Bairros

Jovem morre arrastado por enxurrada

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

A força das águas mostrou todo o seu poder de destruição no início da noite de ontem, em Bauru. Além de causar danos em vários bairros, o temporal que atingiu a cidade tirou a vida de um rapaz de 24 anos, que acabou morrendo afogado após ser arrastado pela enxurrada que inundou a avenida Nações Unidas.

Rafael Franco Zontini – que é morador de Votuporanga e teria parentes em Bauru - lutou pela vida e contou com a ajuda de inúmeros voluntários nas cinco quadras que percorreu até ficar preso sob um carro em frente à Praça do Líbano. Com a violência da correnteza, ele não conseguiu emergir a tempo e de lá foi retirado com a ajuda de populares, já sem vida. De acordo com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a vítima morreu por afogamento e sofreu afundamento de bacia.

Segundo descreveram testemunhas, Rafael havia desembarcado do Terminal Rodoviário momentos antes da tragédia e estava em um táxi, um Gol que seguia na avenida Nações Unidas no sentido Centro-bairro. Na altura da quadra 17, próximo ao supermercado Paulistão, o taxista teria tentado estacionar o carro em um posto de combustíveis, mas a correnteza arrastou o veículo e o jovem, desesperado, teria decidido sair.

Funcionários de uma seguradora de imóveis instalada próximo ao local resgataram o condutor do táxi e tentaram socorrer Rafael com uma mangueira de água para que ele pudesse se segurar. De acordo com testemunhas, o rapaz resistiu contra a força e o grande volume de água por alguns segundos, mas acabou se soltando.

Levado pela enxurrada – que arrancou seus sapatos, bermuda e roupas íntimas, ele percorreu as quadras 16 e 15, se chocando contra alguns carros que estavam quebrados pelo caminho. Ao atingir a quadra 14, no cruzamento com a rua Benjamin Constant, Rafael conseguiu novamente se apoiar, desta vez em uma Ford Ranger vermelha, que também já havia sido tomada pela água.

“Ele ficou segurando no retrovisor da caminhonete, eu joguei uma corda para ele e fiquei apoiado atrás de um poste. Mas o carro se movimentou, empurrado pela enxurrada, e ele acabou caindo de novo na água”, relembra o gesseiro Moacir Aparecido de Paulo.

Desespero

A tentativa de resgate frustrada foi filmada pelo auxiliar de escritório Cássio Leandro Souza Rodrigues, 40 anos, que mora nas imediações da avenida Nações Unidas. Segundo ele, o semblante do rapaz demonstrava todo o desespero daquela situação.

“Eu acompanhei toda a cena com a minha câmera e só não ajudei porque estava com a minha filha pequena em casa. Mas todo mundo que estava perto tentou fazer alguma coisa”, pontua.

Depois de submergir pela segunda vez, na quadra 14, Rafael foi arrastado até a quadra 13, na Praça do Líbano, onde um Corsa vermelho estava quebrado, parado entre a calçada e a guia. “Ele foi parar embaixo do carro e não conseguia sair”, conta Marcelo Madureira, que retirou a vítima debaixo do veículo. “Ele ficou muito tempo embaixo da água. A gente via que ele estava lá, mas a enxurrada era muito forte. A dificuldade para tirá-lo de lá foi muito grande”, revela.

Depois do resgate ser concluído, o Samu foi acionado por volta das 19h15, mas Rafael já não apresentava sinais vitais. Seu corpo permaneceu na Praça do Líbano, coberto por um cobertor térmico, por cerca de duas horas, até a chegada da Polícia Técnica.

Durante todo o tempo, dezenas de populares se aglomeravam, ainda incrédulos, para tentar descobrir como a tragédia havia acontecido. A reportagem permaneceu no local até as 21h50, mas nenhum parente havia aparecido para reconhecer o corpo da vítima.

Apenas um homem, que se identificou como advogado da família, tentou falar com policiais para obter mais informações sobre o ocorrido. Mas, sem sucesso, foi embora após se recusar a conceder entrevista à imprensa.

De acordo com informações da Polícia Militar (PM), a vítima seria moradora da cidade de Votuporanga (a 290 quilômetros de Bauru), mas teria familiares em Bauru. Até o fechamento desta edição, não havia informações sobre os motivos pelos quais ele havia vindo até a cidade. Ainda na noite de ontem, o corpo do rapaz foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) e aguardava ser reconhecido por parentes que já estariam a caminho de Bauru.

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‘Ele ficou desesperado para sair’, diz o taxista

Bastante chocado com o ocorrido, o taxista que levava Rafael Franco Zontini preferiu não ter o nome divulgado. Sentado em uma mureta em frente ao local onde tudo aconteceu, ele relatou que nem sequer sabia o destino final da corrida interrompida de forma trágica. “Eu peguei o jovem na rodoviária e ele me pediu para virar à esquerda quando chegasse no McDonald’s. Lá, ele me diria onde eu iria deixá-lo”.

Ele conta que, quando iniciou o trajeto, a chuva estava moderada e somente foi piorando no decorrer do percurso. Desse modo, ao ver a intensidade das águas, ele tentou parar em um posto de combustíveis localizado na quadra 17 da avenida Nações Unidas.

“Quando a água começou a entrar e o carro a ser arrastado, o jovem se desesperou. Eu dizia para ele que era melhor não sair, mas, ele começou a me empurrar. E nisso, a água somente subia. Eu tentava segurar a direção para o carro não rodar”.

Segundo ele, foi nesse exato momento que chegaram algumas pessoas tentando socorrê-los. “Eles jogaram umas mangueiras para nós segurarmos. Mas, mesmo assim, eu não queria sair”.

Como a água subiu muito, o taxista resolveu segurar a mangueira de água e a enrolou na mão. Segundo ele, Rafael tentou amarrar o equipamento na barriga.

Com isso, ele foi puxado e, quando pulou do veículo e sentiu a força da água, achou que não iria conseguir. “Eu tive que fazer muita força. Amarrei a mangueira no pulso e consegui ir para a parte da calçada, onde estava o pessoal que me puxou”.

Entretanto, ele aponta que, ao passo que foi puxado em direção à lateral, Rafael foi jogado para o meio da avenida e daí por diante não se viu mais a vítima.

“Eu nem tive tempo de saber mais dele. Somente sabia que era de fora. Eu costumo conversar com os passageiros durante a corrida, mas, como estava chovendo, eu me concentrei na direção”, conta o taxista, bastante traumatizado.

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Vizinhos tentaram o socorro com uma mangueira, mas vítima não teve forças

Funcionários de uma seguradora que funciona em um sobrado em frente ao local onde o táxi começou a ser arrastado presenciaram a tragédia e tentaram prestar socorro. Assim que viram que havia pessoas presas no veículo, eles correram em direção ao táxi e jogaram uma mangueira para que eles se segurassem.

“Jogamos a mangueira e vimos que os dois, tanto o jovem quanto o motorista, seguraram nela. Mas, o garoto não conseguiu segurar e foi arrastado”, conta João Paulo, que preferiu não ter o sobrenome divulgado.

Segundo ele, mais cinco funcionários da empresa tentaram realizar o socorro da vítima. “O táxi ‘subia’ a Nações, porém, veio uma correnteza forte e o virou. Assim, ele foi sendo arrastado e bateu em um poste. Quando ele bateu, as portas abriram e nós corremos desesperados para ajudá-los”, relembra.

Ao final da chuva, o táxi estava bastante danificado. O veículo estava com a roda dianteira presa em um buraco a cerca de 100 metros de onde teria batido no poste.

Em frente ao local onde tudo ocorreu, porém, no sentido oposto da avenida, a reportagem flagrou vários carros sendo removidos. João Paulo aponta tal fato para exemplificar a força que, segundo ele, foi a responsável por Rafael não conseguir se salvar. “Para você ter uma ideia, aqueles carros foram atingidos por uma caçamba que desceu com tudo arrastada pela água. Acredito que ele não teve força para se segurar mesmo”, conclui.

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