Articulistas

Deus parou pra ouvir

Renato Cardoso
| Tempo de leitura: 3 min

Diante de tanta gente emocionada ao ver e ouvir a Orquestra Sinfônica Bachiana, no Santuário do Sagrado Coração, olhei para a imagem de Jesus Cristo, na cruz ao fundo do altar, e fiquei a imaginar, ou acreditar mesmo, que Deus e os santos estariam naquele momento vendo e ouvindo aquele som incrivelmente belo e adequadamente apresentado num santo espaço de uma paróquia. Lembrei-me de um sonho de Jurandyr Bueno Filho, que ia exatamente em direção de inaugurar aquele templo religioso com uma apresentação de or-questra sinfônica. O próprio maestro João Carlos Martins confirmou que ouvira de Jurandyr um pedido nesse sentido. E por fim o maestro conferiu “in loco” como o Santuário do Sagrado Coração de Jesus é, sim, a obra definitiva do arquiteto bauruense tão famoso, que nos deixou prematuramente.

Com o espírito absolutamente aberto para o diálogo com Cristo, num ambiente sagrado e pela comunicação sacra, que é a musical, de certa forma o sonho de nosso inesquecível arquiteto se configurara nesse domingo. Tudo como certamente sonhara. E de algum privilegiado local, certamente acompanhou tudo, pudemos sentir.

Vi muita gente emocionada, chorando até, tal o impacto que a apresentação da orquestra de jovens talentosos e regida pelo experiente maestro proporcionou a mais de mil pessoas de uma plateia ávida por espetáculos dessa natureza.

Tudo perfeito, até pelo momento áureo da apresentação que se deu pela exibição de um arranjo especial de João Carlos Martins, fundindo duas melodias definitivas, assinadas por Enio Morricone, e que ficaram marcadas por terem sido transformadas em trilhas sonoras de dois filmes de extremo sucesso: “Cinema Paradiso” e “A Missão”.

O maestro conseguiu deixar as duas melodias ainda mais belas, no momento para mim mais emocionante, com ele sentado ao piano e com apenas dois dedos exibindo uma conjugação de sons que tocou todos os corações.

Quem assistiu ao filme “A Missão”, com Robert de Niro e outros feras do cinema, não se esquece daquela magistral trilha sonora, com sons conjugados por cordas, metais, solo de oboé e entrada de um coral em momento absolutamente estratégico do filme, que arrepia sempre os mais afeitos à música, que certamente revivem sempre os momentos da produção inesquecível, filmada ao sul do Brasil, com proposta exatamente de cunho religioso, daí o nome “A Missão”.

No filme, missionários saem em defesa dos nativos e contra portugueses e espanhóis que disputavam a riqueza natural do Brasil da fase pós descobrimento. Um ponto de coincidência entre os dois momentos (conjugando com a apresentação em Bauru): o Padre Gabriel , interpretado por Jeremy Irons conquista os indígenas exatamente interpretando a bela melodia do gênio Enio Morricone e tocando um flautim. No palco, a missão dos promotores de levar ao público presente uma forma para muitos ainda inusitada de falar com Deus... pela música. Saí do espetáculo com a alma lavada e com a sensação de ter participado da missa de domingo. A “Homilia” que sempre aguardo nas dominicais, desta vez veio por sons musicais.

Veio por um espetáculo que não pode ter ocorrido por acaso. Senti que ele faz parte da trajetória do Santuário, que poucos sabem, foi lançado em um café da manhã na casa do então bispo dom Aloysio, com representantes da imprensa local, presentes e não acreditando que o ousado projeto vingaria. Vingou... e como.

O autor, Renato Cardoso, é publicitário e bacharel em direito

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