Ciências

Cérebro: precisa ser alfabetizado?

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Sou cristão e procuro praticar o pensamento socrático. No dia a dia de nosso tempo utilizamos cinco palavras que não são sinônimos perfeitos e, apesar de relacionadas, são independentes.

1) Inteligência: envolve a capacidade de raciocinar, memorizar e aprender. O inteligente apresenta grande capacidade de adaptação ao meio em que vive. Inteligente planeja e articula bem; consegue ser feliz. Como inteligente podemos citar Einstein, Sócrates, Jesus, Pelé e Gandhi. Inteligência não tem relação direta com criatividade, caráter ou sabedoria.

2) Cultura: envolve todas as atividades mentais, sensoriais e físicas que caracterizam uma sociedade como teatro, vestuário, esportes, cinema, música e artes. Exemplos de cultos são: Jô Soares, Chico Buarque, Gilberto Gil, Sócrates, Jesus, Buda, Silvio Santos, Lima Duarte e Confúcio.

3) Escolaridade: representa uma seqüência de aquisição de conhecimentos de forma organizada em escolas. A escolaridade completa tem aqueles que cursaram a universidade como por exemplo Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, Roberto Justus, Adib Jatene, Luciana Gimenez, José Sarney. Mas, como exemplos de pessoas sem faculdade temos: Silvio Santos, Lula, José Serra, Lima Duarte e Hebe.Ter escolaridade não garante inteligência e nem cultura.

4) Memória: capacidade de retenção mental de dados. Hoje a memória é realizada por máquinas, deixando-se o cérebro para os sentimentos. Exemplos de memórias privilegiadas: Jô Soares, Paulo Maluf, ACM e atores, além dos computadores. Com a tecnologia touchscreen, ou “tela sensível ao toque”, cada vez mais funções dos computadores, telefones e eletrônicos são acionadas por ícones ou símbolos, sem palavras ou comandos escritos. Basta ter memória razoável para acionar aparelhos, programas e funções.

5) Analfabeto: aquele que não sabe ler, nem escrever. Tem variáveis como analfabeto funcional para aquele que não consegue ler manuais, não abre e-mails, não usa computador. Analfabetismo não tem relação direta com criatividade, caráter ou sabedoria.

Em Atenas viveu o maior e mais influente filósofo de todos os tempos: Sócrates (469-399 a.C). Suas aulas eram disputadíssimas. Os alunos em sua escola conhecida como academia bebiam do seu conhecimento, capacidade de diálogo e oratória. Sócrates formou numerosos líderes e intelectuais. Sócrates, considerado o pai da filosofia, influenciou e ensinou o homem ocidental a raciocinar, pensar, refletir e a dialogar. Todos seus pensamentos, palavras e atitudes foram registrados por Platão, um leal e brilhante aluno, que os publicaram. Por mais incrível, por mais inacreditável, esta atitude de Platão perpetuou o pensamento de Sócrates, pois era analfabeto, não sabia ler, nem escrever! Não se assuste, enquanto ocidentais, pensamos e repetimos os raciocínios e reflexões de um cérebro analfabeto!

Em outro local, também viveu um dos homens e líderes mais inteligentes e cultos que a nossa espécie conheceu: Jesus Cristo. Além de sua inteligência, os livros revelam sua grande capacidade de memória, raciocínio rápido e enorme cultura como revela sua parábolas. Jesus era tão inteligente e brilhante que ainda tinha a enorme capacidade de amar ao próximo como a si mesmo, inclusive os inimigos. Por mais incrível, quando precisamos de ajuda, como por exemplo para passarmos em concursos ou provas, solicitamos ajuda intelectual e celestial de Jesus. Mas a bíblia sagrada em nenhum lugar descreve, cita ou demonstra, mesmo que indiretamente, a figura de Jesus lendo ou escrevendo. Sim, as evidências revelam nas escrituras sagradas que Cristo não sabia ler e nem escrever. O cristianismo deve quase toda a teologia a São Paulo, um leal discípulo de Jesus.

O fato de Jesus e Sócrates não saberem ler ou escrever não diminui em nada o seu valor como lideres religiosos e filosóficos. Muito pelo contrário, os valorizam muito mais. O que fizeram pelo homem sem qualquer recurso tecnológico, nem da escrita, denotam que eram seres muito especiais.

Você já imaginou se Jesus e Sócrates estivessem entre nós em carne e osso e se candidatassem a deputado! Eu, humildemente, me sentiria envergonhado perante eles, pois a Justiça Eleitoral não permitiria. Eles seriam dois grandes puxadores de votos. Você votaria neles?

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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