Cultura

Ão e inha da música

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 4 min

Gonzagão era alegre e extrovertido, Gonzaguinha era sofrido e reservado. Distanciados pela vida e depois reunidos pela música, pai e filho ganham hoje uma homenagem especial, na voz de Denise Amaral. Acompanhada pelo grupo Nossa Voz, a cantora apresenta o espetáculo “Tal Pai, Tal Filho”, a partir das 20h30, na Oficina Cultural “Glauco Pinto de Moraes”. A entrada é gratuita.

Vida e obra desses dois grandes nomes da música brasileira - autores de sucessos como “Asa Branca”(Luiz Gonzaga) e “Espere Por Mim, Morena” (Gonzaguinha) - serão resgatadas pelo show por meio da apresentação de 18 canções (veja repertório completo no quadro), além de textos que pretendem ressaltar a diversidade cultural do Brasil. “Quem não conhece o trabalho deles terá a oportunidade de ser apresentado a dois grandes compositores brasileiros; os demais, terão a possibilidade de relembrar as principais músicas”, convida Denise, cuja principal dificuldade em produzir o espetáculo foi a escolha do repertório.

“O trabalho desses dois músicos é extenso e extremamente rico. E, além das músicas mais conhecidas, nosso desejo era incluir aquelas que ficaram escondidinhas no baú”, afirma a cantora sobre o show, nascido de um desejo pessoal e que, de antemão, foi “abraçado” pelos músicos que a acompanham: Norba Mota, Neto e Toninho Martins.

Filha de retirantes nordestinos - pai alagoano e mãe baiana - Denise vê na obra de Gonzagão uma forma de valorizar suas raízes. “Minha mãe, por exemplo, saiu a pé da Bahia até chegar aqui. Então, cantar as músicas dele é como contar a história da minha família, que veio para Bauru em busca de condições melhores”, recorda. “Gonzagão representa muito a saga dos homens que saíram do nordeste e conquistaram o sul com seu trabalho”, completa sobre o músico, natural de uma pequena vila do sertão de Pernambuco. Já de Gonzaguinha, a cantora destaca o romantismo e o engajamento político.

“No começo ele não foi muito compreendido, por conta da sua postura política. A ideia é apresentar essas duas vertente do músico com o show”, comenta Denise sobre o músico que teve 54 de suas canções censuradas pela ditadura, entre elas o seu primeiro sucesso “Comportamento Geral”. No início da carreira, a postura agressiva de Gonzaguinha rendeu-lhe o apelido de “cantor rancor”. Com o começo da abertura política, ele começou a modificar seu discurso e a compor músicas de tom mais ameno como “Começaria Tudo Outra Vez”, “Explode Coração” e “Grito de Alerta”.

• Serviço

Show “Tal Pai, Tal Filho, Gonzagão e Gonzaguinha” hoje, às 20h30, na Oficina Cultural (rua Amazonas, 1-41). Entrada gratuita. Mais informações pelo telefone (14) 3231-1100.

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Pai e filho

Luiz Gonzaga (1912-1989), o Gonzagão, veio para o Rio de Janeiro em 1939 e, ao lado parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas, criou o baião, uma síntese dos ritmos nordestinos. “Asa Branca”, “Baião de Dois”, “Paraíba” e “Vozes da Seca” são alguns de seus principais sucessos, compostos entre 1945 e 1955.

No total, Gonzagão gravou 210 discos e 312 composições. O baião, antes da bossa nova, foi o primeiro ritmo brasileiro a ter reconhecimento internacional em grande estilo. Redescoberto pela MPB no final dos anos 1960, o músico é reconhecidamente a principal influência na obra de Gilberto Gil, Alceu Valença, Fagner e Elba Ramalho, entre outros.

Já Luiz Gonzaga Junior (1945-1991), o Gonzaguinha, nasceu no Rio de Janeiro. Com a morte precoce da mãe - a cantora Odaleia Guedes dos Santos, que faleceu de tuberculose aos 46 anos -, foi criado pelos padrinhos Dina e Xavier e não pelo pai, Luiz Gonzaga. O fato é tido como o responsável pelo músico ter desenvolvido uma personalidade amarga.

“Uma sombra presente a se alimentar de mistério, dúvida e incerteza fez florescer a personalidade de Luiz Gonzaga do Nascimento Junior. Essa sombra atendia pelo nome de ‘pai’. Ironia do destino, ele carregou seu mesmo nome pelos 45 anos, quase 46, em que viveu e, para se diferenciar de quem o batizou assim, ganhou a alcunha de Gonzaguinha. De Gonzagão herdou o nome. Mas o amor de pai foi preciso arrancar das entranhas do famoso Rei do Baião. Não só o amor, mas ainda o respeito”, escreveu a jornalista Regina Echeverria nas primeiras linhas da biografia “Gonzaguinha e Gonzagão - Uma História Brasileira” (Ediouro).

Depois de muitos anos foi que pai e filho reencontram-se na música. Juntos, chegaram a gravar as coletâneas “Gonzagão & Gonzaguinha Juntos (1991) e “A Viagem de Gonzagão e Gonzaguinha” (1994).

Ao longo de sua carreira, Gonzaguinha lançou 20 discos. Compositor profissional desde os festivais universitários do final da década de 1960, só alcançou o reconhecimento popular quase 10 anos depois, com o grande sucesso romântico “Grito de Alerta”, lançado nas vozes de Maria Bethânia e Agnaldo Timóteo. Após uma apresentação em Pato Branco, no Paraná, Gonzaguinha morreu aos 45 anos vítima de um acidente de carro.

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