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Vossa Excelência, o palhaço

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 3 min

“Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas”, já dizia o chanceler alemão Otto Von Bismarck nos idos do século XIX. Não é minha intenção revirar o seu estômago nem a sua sensibilidade ao discutir, neste momento, sobre o que acontece nas casas de carne, mas é oportuno refletir sobre o que ocorre nas nossas Casas de Lei. Até porque, ainda sob inspiração gastronômica, é com a ajuda das leis, por exemplo, que podemos ter comida mais saudável em nossas mesas ou até, sonhando com um mundo mais ético, substituir o sacrifício animal na produção de alimentos. Ou nada disso! Então, nunca é demais lembrar da responsabilidade, da lisura e da sensibilidade social da parte de quem produz as regras legais que nos regem.

Além da fiscalização do poder executivo, da aprovação de orçamentos e do debate de grandes temas, entre tantas nobres funções, cabe ao poder legislativo produzir leis. Mas são as leis que mudam uma cultura, ou a nossa cultura é quem molda as leis às quais estamos submetidos? O autoritarismo acredita que é possível seguir a partir da primeira premissa, a acomodação fica refém da segunda. Uma sociedade avançada, arejada e aberta aos ventos do bom senso sabe que as duas coisas acontecem juntas.

É essa mistura entre gerações e ideias, aliadas às nossas experiências vividas, que faz o que somos. E numa democracia, é no legislativo onde essa realidade se apresenta na sua forma mais visível. Este é o lugar onde o povo inclui-se como poder em sua forma mais plural; incompreensível a nossa falha em, muitas vezes, negligenciá-lo. Um governo sem o apoio do legislativo torna-se frágil. Para garantir a tal da governabilidade está sujeito a toda a sorte de pressão, nem sempre em prol do interesse público. O contrário é possível. Com folgada maioria, aos amigos, tudo; à sociedade, a conta. Seja qual for o caso, passamos a compreender o quanto a imparcialidade e a independência não devem ser meras abstrações para instituições da envergadura da imprensa e da justiça.  

A verdade é que o parlamento é o nosso grande espelho, gostemos ou não. E devemos preservá-lo. Zelar pela qualidade daqueles que elegemos para integrá-lo é uma obrigação nossa. Nas câmaras, assembleias ou no Congresso, lá estão eleitos nossos sonhos e nossas deficiências, nossas esperanças e nossos descontentamentos. Sem os macacos tiões e os rinocerontes cacarecos, excluídos pela assepsia das urnas eletrônicas, alguns candidatos souberam, de forma competente, capitalizar a indignação de certa parcela do eleitorado.

Pela polêmica gerada e pelo número de votos recebidos, a caso do cearense Francisco Everardo Oliveira Silva, o humorista Tiririca, é um exemplo bem acabado de canalização desse protesto. Isso é legítimo, expressar frustrações, por mais que possa soar deboche. E a classe política, embora tenha melhorado muito, é importante registrar, ainda nos oferece bons motivos para tal. Nós que orgulhosamente já elegemos de médicos a latifundiários, de jogadores a pastores, de militantes a militares, que mal há em chamar um palhaço de Vossa Excelência? Será um bom exercício de humildade, exercite! Enfim, Tiririca não é nenhum herói pelos seus mais de 1, 3 milhão de votos, nem vítima pela falta de trato com as letras, e tampouco vilão por suas travessuras abestadas. Ele é apenas um retrato deste caldo social que somos, e do jogo político que construímos. Para o bem da democracia, e dos brasileiros, devemos desejar ao Tiririca e a todos os democraticamente eleitos, boa sorte. Enquanto isso, ficaremos de olhos e ouvidos atentos para um bom, justo é ético mandato.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista e colaborador do JC

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