, ressalva.

Além disso, mesmo sem mover um grão de areia, o ninja sempre está em ação. Observação aguçada também é disciplina nas aulas de ninjutsu e isso faz grande diferença na hora de evitar a abordagem criminosa.

“O ninja usa o ninjutsu todos os dias”, rege Dantas, ao parafrasear o general chinês Sun Tzu, que, há 2.500 anos, escreveu em “A Arte da Guerra”: “O verdadeiro guerreiro vence uma guerra sem nunca ter lutado”.

E foi assim que o aluno Bruno da Cunha Felipe, de 23 anos, se livrou de uma iminente tentativa de assalto. Durante uma tarde, no Calçadão da Batista de Carvalho, ele percebeu que era seguido de perto por dois indivíduos suspeitos. Ao invés de usar as técnicas de combate e, literalmente, quebrar a dupla, ele utilizou outros ensinamentos, também adquiridos nos treinos.

“Entrei numa loja e eles me esperaram do lado de fora. Saí pelos fundos da loja e fiz o mesmo ao entrar em outra. Senti que eles iam me roubar. Mas não dei chances e ainda evitei o combate. Não precisei demonstrar que sabia (a arte ninja)”, orgulha-se.

O pacificador

Com 16 anos - é praticante há três -, o estudante Rafael Patrick de Paula é um dos mais jovens lutadores da academia de ninjutsu. O jovem que, segundo o próprio, gostava de aprontar algumas na escola, tornou-se um pacificador no colégio. Sempre quando há brigas, a direção e professores recorrem ao rapaz, que intervém antes que alguém se machuque, diz.

Orgulhoso com a roupa preta e coturnos, o adolescente endossa o amadurecimento com a técnica adquirida. Ao invés de “cair matando”, ele assimilou autocontrole e, acima de tudo, confiança. “Eu tinha 72 quilos, era gordo e baixo. Conforme o treinamento, vi que eu era mais do que eu achava, me subestimava. Me esforcei e agora não sou mais um aluno médio. Se nossos pais nos bancam, precisamos dar o máximo no estudo e conduta”, considera. “Estamos aqui para evitar e não correr atrás de briga”, defende.

Inclusão

Mas não é só contra a violência que um programa de defesa pessoal contribui. A auto-estima e inclusão também são reflexos positivos da prática. O analista de sistemas Fernando Gaiofato é exemplo de que podemos muito mais do que imaginamos.

Cego do olho direito, ele conta que, antes do ninjutsu, achava-se incapaz perante quem enxerga integralmente. Foi a arte ninja que resgatou seu equilíbrio, coordenação e, principalmente, autoestima.

“Sofri um acidente de trabalho nove anos atrás, quando trabalhava no setor de produção de uma indústria de bebidas. Estourou uma garrafa e perdi a vista direita”, recorda. “Trombava com as pessoas. Entrei no ninjutsu há 2 anos e retomei meus reflexos. Tranquilamente digo: estou preparado”, garante, questionado sobre situações tensas. “Todos podemos mais do que pensamos”, assegura.

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Ranço da violência pode ser longo

Ilesas fisicamente, vítimas de violência podem carregar sequelas emocionais pelo resto da vida. Denominado síndrome do estresse pós-traumático, o reflexo psicológico pode se manifestar em intensidades diferentes e até mesmo em fases não necessariamente imediatas ao ocorrido.

Em algumas pessoas, diferencia a psicoterapeuta Ana Cristina Pereira, o problema é desencadeado posteriormente, processo conhecido dentro da psicanálise por memória seletiva. “O episódio é ‘apagado’ justamente pela força do trauma, como se nada tivesse acontecido. Tempos depois começam vir as consequências que, na verdade, nem são associadas ao fato”, detalha.

Sem regras, o universo da mente é influenciado de maneira diferente de um indivíduo para outro, explica Ana Cristina.

De maneira geral, o transtorno, explica a literatura médica, é entendido como perturbação psíquica decorrente de um episódio extremamente ameaçador. Medo, insônia e sensação constante de perseguição são alguns dos reflexos.

Paralelamente aos casos de gente que guarda o fato, que, posteriormente, vem à tona por outras sequelas, entre elas doenças psicossomáticas, também ocorre o contrário, diferencia a psicoterapeuta. “Existem pessoas que ficam completamente bloqueadas, paralisadas, com medo de sair de casa”, descreve. “Tudo é muito pessoal e varia de cada um”, comenta.

Genericamente, diz Ana Cristina, é impossível mensurar o tempo de recuperação de um paciente com quadro de estresse pós-traumático, bem como o sucesso do tratamento, feito por meio de medicamentos ou terapia.

“Não dá para padronizar e tampouco minimizar o estresse de alguém. Muitas vezes se fala: ‘só por causa disso?’. Mas o que pode parecer pouco para uns para outra pessoa foi uma violência. Depende da sensibilidade e suscetibilidade de cada um, ao seu modo particular”, atribui a psicoterapeuta.

Quebra-ossos

Apesar dos mandamentos do ninjutsu de não se reagir em assaltos, houve quem vivesse situação contrária, como assegura o jovem Luca Quintanilha Agostini, 17 anos. No seu caso, os ladrões não estavam armados. Na ocasião, o rapaz, abordado na rua quando já era praticante de ninjutsu, “apenas” quebrou o nariz de um e o braço de outro.

Na volta da escola, ele foi surpreendido por dois marginais, durante o dia, na avenida Duque de Caxias. “Um deles colocou o dedo nas minhas costas e simulou estar armado. Vi que era o dedo e as roupas antes. Não havia possibilidade de estarem armados. Quebrei o braço de um e esmaguei o nariz de outro”, narra. “Tirei o soco e acertei o cotovelo. Por sorte não deu fratura exposta, senão eu arranjaria processo”, diz.

“O outro tentou reagir eu o joguei ao chão e pisei na cara dele”, descreve. “Isso em frações de segundos”, conta o rapaz, que, na época, tinha um ano e meio de treino. “Em pouco tempo percebemos muitos detalhes”, completa.

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